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terça-feira, 19 de maio de 2026

Dia Nacional de Combate à Cefaleia (19/5)

13 milhões de brasileiros convivem com cefaleia em 15 ou mais dias por mês 

Especialistas do Hospital Alemão Oswaldo Cruz alertam para os riscos da automedicação e explicam quando procedimentos podem fazer parte do tratamento
 

 Dor de cabeça é uma queixa comum, mas nem sempre deve ser tratada como algo passageiro. No Brasil, cerca de 95% das pessoas terão ao menos um episódio de dor de cabeça ao longo da vida, segundo dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Cefaleia1. O mesmo levantamento aponta que aproximadamente 70% das mulheres e 50% dos homens apresentam esse tipo de dor pelo menos uma vez por mês. Em casos mais graves, cerca de 13 milhões de brasileiros convivem com episódios em 15 ou mais dias por mês, quadro compatível com cefaleia crônica. 

O alerta ganha força no dia 19 de maio, Dia Nacional de Combate à Cefaleia, data criada para orientar a população sobre os riscos, formas de prevenção e a importância do diagnóstico adequado. Embora muitas pessoas recorram ao uso frequente de analgésicos para aliviar os sintomas, a automedicação pode piorar o problema e contribuir para a cronificação de dores que antes eram esporádicas. 

No mundo, a dimensão do problema ajuda a explicar por que a cefaleia é tratada como uma questão de saúde pública. Uma análise do Global Burden of Disease publicada em 2025 na revista The Lancet, estimou que, em 2021, cerca de 2 bilhões de pessoas viviam com cefaleia tensional e 1,2 bilhão com enxaqueca2. A Organização Mundial da Saúde aponta que esses transtornos têm impacto pessoal, social e econômico relevante, especialmente pela perda de produtividade e pela redução da qualidade de vida3. 

Segundo o neurologista Dr. Diogo Haddad, coordenador do Centro Especializado em Neurologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a primeira etapa para tratar corretamente a cefaleia é entender qual é o tipo de dor, sua frequência e os sinais associados. Nem toda dor de cabeça é enxaqueca, e nem toda enxaqueca exige o mesmo tipo de tratamento. Em alguns casos, a cefaleia pode estar relacionada a tensão muscular, alterações do sono, jejum prolongado, estresse, consumo excessivo de analgésicos ou doenças que precisam de investigação específica. 

“Quando a dor passa a acontecer muitos dias no mês, interfere na rotina ou exige uso frequente de medicação, ela deixa de ser apenas um incômodo e precisa ser avaliada de forma especializada. O diagnóstico correto é o que define se o paciente precisa de mudança de hábitos, tratamento preventivo, investigação complementar ou associação de outras estratégias”, afirma o neurologista. 

De acordo com a Classificação Internacional das Cefaleias, a enxaqueca crônica é caracterizada por dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês, por mais de três meses, sendo que em pelo menos oito desses dias há características de enxaqueca4. No caso da enxaqueca crônica, parte desses episódios apresenta características típicas da doença, como dor pulsátil, piora com atividade física, náuseas, vômitos, sensibilidade à luz ou ao som. Sem acompanhamento adequado, muitos pacientes acabam entrando em um ciclo de dor frequente e uso repetido de analgésicos, o que pode agravar o quadro.
 

Quando o tratamento vai além dos remédios

Para pacientes com cefaleia crônica ou enxaqueca refratária, ou seja, aqueles que não apresentam resposta suficiente às medidas convencionais, procedimentos intervencionistas podem ser considerados como parte do tratamento. Nesses casos, o neurologista costuma abrir a investigação e conduzir o diagnóstico, enquanto um especialista em dor aprofunda a avaliação sobre as opções procedimentais mais adequadas. 

Entre as alternativas estão a aplicação de toxina botulínica, bloqueios anestésicos de nervos periféricos, como o bloqueio do nervo occipital, e técnicas de neuromodulação. A indicação depende do tipo de cefaleia, da frequência dos episódios, dos tratamentos já realizados, das doenças associadas e do grau de incapacidade provocado pela dor. 

Segundo a anestesista especialista em dor do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Dra. Roberta Risso, esses procedimentos não substituem a investigação neurológica nem devem ser vistos como solução imediata para qualquer tipo de dor de cabeça. Eles fazem parte de uma estratégia individualizada, especialmente em pacientes que já convivem com dor frequente, limitação funcional e baixa resposta ao tratamento medicamentoso. 

“Os procedimentos podem ajudar a reduzir a frequência e a intensidade das crises em pacientes selecionados, mas precisam ser indicados com critério. A ideia não é tratar uma dor comum de forma agressiva, e sim oferecer alternativas para quadros crônicos, refratários ou muito incapacitantes, sempre dentro de um plano terapêutico mais amplo”, explica a especialista. 

A toxina botulínica, mais conhecida pelo uso estético, também tem aplicação em casos específicos de enxaqueca crônica. Já os bloqueios anestésicos podem ser utilizados para modular vias de dor em determinados perfis de pacientes. A neuromodulação, por sua vez, reúne técnicas que buscam interferir na transmissão dos estímulos dolorosos, podendo ser invasivas ou não invasivas, conforme a indicação
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Sinais de alerta

Apesar de a maioria das dores de cabeça estar relacionada a condições benignas, alguns sinais exigem avaliação médica imediata. Entre eles estão dor súbita e muito intensa, associada a febre, confusão mental, desmaio, alteração visual, perda de força, náusea rigidez na nuca, início da dor após trauma, mudança importante no padrão habitual da cefaleia ou surgimento de uma dor nova em pessoas acima dos 50 anos. 

Também devem procurar avaliação especializada pessoas que sentem dor de cabeça com frequência, usam analgésicos repetidamente, acordam por causa da dor, têm prejuízo no trabalho ou nos estudos, ou deixam de realizar atividades cotidianas por causa das crises. 

Para os especialistas, o principal recado é que dor de cabeça frequente não deve ser normalizada. Com diagnóstico correto, tratamento individualizado, multidisciplinar e especializado, é possível reduzir crises, evitar o uso excessivo de medicamentos e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.


 Hospital Alemão Oswaldo Cruz


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