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terça-feira, 19 de maio de 2026

Mulheres sustentam a base da reciclagem, mas ainda são pouco reconhecidas como lideranças, explicam especialistas

Segundo dados do MNCR, 76% dos catadores no Brasil são mulheres;

Empreendedoras defendem mais formação, visibilidade e apoio para que elas sejam reconhecidas como empreendedoras e lideranças da reciclagem
 

A reciclagem no Brasil costuma ser discutida a partir de metas, infraestrutura, logística reversa e regulação. Mas há um elo fundamental dessa cadeia que ainda aparece pouco no centro do debate público: as mulheres que sustentam grande parte do trabalho na base do setor. Segundo dados do Movimento Nacional dos Catadores e das Catadoras de Materiais Recicláveis (MNCR), cerca de 1 milhão de brasileiros trabalham como catadores de materiais recicláveis no país. Desse total, 76% são mulheres. 

O dado evidencia uma realidade que vai além da pauta ambiental: a economia circular brasileira também precisa ser analisada pelo recorte de trabalho, renda, formação e protagonismo feminino. Para Claudia Pires, CEO da SO+MA, startup brasileira especializada em tecnologia para comportamento sustentável e economia circular, o debate sobre reciclagem ainda tende a valorizar mais os indicadores ambientais do que as pessoas que tornam essa cadeia possível. 

Na avaliação da executiva, tratar essas mulheres apenas como mão de obra operacional limita o potencial de transformação do setor. “Existe uma diferença enorme entre enxergar essas mulheres apenas como parte da cadeia e reconhecê-las como lideranças, gestoras e empreendedoras. Muitas já movimentam a reciclagem na prática, organizam rotinas, lidam com desafios financeiros e operacionais e articulam comunidades. O que falta, muitas vezes, é apoio estruturado para que esse conhecimento se transforme em autonomia, crescimento e participação nas decisões”, complementa. 

Essa mudança de olhar também é defendida por Yula Merola, CEO da startup Reuso.Recicla+, empresa de Poços de Caldas (MG) especializada em logística reversa, gestão de resíduos sólidos, tecnologia e rastreabilidade. Com mais de 20 anos de atuação na área, incluindo experiência como gestora pública, ela afirma que o setor ainda é visto de forma limitada. 

“Muitas mulheres trabalham há anos nessa cadeia, organizam equipes, negociam, resolvem conflitos, fazem controle financeiro, lideram cooperativas, mas nem sempre são reconhecidas como gestoras ou empreendedoras. Muitas vezes são vistas apenas como ‘ajuda’ ou como mão de obra. Acho que falta mudar o olhar. A reciclagem precisa deixar de ser tratada como uma atividade de bastidor e passar a ser vista como um setor estratégico. E as mulheres precisam ser reconhecidas como protagonistas dessa transformação”, completa.
 

Da sobrevivência à gestão 

Um dos pontos centrais dessa discussão é o acesso à formação. Para Yula, o apoio mais relevante é aquele que ajuda mulheres da reciclagem a deixarem a lógica da sobrevivência e entrarem na gestão de seus negócios, cooperativas ou iniciativas. “Formação em controle financeiro, precificação, negociação, planejamento, liderança, legislação ambiental e uso de tecnologia faz muita diferença. Às vezes, a mulher sabe fazer o trabalho, conhece a rotina, entende o material, conhece a comunidade, mas não teve acesso às ferramentas de gestão”, afirma. 

Ela também destaca a importância de formalização, acesso a crédito, mentorias, capacitação técnica e abertura de mercado. “Não adianta só dizer ‘empreenda’ se a pessoa não tem estrutura mínima para competir. E tem uma coisa que considero essencial: rede. Mulher precisa de rede. Precisa conversar com outras mulheres, ver exemplos reais, trocar experiências e entender que não está sozinha. Muitas vezes, uma formação boa não é só aquela que ensina uma técnica, mas aquela que faz a pessoa se enxergar capaz de ocupar outro lugar”, diz.

Foi a partir dessa percepção que a SO+MA criou o Empreendedoras da Reciclagem, programa voltado exclusivamente para mulheres que atuam na cadeia da reciclagem. A iniciativa oferece mentorias construídas a partir de um processo de escuta ativa, no qual as participantes compartilham seus desafios, necessidades e experiências. 

Os encontros abordam temas como empreendedorismo, legislação, participação em editais, finanças, liderança, comunicação e saúde mental. A proposta é deslocar o olhar sobre a reciclagem de uma agenda exclusivamente ambiental para uma discussão mais ampla sobre desenvolvimento econômico, inclusão produtiva e fortalecimento da base da cadeia. 

“A profissionalização não pode chegar apenas ao topo da cadeia. Se queremos uma economia circular mais forte, ela precisa chegar também a quem está na ponta, organizando o material, mobilizando territórios e sustentando esse trabalho no dia a dia. Formação, acesso à informação e reconhecimento são fundamentais para que essas mulheres deixem de ocupar apenas o lugar da invisibilidade e passem a ser vistas como protagonistas”, diz Claudia.
 

Reconhecimento não é favor 

Para Yula, reconhecer as mulheres da reciclagem como empreendedoras não é uma concessão, mas uma forma de enxergar a realidade do setor. “Quando uma mulher da reciclagem é vista como empreendedora, ela deixa de ser invisível. Ela passa a ser considerada nas políticas públicas, nos contratos, nos editais e nas parcerias com empresas. Reconhecer essas mulheres como gestoras não é um favor. É enxergar a realidade. Muitas delas já lideram há muito tempo. Só falta o sistema reconhecer isso com seriedade”, completa. 

A pauta ganha relevância em um momento em que temas como empreendedorismo feminino, geração de renda e inclusão produtiva vêm ocupando mais espaço no debate público. Ao mesmo tempo, discussões ambientais mais tradicionais, como reciclagem e logística reversa, começam a exigir novos recortes para mostrar que sustentabilidade também passa por pessoas, trabalho e oportunidades. 

Para Claudia, esse é um ponto essencial para o avanço da economia circular no país. “Não existe circularidade real sem inclusão. Quando uma mulher da reciclagem amplia sua capacidade de gestão, entende melhor seus direitos, aprende a acessar oportunidades e fortalece sua liderança, o impacto não fica restrito a ela. Ele chega à cooperativa, à comunidade, à família e à própria cadeia produtiva”, conclui.

 

SO+MA


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