13 milhões de brasileiros convivem com cefaleia em 15 ou mais dias por mês
Especialistas do Hospital Alemão Oswaldo Cruz alertam para os
riscos da automedicação e explicam quando procedimentos podem fazer parte do
tratamento
Dor de cabeça é uma queixa comum, mas
nem sempre deve ser tratada como algo passageiro. No Brasil, cerca de 95% das
pessoas terão ao menos um episódio de dor de cabeça ao longo da vida, segundo
dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Cefaleia1. O mesmo
levantamento aponta que aproximadamente 70% das mulheres e 50% dos homens
apresentam esse tipo de dor pelo menos uma vez por mês. Em casos mais graves,
cerca de 13 milhões de brasileiros convivem com episódios em 15 ou mais dias
por mês, quadro compatível com cefaleia crônica.
O alerta ganha força no dia 19 de maio, Dia Nacional de Combate à
Cefaleia, data criada para orientar a população sobre os riscos, formas de
prevenção e a importância do diagnóstico adequado. Embora muitas pessoas
recorram ao uso frequente de analgésicos para aliviar os sintomas, a
automedicação pode piorar o problema e contribuir para a cronificação de dores
que antes eram esporádicas.
No mundo, a dimensão do problema ajuda a explicar por que a
cefaleia é tratada como uma questão de saúde pública. Uma análise do Global
Burden of Disease publicada em 2025 na revista The Lancet, estimou que, em
2021, cerca de 2 bilhões de pessoas viviam com cefaleia tensional e 1,2 bilhão
com enxaqueca2. A Organização Mundial da Saúde aponta que esses
transtornos têm impacto pessoal, social e econômico relevante, especialmente
pela perda de produtividade e pela redução da qualidade de vida3.
Segundo o neurologista Dr. Diogo Haddad, coordenador do Centro
Especializado em Neurologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a primeira etapa
para tratar corretamente a cefaleia é entender qual é o tipo de dor, sua
frequência e os sinais associados. Nem toda dor de cabeça é enxaqueca, e nem
toda enxaqueca exige o mesmo tipo de tratamento. Em alguns casos, a cefaleia
pode estar relacionada a tensão muscular, alterações do sono, jejum prolongado,
estresse, consumo excessivo de analgésicos ou doenças que precisam de
investigação específica.
“Quando a dor passa a acontecer muitos dias no mês, interfere na
rotina ou exige uso frequente de medicação, ela deixa de ser apenas um incômodo
e precisa ser avaliada de forma especializada. O diagnóstico correto é o que
define se o paciente precisa de mudança de hábitos, tratamento preventivo,
investigação complementar ou associação de outras estratégias”, afirma o
neurologista.
De acordo com a Classificação Internacional das Cefaleias, a
enxaqueca crônica é caracterizada por dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês,
por mais de três meses, sendo que em pelo menos oito desses dias há
características de enxaqueca4. No caso da enxaqueca crônica, parte
desses episódios apresenta características típicas da doença, como dor pulsátil,
piora com atividade física, náuseas, vômitos, sensibilidade à luz ou ao som.
Sem acompanhamento adequado, muitos pacientes acabam entrando em um ciclo de
dor frequente e uso repetido de analgésicos, o que pode agravar o quadro.
Quando o tratamento vai além dos remédios
Para pacientes com cefaleia crônica ou enxaqueca refratária, ou
seja, aqueles que não apresentam resposta suficiente às medidas convencionais,
procedimentos intervencionistas podem ser considerados como parte do
tratamento. Nesses casos, o neurologista costuma abrir a investigação e
conduzir o diagnóstico, enquanto um especialista em dor aprofunda a avaliação
sobre as opções procedimentais mais adequadas.
Entre as alternativas estão a aplicação de toxina botulínica,
bloqueios anestésicos de nervos periféricos, como o bloqueio do nervo
occipital, e técnicas de neuromodulação. A indicação depende do tipo de
cefaleia, da frequência dos episódios, dos tratamentos já realizados, das
doenças associadas e do grau de incapacidade provocado pela dor.
Segundo a anestesista especialista em dor do Hospital Alemão
Oswaldo Cruz, Dra. Roberta Risso, esses procedimentos não substituem a
investigação neurológica nem devem ser vistos como solução imediata para
qualquer tipo de dor de cabeça. Eles fazem parte de uma estratégia
individualizada, especialmente em pacientes que já convivem com dor frequente,
limitação funcional e baixa resposta ao tratamento medicamentoso.
“Os procedimentos podem ajudar a reduzir a frequência e a
intensidade das crises em pacientes selecionados, mas precisam ser indicados
com critério. A ideia não é tratar uma dor comum de forma agressiva, e sim
oferecer alternativas para quadros crônicos, refratários ou muito
incapacitantes, sempre dentro de um plano terapêutico mais amplo”, explica a
especialista.
A toxina botulínica, mais conhecida pelo uso estético, também tem
aplicação em casos específicos de enxaqueca crônica. Já os bloqueios
anestésicos podem ser utilizados para modular vias de dor em determinados
perfis de pacientes. A neuromodulação, por sua vez, reúne técnicas que buscam
interferir na transmissão dos estímulos dolorosos, podendo ser invasivas ou não
invasivas, conforme a indicação
.
Sinais de alerta
Apesar de a maioria das dores de cabeça estar relacionada a condições
benignas, alguns sinais exigem avaliação médica imediata. Entre eles estão dor
súbita e muito intensa, associada a febre, confusão mental, desmaio, alteração
visual, perda de força, náusea rigidez na nuca, início da dor após trauma,
mudança importante no padrão habitual da cefaleia ou surgimento de uma dor nova
em pessoas acima dos 50 anos.
Também devem procurar avaliação especializada pessoas que sentem
dor de cabeça com frequência, usam analgésicos repetidamente, acordam por causa
da dor, têm prejuízo no trabalho ou nos estudos, ou deixam de realizar
atividades cotidianas por causa das crises.
Para os especialistas, o principal recado é que dor de cabeça
frequente não deve ser normalizada. Com diagnóstico correto, tratamento
individualizado, multidisciplinar e especializado, é possível reduzir crises,
evitar o uso excessivo de medicamentos e melhorar a qualidade de vida dos
pacientes.
Hospital Alemão Oswaldo Cruz
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