Produção de saneantes depende de uma
cadeia produtiva com responsável técnico e fiscalização integrada para chegar
ao consumidor com segurança e eficácia
A fabricação de saneantes
exige um ecossistema de alta precisão técnica e conhecimento científico. Para
que os itens de limpeza cheguem às residências com o desempenho adequado, a
indústria deve adotar processos estruturados, nos quais a supervisão
especializada e o controle rigoroso de cada etapa sustentem a confiabilidade do
que é entregue à sociedade.
O Conselho Regional de Engenharia e
Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP) alerta para a importância da
presença de profissionais habilitados inseridos nesses processos. Segundo a
engenheira bioquímica e engenheira química Nelize Maria de Almeida Coêlho,
coordenadora da Câmara Especializada de Engenharia Química (CEEQ) da autarquia,
embora detergentes e desinfetantes sejam itens comuns no cotidiano, sua
viabilidade depende de uma responsabilidade técnica declarada e fiscalização
integrada. Para a pesquisadora, essa engrenagem profissional é o que permite
que produtos tão essenciais circulem com qualidade atestada e sem riscos à saúde.
Etapas críticas do processo de fabricação
Para a profissional, algumas etapas são consideradas críticas na produção dos produtos de limpeza, como a seleção e qualificação das matérias-primas, o tratamento e controle da água industrial, a dosagem precisa dos componentes químicos, o controle de temperatura, pH e viscosidade, além da sanitização, entre outras. “Todas elas precisam operar dentro de parâmetros rigorosamente monitorados para assegurar a estabilidade e o desempenho do produto final”, explica a engenheira.
Após a preparação e mistura no tanque industrial, existe um longo caminho até que o produto chegue às prateleiras. Ele passa por sistemas de transferência em tubulações, tanques intermediários, filtros, linhas de envase e áreas de armazenamento temporário. Segundo Nelize, dentro desse percurso, devem ser realizados testes laboratoriais físico-químicos e microbiológicos para verificar se o lote produzido atende aos padrões de qualidade estabelecidos. Entre os principais ensaios estão a concentração de ativos, a eficiência do sistema conservante e o controle microbiológico para avaliar a ausência, ou o limite seguro, de microrganismos. Somente após aprovação laboratorial o lote pode ser liberado para comercialização.
Nesse contexto, há questionamentos sobre como os microrganismos poderiam sobreviver em produtos destinados justamente à limpeza. A resposta está no fato de que nem todo produto de limpeza possui capacidade esterilizante. Muitos produtos contêm tensoativos e agentes limpantes, mas não necessariamente biocidas em concentração suficiente para eliminar completamente microrganismos. “Além disso, determinados microrganismos conseguem sobreviver em ambientes adversos, especialmente quando existem falhas recorrentes no processo industrial, como contaminação da água utilizada na fabricação, deficiência no sistema conservante da formulação ou formação de biofilmes em tubulações e equipamentos”, detalha a coordenadora.
Por esse motivo, um dos pontos mais críticos da indústria de saneantes é justamente o sistema de limpeza das linhas produtivas. Tubulações industriais precisam passar por processos rigorosos de higienização, realizados por meio da circulação controlada de soluções químicas de limpeza e sanitização, muitas vezes sem necessidade de desmontagem dos equipamentos.
Segurança do produto
A coordenadora da CEEQ destaca o sistema conservante da formulação como elemento fundamental para a segurança do produto. “Conservantes são substâncias adicionadas para impedir a proliferação microbiana ao longo da vida útil do saneante. Quando a formulação é inadequadamente calculada, pode haver concentração insuficiente para proteger o produto ou até incompatibilidades químicas que reduzam a eficácia do conservante”, relata Nelize.
O consumidor deve ficar atento a alterações
perceptíveis como mudanças de cor, separação de fases, formação excessiva de
espuma, presença de partículas, alteração de viscosidade, odores incomuns,
estufamento de embalagens ou mudanças no desempenho, que podem sinalizar degradação
química ou possível contaminação microbiológica. “Entretanto, nem sempre um
produto contaminado apresenta alterações visuais, o que reforça a importância
dos testes laboratoriais e dos sistemas de controle de qualidade realizados
pelas indústrias antes da comercialização”, continua a pesquisadora.
Fiscalização do exercício profissional
O Crea-SP, por meio da CEEQ, ressalta que realiza fiscalizações periódicas para verificar se as indústrias possuem quadros técnicos qualificados e que a presença de um profissional habilitado e registrado no Sistema Confea/Crea é obrigatória em todos os empreendimentos que produzam ou envasem saneantes. “A sociedade deve exigir, inclusive, que as empresas mantenham seus quadros técnicos atualizados. A segurança química e biológica é um direito do cidadão e um dever exercido por meio da fiscalização profissional”, sugere Nelize Maria de Almeida Coêlho.
Além disso, todo lote produzido sob supervisão de um
Engenheiro Químico está vinculado a uma Anotação de Responsabilidade Técnica
(ART). Este documento é o selo de garantia de que um profissional habilitado
responde legalmente pela operação; sem a ART, a fabricação é considerada
irregular.
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