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terça-feira, 19 de maio de 2026

Endometriose e dietas da moda: separando o joio do trigo

 

A endometriose é uma doença benigna que afeta quase oito milhões de brasileiras e caracteriza-se pela presença de tecido menstrual (endométrio) fora do útero, podendo atingir não só os órgãos reprodutivos, mas também intestino, bexiga e até os pulmões.  Cólicas menstruais intensas e infertilidade são queixas comuns em mulheres com endometriose, mas dor durante as relações sexuais e ao evacuar e urinar também podem ser encontradas.

Ao longo da vida, a endometriose pode comprometer o enfrentamento aos desafios diários, resultando em limitações para alcançar objetivos de vida, como concluir os estudos; avançar na vida profissional; interferir no desenvolvimento de relacionamentos estáveis e gratificantes ou afetar as chances de gravidez e formação de uma família, o que em suma acaba alterando profundamente a trajetória e a qualidade de vida de uma pessoa.

Apesar de ser tema frequente de pesquisas em todo o mundo, vários aspectos relacionados às causas e ao desenvolvimento da endometriose permanecem desconhecidas, não havendo nenhum tratamento curativo. Se há infertilidade, muitas vezes a opção são as técnicas de reprodução assistida. O tratamento deve ser individualizado dependendo dos sintomas, da idade da mulher e do desejo de engravidar no futuro. 

Estudos revelam que os melhores resultados são obtidos quando o tratamento é realizado por equipe multidisciplinar levando em consideração todas estas questões. As evidências científicas indicam que para os casos de dor, além da cirurgia e da suspensão da menstruação, o tratamento pode ser feito de modo seguro e eficaz com várias medicações hormonais disponíveis. Infelizmente nenhuma medicação é capaz de curar a doença. Neste contexto, dieta e atividade surgem como aliados importantes no alívio da dor e melhora da qualidade de vida.

A endometriose é considerada uma doença inflamatória e, por isso, a ideia de adotar uma dieta com alimentos considerados anti-inflamatórios vem se popularizando principalmente nas mídias sociais. No Brasil há cerca de 170 milhões de usuários de plataformas digitais, a maioria mulheres e o tema mais buscado é saúde. Dessa forma, não é difícil encontrar perfis apregoando dietas e suplementos quase milagrosos para tratar inúmeras afecções, incluindo endometriose.

Em relação à dieta, os estudos publicados até o momento apresentam resultados inconclusivos e heterogêneos. A adoção de uma dieta anti-inflamatória (rica em ômega-3 e vitaminas C, D e E) pode contribuir para redução da dor pélvica, particularmente quando seguida de forma consistente. A redução da ingestão de alimentos ultraprocessados, aliada ao consumo de três ou mais porções de frutas e vegetais e de laticínios com baixo teor de gordura são recomendáveis. É importante salientar que a dieta não deve ser o único tratamento adotado em casos de endometriose e a avaliação de uma nutricionista assim como atividade física regular e avaliação médica para excluir outras causas de dor pélvica que podem estar concomitantemente presentes é fundamental.

No que tange aos conteúdos encontrados em mídias sociais, as pessoas devem estar cientes de que devido à grande quantidade de informações postadas por praticamente qualquer pessoa, o conteúdo deve ser questionado já que a maioria das postagens não passa por verificação adequada nem qualquer tipo de validação científica. Além disso, muitas têm interesses comerciais explícitos ou velados.

Buscar referenciamento nos perfis de profissionais de saúde e organizações médicas assim como a orientação de seu médico ainda são medidas recomendáveis. Apesar de todos os avanços e disseminação de informações, ainda não é possível substituir uma avaliação médica especializada por uma live ou vídeo na rede social.

  

Márcia Mendonça Carneiro - Ginecologista do Biocor Rede D’Or, Professora Titular- Departamento de Ginecologia e Obstetrícia – Faculdade de Medicina da UFMG


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