Nas últimas duas semanas, as disputas entre os pré-candidatos à Presidência da República acirraram as brigas e as narrativas entre os partidos governistas — o PT e seus aliados — e os partidos de oposição.
A tensão
aumentou em razão do vazamento de um vídeo de uma conversa entre o senador
Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-presidente do Banco Master,
acusado de inúmeros crimes e apontado como responsável pelo maior escândalo de
corrupção do país. O senador, pego de surpresa com o vazamento do áudio, tem se
esforçado para demonstrar que não houve nenhuma irregularidade no diálogo
revelado.
Flávio Bolsonaro
admitiu, publicamente, que a conversa com Vorcaro ocorreu para tratar de um
pedido de patrocínio para custear o filme Dark Horse, que
contaria a história de vida de seu pai, Jair Messias Bolsonaro. Em recente
entrevista à CNN Brasil, o senador afirmou: “Quando houve esse contato com ele,
Daniel Vorcaro era um astro no Brasil. Circulava bem entre autoridades de
Brasília, era cortejado por bancos, não tinha problema nenhum. Portanto, foi
naquele momento o maior investidor desse filme, com dinheiro privado”.
Que Daniel
Vorcaro circulava entre as maiores autoridades do país é indiscutível,
podendo-se citar alguns fatos retratados na imprensa:
- Contrato de R$
129 milhões com a advogada Viviane Moraes, esposa do ministro Alexandre de
Moraes;
- Venda do Resort
Tayayá, da empresa que tinha como sócio o ministro Dias Toffoli, por um
fundo de investimento ligado a Fabiano Zettel (que se encontra preso),
cunhado de Vorcaro;
- Suspeita de
mesada ao ex-senador Ciro Gomes para apresentar emenda parlamentar
redigida por Vorcaro, beneficiando os interesses do Banco Master;
- Encontro de
Vorcaro com o presidente Lula fora da agenda oficial.
As notícias
tomaram as páginas da imprensa, portais da web e redes sociais. Personalidades
do mundo político da oposição, a exemplo de Moro, Dallagnol e Caiado, entre
tantos outros, saíram em defesa de Flávio Bolsonaro. Por outro lado, políticos
da situação — que outrora eram contra todo e qualquer tipo de CPI, CPMI e
quebras de sigilo de pessoas ligadas ao presidente Lula para investigar desvios
que pudessem envolver o governo — agora se apresentam como paladinos da moral,
chegando, a exemplo do deputado Lindbergh, a falar em pedido de prisão de
Flávio Bolsonaro.
A verdade é
que toda história há de ser apurada com o rigor da lei, mas o simples fato do
patrocínio de um filme por uma empresa que, até então, não era investigada, e
sem que haja troca de benefícios comprovados, não constitui crime.
Apenas para
relembrar, o filme Lula, o Filho do Brasil foi
patrocinado por 18 empresas privadas, entre elas Camargo Corrêa, Odebrecht e
JBS, que na época não estavam envolvidas em escândalos de corrupção. Deltan
Dallagnol, na época procurador da Lava Jato, esclareceu em seu canal no YouTube
o seguinte:
"Em
2009, o filme Lula, o Filho do Brasil foi
patrocinado por 18 empresas. Três delas, adivinhem, eram empreiteiras que
depois caíram na Lava Jato. (...). As três receberam bilhões em obras do PAC do
governo Lula. E sabe o que a Lava Jato fez neste caso específico do filme? Não
acusou o Lula. Por quê? Porque para cravar que existe um crime, para você fazer
uma acusação criminal responsável, a investigação precisa comprovar que o
pagamento financeiro foi feito em troca de uma vantagem ilegal. Se você paga
para obter uma decisão do governo em favor de sua empresa, é corrupção. Por
outro lado, doação para um projeto cultural, por pior que seja o projeto, é
legal, é lícito. (...)"
O fato é que
todos os escândalos envolvendo políticos, sejam eles de direita ou de esquerda,
precisam ser apurados. Como diz o jargão das redes sociais, não há espaço para
"bandidos de estimação".
Importante
destacar que o próprio senador Flávio Bolsonaro assinou o pedido de criação da
CPMI do Banco Master, demonstrando tranquilidade quanto aos seus atos e busca
por transparência para seus eleitores. Essa postura diverge da adotada pela ala
governista, que, na CPMI do INSS, votou contra a sua necessária prorrogação,
após uma vergonhosa manobra com a troca de membros da comissão para rejeitar o
relatório apresentado pelo deputado Alfredo Gaspar.
Que a CPMI
do Banco Master seja instalada e trabalhe com a seriedade necessária de uma
Comissão Parlamentar de Inquérito, aprofundando as investigações e apurando
responsabilidades, sem servir apenas de palanque eleitoreiro.
Tenho dito!
Bady Curi Neto - advogado
fundador do Escritório Bady Curi Advocacia Empresarial, ex-juiz do Tribunal
Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) e Professor Mestre Universitário
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