Fenômeno que está relacionado à substituição da vegetação por materiais como asfalto, concreto e alvenaria agrava o aquecimento, aponta pesquisador da USP em evento promovido por FAPESP e NWO
As temperaturas mínima e máxima
do ar na cidade de São Paulo têm aumentado muito acima da média mundial nos
últimos 125 anos. Enquanto a temperatura média global subiu aproximadamente 1,2
°C desde 1900, e a da superfície terrestre, 2 °C – segundo dados do Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) –, na capital paulista a
máxima diária, que ocorre em torno das 13h, cresceu 2,4 °C, acentuando-se
principalmente a partir de 1950. Já a temperatura mínima diária, registrada tipicamente
às 6h, teve um incremento de 2,8 °C desde o início do século 20.
As observações foram feitas
por Humberto Ribeiro da Rocha,
professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da
Universidade de São Paulo (IAG-USP), em palestra apresentada no encontro
“Eventos extremos de calor e água: Mitigando os efeitos adversos das mudanças climáticas
na saúde das cidades”, promovido pela FAPESP e pela Organização Neerlandesa
para Pesquisa Científica (NWO, na sigla em inglês) em 7 de maio, no auditório
da Fundação.
Por meio de estudos conduzidos
no âmbito do Centro para Segurança Hídrica e Alimentar em Zonas Críticas – um
Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) apoiado pela FAPESP –, Rocha e os pesquisadores Miguel de Carvalho Diaféria, Rodrigo Lustosa, Ana Nogueira Campelo e Denise Duarte têm
constatado que as disparidades da temperatura na cidade de São Paulo em relação
à média global estão relacionadas à ilha de calor urbana. O fenômeno ocorre em
áreas urbanizadas que apresentam temperaturas significativamente mais altas
devido à substituição da cobertura de vegetação por materiais de construção,
como asfalto, concreto e alvenaria.
Em um novo estudo, os
pesquisadores vinculados ao centro analisaram as relações entre a ilha de calor
urbana e a cobertura de vegetação em 70 cidades do Estado de São Paulo
utilizando dados de temperatura da superfície terrestre referentes ao período
de 2013 a 2025, obtidos por meio de satélites do programa Landsat, da agência
espacial norte-americana (Nasa).
Os resultados das análises
apontaram que, no verão, a temperatura de superfície nas áreas urbanizadas mais
críticas da Grande São Paulo atinge até 60 °C, marca típica de grandes galpões
industriais. Por outro lado, nas áreas mais frias, com maior cobertura vegetal
e corpos d’água, a temperatura chega, no máximo, a 25 °C.
Outras constatações feitas por
meio do trabalho, em vias de publicação, foram que a temperatura nas áreas
urbanizadas mais quentes da região foi, na média, entre 7 °C e 12 °C superior à
das áreas frias durante o verão.
“Ao olhar a distribuição das
ilhas de calor ao longo do Estado de São Paulo, notamos que há uma grande
concentração na região nordeste, onde também há o cultivo em larga escala de
cana-de-açúcar e, pontualmente, em algumas cidades, como as da Região
Metropolitana de São Paulo, onde as áreas mais quentes são as com maior
densidade populacional. Mas o fenômeno não se restringiu às grandes cidades: as
pequenas também apresentam ilhas de calor de forma consolidada”, ponderou
Rocha.
Efeitos
das ondas de calor
Por meio de um novo projeto
realizado com suporte do CCD e do projeto municipal “Sampa Adapta”, conduzido
pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, os
pesquisadores começaram a medir a temperatura do ar na Região Metropolitana de
São Paulo com o objetivo de identificar o efeito das ondas de calor em escala
regional e local, no nível das ruas e residências. Para isso, analisaram dados
obtidos por 25 estações meteorológicas no nível da rua e no interior de
residências e escolas, além de dezenas de outras mantidas pelo Centro de
Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE), operado pela Defesa Civil do
Estado de São Paulo.
Os resultados das análises
revelaram que, nos últimos 15 anos, durante as ondas de calor, têm sido
registradas em vários locais da Região Metropolitana tardes muito quentes, com
temperaturas variando entre 30 °C e 34 °C. Já à noite, a temperatura do ar por
volta das 22h atinge 28 °C.
“Esse dado é muito crítico, porque
é nesse horário que a maioria das pessoas vai dormir”, disse Rocha.
Nessas condições, a sensação
térmica no interior das casas foi ainda mais exacerbada em razão de uma sucessão
de noites com temperatura em torno de 30 °C. “Várias edificações não tinham
isolamento térmico suficiente contra o calor externo e, à noite, se comportaram
como pequenos fornos aquecidos que retiveram o calor”, comparou Rocha.
A iniciativa Sampa Adapta
integra gestão pública, ciência e participação social para fortalecer e aprimorar
as políticas públicas voltadas ao enfrentamento dos efeitos do calor extremo na
cidade de São Paulo. Os pesquisadores do IAG-USP são responsáveis pela
instalação técnica e análise dos dados obtidos por sensores para estimar a
temperatura do ar no nível da rua, tanto em ambientes internos quanto externos.
Soluções
baseadas na natureza
A implementação de soluções
baseadas na natureza (SbN) pode contribuir para o resfriamento do ar em escala
local, apontou o pesquisador.
Por meio da análise de dados
obtidos por estações meteorológicas, os pesquisadores do CCD avaliaram a
relação entre a temperatura média do ar no nível da rua na Grande São Paulo e
as condições de sombreamento de vegetação em experimentos urbanos. Os
resultados corroboraram a eficiência da cobertura vegetal em promover o “efeito
oásis”, que proporcionou um resfriamento local pronunciado, de até 7 °C, em
relação às ruas urbanizadas.
“Temos vários indícios de que a
revegetação urbana na Região Metropolitana e, de forma geral, no Estado de São Paulo
é não só uma oportunidade potencial, mas também viável para o resfriamento
urbano nos eventos extremos”, afirmou.
Parceria
com os Países Baixos
O evento selou o compromisso de
mais de uma década de cooperação entre a FAPESP e a NWO. O presidente da FAPESP,
Marco Antonio Zago https://fapesp.br/11697, destacou que os Países Baixos estão
entre os dez principais colaboradores científicos de São Paulo.
“Uma das características dessa
cooperação é que ela não é tão grande em número de projetos, mas são sempre de
alta qualidade e selecionados com extremo cuidado, dando origem a artigos e
soluções muito bem referenciados pela literatura científica”, avaliou Zago.
Pelo lado neerlandês, Lilianne
Sweere, oficial de políticas da NWO, celebrou a sinergia encontrada nos cinco
projetos selecionados para os próximos cinco anos. “Ficamos muito satisfeitos
com as discussões e a atitude positiva de trabalhar além de seus próprios
projetos, buscando oportunidades que vão além do cronograma atual”, afirmou.
No mesmo sentido, Julia Rather,
também da NWO, expressou a honra da colaboração que já soma 12 anos. “É
magnífico ver os pesquisadores conversando e colaborando tanto”, disse Rather,
antecipando o convite para a FAPESP Week que ocorrerá no país europeu em
outubro de 2027.
Raul Machado, gerente de
Relações Institucionais da FAPESP, reforçou que o objetivo do evento conjunto é
multiplicar os resultados e as parcerias entre pesquisadores do Brasil e dos
Países Baixos nos próximos anos.
“Estamos muito satisfeitos em
implementar essa iniciativa porque a FAPESP Week não é apenas uma ocasião de
apresentação de projetos científicos; é uma oportunidade de criar parcerias.
Nosso objetivo é que esse número consistente de relacionamentos seja
multiplicado por três”, afirmou.
O evento também contou com a
participação de Thelma Krug, vice-presidente do IPCC entre 2015 e 2022 e membro do Conselho
Superior da FAPESP, que reforçou a urgência de preparar as cidades para
cenários que podem ultrapassar o aquecimento de 1,5 °C ainda neste século.
“A influência humana no
aquecimento é inequívoca e rápida. Sem ela, não conseguiríamos explicar as
mudanças observadas desde 1950”, pontuou Krug, destacando que o IPCC lançará em
2027 um relatório especial focado exclusivamente em cidades, dado o seu
potencial crítico de mitigação.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/temperatura-na-cidade-de-sao-paulo-aumenta-mais-do-que-a-media-global/58116
Nenhum comentário:
Postar um comentário