Resistência à digitalização pode representar perdas de eficiência, competitividade e qualidade assistencial no setor de saúde
A inteligência artificial ainda desperta receios no setor de
saúde. Questões como segurança de dados, confiabilidade das informações e
impacto na relação médico-paciente costumam dominar o debate sobre inovação na
medicina. Mas, para o médico Dr. João Ladeia, o maior risco atual talvez não
esteja na adoção responsável da tecnologia, e sim em ignorar a transformação
digital que já redefine a prática clínica no Brasil e no mundo.
A digitalização da saúde vem avançando em ritmo acelerado. Segundo
levantamento da consultoria McKinsey & Company, até 30% das atividades
administrativas em saúde podem ser automatizadas com tecnologias já
disponíveis, incluindo tarefas como documentação clínica, organização de dados,
geração de relatórios e fluxos operacionais.
O dado ajuda a explicar um gargalo conhecido pelos profissionais:
médicos passam boa parte da rotina consumidos por burocracias. Estudo publicado
na Annals of Internal Medicine aponta que profissionais podem gastar quase duas
horas em atividades administrativas para cada hora de atendimento direto ao
paciente.
Na prática, isso significa menos tempo para escuta clínica, maior
desgaste cognitivo e redução da eficiência operacional. A consequência não é
apenas financeira, mas também humana. O burnout entre médicos tornou-se um tema
global e foi reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como fenômeno
ocupacional relacionado ao trabalho.
Para o Dr. João Ladeia, médico e porta-voz da Mediccos, a
discussão sobre IA na medicina ainda está excessivamente focada em medo e pouco
em pragmatismo. “A inteligência artificial não deve ser vista como ameaça ao
médico, mas como ferramenta para eliminar tarefas operacionais que não agregam
valor clínico. O risco real está em manter processos antiquados em um setor
cada vez mais pressionado por eficiência e qualidade”, afirma.
Segundo ele, a transformação digital na saúde já não é mais uma
tendência futura, mas uma mudança estrutural em andamento. “Enquanto outros
setores automatizaram fluxos há anos, a medicina ainda convive com excesso de
digitação, retrabalho e sistemas pouco integrados. Isso gera perda de
produtividade e impacto direto na experiência do paciente”, explica.
A adoção tecnológica também ganhou força com mudanças regulatórias
e culturais. A expansão da telemedicina, das prescrições digitais e dos
prontuários eletrônicos criou novas expectativas sobre agilidade e integração
no atendimento. Relatório da consultoria Gartner mostra que organizações de
saúde ao redor do mundo ampliam investimentos em inteligência artificial, especialmente
em automação administrativa e suporte operacional.
Além da eficiência, o médico destaca ganhos em segurança e
padronização. Registros mais completos, documentação automatizada e menor
dependência de processos manuais podem contribuir para redução de falhas
operacionais e melhoria na continuidade do cuidado.
Ao mesmo tempo, a transformação exige responsabilidade. Dados de
saúde são classificados como sensíveis pela legislação brasileira e precisam
seguir critérios rigorosos de proteção. O relatório Cost of a Data Breach
2024, da IBM Security, aponta que o setor de saúde segue liderando o
ranking global de custo médio por vazamento de dados, reforçando a necessidade
de soluções especializadas e conformidade com a LGPD.
Para Ladeia, a resistência à inovação pode gerar um novo tipo de
desigualdade competitiva no setor. “Médicos e clínicas que não incorporarem
automação tendem a operar com menor eficiência, maior custo operacional e mais
desgaste profissional. A tecnologia não substitui o julgamento clínico, mas
amplia a capacidade do profissional”, diz.
Na avaliação do médico, a medicina vive hoje um ponto de inflexão
semelhante ao de outros setores que passaram por grandes ciclos de
digitalização. A diferença é que, na saúde, eficiência operacional e qualidade
assistencial caminham juntas.
“O debate não deveria ser se a medicina vai se transformar
digitalmente, porque isso já está acontecendo. A questão é quem estará
preparado para operar nesse novo cenário”, conclui Dr. João Ladeia.

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