Mudanças no
sistema de créditos podem elevar custos indiretos e pressionar a
sustentabilidade de instituições filantrópicas
Envato
A reforma tributária em implementação no Brasil
traz um alerta importante para as instituições filantrópicas. Mesmo com a
manutenção das imunidades constitucionais, o novo sistema de tributação sobre o
consumo pode aumentar os custos indiretos das organizações sociais, exigindo a
revisão urgente do planejamento financeiro, dos contratos e da gestão de
fornecedores.
Prevista na Lei Complementar nº 214/2025, a reforma
substitui gradualmente os tributos vigentes por dois novos impostos: a
Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto sobre Bens e Serviços
(IBS). A mudança altera a lógica de formação de preços ao longo da cadeia produtiva
e tende a impactar diretamente os valores pagos pelas instituições
filantrópicas na compra de insumos e na contratação de serviços.
Embora as entidades beneficentes mantenham
imunidades fiscais, o novo modelo, baseado na geração e na compensação de créditos
tributários ao longo da cadeia, cria um desafio adicional: muitas dessas
organizações não conseguem aproveitar esses créditos da mesma forma que as
empresas tributadas. Como consequência, parte desse custo pode ser repassada ao
preço final dos produtos e serviços adquiridos.
Na prática, isso pode encarecer itens essenciais
para a operação de instituições sociais — como medicamentos, materiais
hospitalares, equipamentos médicos, tecnologias educacionais e serviços
especializados.
Um estudo técnico da LCA Consultoria Econômica,
encomendado pelo Fórum Nacional das Instituições Filantrópicas (Fonif), aponta
que a reforma tributária poderá elevar a carga indireta das instituições
filantrópicas em diferentes áreas de atuação. O impacto estimado é de 4,2% na
educação, 11,2% na assistência social e 1,8% na saúde.
O tema é especialmente sensível no setor de saúde.
De acordo com a Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos (CMB),
instituições filantrópicas são responsáveis por mais de 60% das internações de
alta complexidade no Sistema Único de Saúde (SUS). A rede reúne cerca de 1,8
mil hospitais e aproximadamente 184 mil leitos, dos quais 129 mil atendem ao
SUS. Nesse contexto, qualquer aumento indireto de custos pode comprometer a
sustentabilidade financeira de serviços essenciais.
Para especialistas da área tributária, um dos
principais erros das organizações é tratar a reforma apenas como um assunto
contábil. Segundo a diretora de Relações Institucionais e Governamentais do
Grupo Marista, Carmem Murara, a mudança exige uma abordagem integrada. “A
reforma altera o modelo de tributação sobre o consumo no país e impõe novas
regras de controle, rastreabilidade e gestão das operações. Isso impacta
contratos, custos operacionais, sistemas e governança”, afirma.
Instituições que dependem de previsibilidade
financeira — como hospitais e entidades educacionais beneficentes — podem
sentir os efeitos dessas mudanças com maior intensidade caso não se preparem
com antecedência.
O que as instituições devem
fazer agora
- Revisar
contratos com fornecedores
Analise cláusulas de reajuste e a formação de preços na nova lógica tributária. “Alguns contratos podem embutir custos adicionais decorrentes do novo sistema de créditos”, alerta. - Mapear
impactos na cadeia de suprimentos
Identifique fornecedores que poderão repassar aumentos de custos e avalie alternativas para manter a previsibilidade de despesas. - Integrar
áreas fiscal, financeira e de compras
A reforma exige gestão integrada entre departamentos. “Decisões isoladas podem gerar distorções de custo ou perda de eficiência operacional”, aponta Carmem. - Atualizar
sistemas e controles internos
O novo modelo exige maior rastreabilidade das operações e adaptação tecnológica para o controle adequado dos créditos tributários. - Reavaliar
o planejamento financeiro de médio prazo
Simulações de impacto devem ser incorporadas ao orçamento institucional para evitar desequilíbrios operacionais.
Governança passa a ser fator
crítico
Algumas organizações já estão tratando a adaptação
ao novo modelo como um projeto institucional. No Grupo Marista, que mantém o
Hospital Universitário Cajuru (100% SUS) e concede bolsas de estudo na
Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), foi criado um comitê
interno para acompanhar os impactos da reforma tributária. O grupo reúne áreas
fiscais, financeiras, de suprimentos, de tecnologia e de governança para
revisar processos, contratos e sistemas. A iniciativa permitiu mapear riscos e
identificar oportunidades, como ajustes na cadeia de fornecedores e o
aprimoramento da gestão de custos.
“O Hospital Universitário Cajuru desempenha um
papel essencial no acesso da população a atendimentos de alta complexidade. A
manutenção desse padrão de assistência depende de um ambiente financeiro
estável e previsível, que permita à instituição seguir garantindo a qualidade e
a continuidade dos serviços prestados”, destaca o coordenador de Captação de
Recursos da instituição, Marco Sanfelice.
A principal lição é clara: a reforma tributária não
representa apenas uma mudança na legislação fiscal, mas uma transformação
estrutural na gestão das operações. “Antecipação, integração entre áreas e
análise consistente dos impactos financeiros são fundamentais para garantir a
sustentabilidade das atividades filantrópicas”, conclui Carmem.
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