São 3,28
milhões de lares com algum tipo de dívida e 946 mil famílias inadimplentes na capital
O endividamento das famílias
paulistas chegou a 72,9% em abril, o maior nível em três anos, segundo a Pesquisa de
Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), divulgada
mensalmente pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo
(FecomercioSP). O índice era de 71,1% em março, e
de 70,2% em abril do ano passado. São 3,28 milhões de lares na capital com
algum tipo de dívida [gráfico 1].
[GRÁFICO
1]
Pesquisa
de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC)
12
meses
Fonte: FecomercioSP
Segundo a FecomercioSP, a alta
reflete o impacto da inflação de março sobre o orçamento familiar. Com os
preços de alimentos e combustíveis pressionados e agravados pelo conflito no
Oriente Médio, parte dos lares passou a recorrer ao crédito para cobrir
despesas do cotidiano. O mercado de trabalho aquecido ainda evita que o quadro
se agrave com mais rapidez, mas a pressão sobre as finanças vem crescendo de
forma consistente.
Cartão de crédito é o principal fator
de endividamento
O avanço do endividamento foi
observado em todas as faixas de renda. Entre as famílias que ganham até dez
salários mínimos, o porcentual subiu de 74,5% para 76,3%. Entre as de renda
superior a dez salários mínimos, a alta foi de 61,3% para 63,1%. O cartão de
crédito segue como a principal modalidade de dívida, presente em 79,6% dos casos,
reflexo de que muitas famílias recorrem ao crédito rotativo para manter o
consumo do dia a dia [gráfico 2].
[GRÁFICO
2]
Modalidades
de dívidas das famílias paulistanas
Abril
de 2026
Fonte:
FecomercioSP
A parcela da renda comprometida com
dívidas recuou levemente — de 26,7% em março, para 26,5% em abril, número
abaixo dos 29,2% registrados no mesmo período de 2025. O prazo médio das
dívidas também caiu, de 7,5 para 6,8 meses, na comparação com abril do ano
passado. Esse é um indicador de que as famílias estão buscando crédito de prazo
mais curto, voltado para despesas imediatas (como alimentação e contas
básicas), e não para a aquisição de bens ou projetos de médio e longo prazo. A
renda, para muitos lares, não está sendo suficiente para fechar o mês.
O tempo de comprometimento de renda
com dívidas no prazo de até três meses subiu para 33,6% em abril, acima dos
32,1% de março e dos 28,1% registrados no mesmo período do ano passado. Esse é
um movimento típico do cartão de crédito, modalidade de curto prazo que foi
escolhida pelos endividados. Já no prazo de até um ano, o índice recuou
levemente (de 35% para 34,3%) e segue bem abaixo dos 41,3% registrados no mesmo
período do ano passado — perfil associado a financiamentos de maior duração,
como os de imóveis e veículos.
[GRÁFICO
3]
Tempo
de comprometimento com dívida
Abril
de 2026
Fonte:
FecomercioSP
946 mil famílias paulistas com contas em atraso
A inadimplência se manteve estável em
abril, ao atingir 21% das famílias. Em março, esse número era de 20,9%, e no
mesmo período do ano passado, de 20,6%. São 946 mil famílias com pelo menos uma
conta em atraso na capital. Entre o total dos lares, 9,1% declaram não ter
condições de quitar as dívidas — em março, o indicador registrava 8,9%.
Trata-se de um grupo que dificilmente consegue se recuperar sem algum tipo de
renegociação. Na faixa de menor renda, esse porcentual avançou de 11,4% para
11,8%, enquanto entre as de renda mais alta permaneceu estável em 3,3%.
As famílias estão levando mais tempo
para regularizar sua situação: o tempo médio de atraso das dívidas subiu de 60
para 66,6 dias, com crescimento nos casos entre 30 e 90 dias. No entanto, a
intenção de contrair novo crédito nos próximos três meses também cresceu,
passando de 11,4% para 12,2%. Desse grupo, 83,7% pretendem usar os recursos
para consumo e compras do cotidiano, e apenas 10% para quitar dívidas
existentes, o menor índice desde junho de 2025. O cenário sugere que o ciclo de
endividamento tende a se manter nos próximos meses.
A FecomercioSP analisa que, no curto
prazo, a tendência é de leve piora da inadimplência. A conjuntura ainda está
distante de uma crise, mas a combinação de endividamento em máxima histórica
recente, atrasos mais longos, expansão do crédito de curto prazo e pressão
inflacionária persistente merece atenção. Qualquer enfraquecimento do mercado
de trabalho pode acelerar essa deterioração.
A Entidade avalia que as medidas do
Desenrola 2.0 do governo federal têm eficácia limitada, por ser paliativa. Os
descontos ajudam quem já tem alguma capacidade de pagamento, mas não resolvem a
situação de quem simplesmente não consegue pagar. A eventual liberação do FGTS
pode oferecer um alívio pontual, mas não combate o problema na raiz. Segundo a Federação,
o caminho mais efetivo passa pela redução dos juros cobrados ao consumidor,
pela ampliação da educação financeira e por políticas que garantam a
sustentação da renda de forma consistente.
Nota
metodológica
PEIC
A
Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) é apurada
mensalmente pela FecomercioSP desde fevereiro de 2004. São entrevistados
aproximadamente 2,2 mil consumidores na capital paulista. Em 2010, houve uma
reestruturação do questionário para compor a pesquisa nacional da Confederação
Nacional do Comércio (CNC), e, por isso, a atual série deve ser comparada a
partir de 2010.O objetivo da PEIC é diagnosticar os níveis tanto de
endividamento quanto de inadimplência do consumidor. O endividamento é quando a
família possui alguma dívida. Inadimplência é quando a dívida está em atraso. A
pesquisa permite o acompanhamento dos principais tipos de dívida, do nível de
comprometimento do comprador com as despesas e da percepção deste em relação à
capacidade de pagamento, fatores fundamentais para o processo de decisão dos
empresários do comércio e demais agentes econômicos, além de ter o detalhamento
das informações por faixa de renda de dois grupos: renda inferior e acima dos
dez salários mínimos.
FecomercioSP



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