Empreendedoras defendem mais formação, visibilidade
e apoio para que elas sejam reconhecidas como empreendedoras e lideranças da
reciclagem
A
reciclagem no Brasil costuma ser discutida a partir de metas, infraestrutura,
logística reversa e regulação. Mas há um elo fundamental dessa cadeia que ainda
aparece pouco no centro do debate público: as mulheres que sustentam grande
parte do trabalho na base do setor. Segundo dados do Movimento Nacional dos
Catadores e das Catadoras de Materiais Recicláveis (MNCR), cerca de 1 milhão de
brasileiros trabalham como catadores de materiais recicláveis no país. Desse
total, 76% são mulheres.
O
dado evidencia uma realidade que vai além da pauta ambiental: a economia
circular brasileira também precisa ser analisada pelo recorte de trabalho,
renda, formação e protagonismo feminino. Para Claudia Pires, CEO da SO+MA,
startup brasileira especializada em tecnologia para comportamento sustentável e
economia circular, o debate sobre reciclagem ainda tende a valorizar mais os
indicadores ambientais do que as pessoas que tornam essa cadeia possível.
Na
avaliação da executiva, tratar essas mulheres apenas como mão de obra
operacional limita o potencial de transformação do setor. “Existe uma diferença
enorme entre enxergar essas mulheres apenas como parte da cadeia e
reconhecê-las como lideranças, gestoras e empreendedoras. Muitas já movimentam
a reciclagem na prática, organizam rotinas, lidam com desafios financeiros e
operacionais e articulam comunidades. O que falta, muitas vezes, é apoio estruturado
para que esse conhecimento se transforme em autonomia, crescimento e participação
nas decisões”, complementa.
Essa
mudança de olhar também é defendida por Yula Merola, CEO da startup
Reuso.Recicla+, empresa de Poços de Caldas (MG) especializada em logística
reversa, gestão de resíduos sólidos, tecnologia e rastreabilidade. Com mais de
20 anos de atuação na área, incluindo experiência como gestora pública, ela
afirma que o setor ainda é visto de forma limitada.
“Muitas
mulheres trabalham há anos nessa cadeia, organizam equipes, negociam, resolvem
conflitos, fazem controle financeiro, lideram cooperativas, mas nem sempre são
reconhecidas como gestoras ou empreendedoras. Muitas vezes são vistas apenas
como ‘ajuda’ ou como mão de obra. Acho que falta mudar o olhar. A reciclagem
precisa deixar de ser tratada como uma atividade de bastidor e passar a ser
vista como um setor estratégico. E as mulheres precisam ser reconhecidas como
protagonistas dessa transformação”, completa.
Da sobrevivência à gestão
Um
dos pontos centrais dessa discussão é o acesso à formação. Para Yula, o apoio
mais relevante é aquele que ajuda mulheres da reciclagem a deixarem a lógica da
sobrevivência e entrarem na gestão de seus negócios, cooperativas ou
iniciativas. “Formação em controle financeiro, precificação, negociação,
planejamento, liderança, legislação ambiental e uso de tecnologia faz muita
diferença. Às vezes, a mulher sabe fazer o trabalho, conhece a rotina, entende
o material, conhece a comunidade, mas não teve acesso às ferramentas de
gestão”, afirma.
Ela
também destaca a importância de formalização, acesso a crédito, mentorias,
capacitação técnica e abertura de mercado. “Não adianta só dizer ‘empreenda’ se
a pessoa não tem estrutura mínima para competir. E tem uma coisa que considero
essencial: rede. Mulher precisa de rede. Precisa conversar com outras mulheres,
ver exemplos reais, trocar experiências e entender que não está sozinha. Muitas
vezes, uma formação boa não é só aquela que ensina uma técnica, mas aquela que
faz a pessoa se enxergar capaz de ocupar outro lugar”, diz.
Foi
a partir dessa percepção que a SO+MA criou o Empreendedoras da Reciclagem,
programa voltado exclusivamente para mulheres que atuam na cadeia da
reciclagem. A iniciativa oferece mentorias construídas a partir de um processo
de escuta ativa, no qual as participantes compartilham seus desafios,
necessidades e experiências.
Os
encontros abordam temas como empreendedorismo, legislação, participação em
editais, finanças, liderança, comunicação e saúde mental. A proposta é deslocar
o olhar sobre a reciclagem de uma agenda exclusivamente ambiental para uma
discussão mais ampla sobre desenvolvimento econômico, inclusão produtiva e
fortalecimento da base da cadeia.
“A
profissionalização não pode chegar apenas ao topo da cadeia. Se queremos uma
economia circular mais forte, ela precisa chegar também a quem está na ponta,
organizando o material, mobilizando territórios e sustentando esse trabalho no
dia a dia. Formação, acesso à informação e reconhecimento são fundamentais para
que essas mulheres deixem de ocupar apenas o lugar da invisibilidade e passem a
ser vistas como protagonistas”, diz Claudia.
Reconhecimento não é favor
Para
Yula, reconhecer as mulheres da reciclagem como empreendedoras não é uma
concessão, mas uma forma de enxergar a realidade do setor. “Quando uma mulher
da reciclagem é vista como empreendedora, ela deixa de ser invisível. Ela passa
a ser considerada nas políticas públicas, nos contratos, nos editais e nas
parcerias com empresas. Reconhecer essas mulheres como gestoras não é um favor.
É enxergar a realidade. Muitas delas já lideram há muito tempo. Só falta o
sistema reconhecer isso com seriedade”, completa.
A
pauta ganha relevância em um momento em que temas como empreendedorismo
feminino, geração de renda e inclusão produtiva vêm ocupando mais espaço no
debate público. Ao mesmo tempo, discussões ambientais mais tradicionais, como
reciclagem e logística reversa, começam a exigir novos recortes para mostrar
que sustentabilidade também passa por pessoas, trabalho e oportunidades.
Para
Claudia, esse é um ponto essencial para o avanço da economia circular no país.
“Não existe circularidade real sem inclusão. Quando uma mulher da reciclagem
amplia sua capacidade de gestão, entende melhor seus direitos, aprende a
acessar oportunidades e fortalece sua liderança, o impacto não fica restrito a
ela. Ele chega à cooperativa, à comunidade, à família e à própria cadeia
produtiva”, conclui.
SO+MA

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