Segundo turno: o impacto político e internacional de uma eleição sob tensão
As eleições presidenciais realizadas em Portugal produziram um resultado que, mais do que definir dois nomes para o segundo turno, expõe com clareza uma profunda recomposição do tabuleiro político do país. O que está em jogo nas próximas três semanas não é apenas a escolha de um presidente da República, mas a definição de que tipo de país Portugal deseja continuar a ser em um mundo cada vez mais instável e polarizado.
Os números são politicamente reveladores. A esquerda, somada, ultrapassa pouco mais de 35% dos votos. Já os diversos partidos da direita, em conjunto, superam os 40%. O paradoxo é que, apesar dessa maioria aritmética, a direita chega a este momento fragmentada, indecisa e sem uma linha comum de orientação. Enquanto isso, a esquerda fecha fileiras em torno de António José Seguro, não tanto por força própria, mas por instinto de contenção diante do risco representado pela extrema-direita.
Esse dado é central para a compreensão do momento político. A esquerda, sozinha, não dispõe de votos suficientes para vencer. Depende, necessariamente, de uma parcela do eleitorado da direita democrática e moderada. Ao mesmo tempo, os partidos da direita tradicional, apesar de representarem uma fatia maior do eleitorado, recusam-se até agora a fazer uma escolha clara. Uns não querem, por razões evidentes, associar-se à extrema-direita. Outros tampouco desejam assumir o custo político de apoiar um candidato de centro-esquerda. O resultado é uma espécie de neutralidade tática, um silêncio calculado, que mantém o desfecho em aberto e torna o cenário mais imprevisível e arriscado.
É nesse contexto que o perfil dos dois candidatos ganha importância decisiva. António José Seguro representa, goste-se ou não de sua linha política, uma solução de continuidade institucional. Seu perfil é previsível, conciliador e alinhado à tradição republicana portuguesa. Em muitos aspectos, aproxima-se bastante do modelo atualmente representado na Presidência da República: um estilo baseado no diálogo, na construção de pontes, na moderação e na estabilidade.
Do outro lado, André Ventura representa uma ruptura. Não apenas no tom, mas na própria forma de fazer política. Seu discurso é confrontacional, identitário e sustentado pela tensão permanente, explorando temas que atingem diretamente a imigração, as minorias e a relação de Portugal com o exterior. Ainda que muitas de suas propostas encontrem limites no sistema constitucional e no Parlamento, a simples presença de uma presidência com esse perfil alteraria de forma significativa o clima político, institucional e social do país.
O momento torna-se ainda mais sensível diante do comportamento dos candidatos e partidos que ficaram pelo caminho. O almirante Henrique Gouveia e Melo, que iniciou a disputa como favorito e terminou em quarto lugar, afirma que ainda é cedo para se posicionar. Luís Marques Mendes declara não ser dono dos votos e recusa endossar qualquer candidato. O primeiro-ministro e líder do PSD adota a mesma linha de neutralidade. João Cotrim de Figueiredo, apesar de criticar duramente o cenário que se formou, também não recomenda voto em nenhum dos dois. A liderança da Iniciativa Liberal afirma que ainda ouvirá os órgãos internos do partido. Tudo isso aponta para uma direita que, embora majoritária em número de eleitores, não consegue transformar essa força em um direcionamento político claro.
Enquanto isso, André Ventura faz sua leitura com frieza estratégica. Afirma que os resultados demonstram que o Chega lidera a direita e que só perderá por falta de união dos demais. Trata-se de uma aposta explícita na fragmentação, na ambiguidade e no desgaste do eleitorado.
Desenha-se, portanto, uma eleição em que uma parcela significativa do eleitorado decisivo não se identifica nem com a esquerda nem com a extrema-direita, mas com a direita moderada, que terá de escolher entre a continuidade institucional — ainda que representada por um candidato que não lhe é natural — ou uma experiência de ruptura com consequências imprevisíveis.
Para a comunidade imigrante, para investidores, empresas e para quem observa Portugal como um país estável e previsível, essa não é uma discussão abstrata. A Presidência da República não governa diretamente, mas influencia o clima político, o tom do debate público, as prioridades simbólicas do país e a forma como Portugal é percebido no exterior. Uma mudança abrupta nesse eixo teria impactos reais, ainda que graduais.
Tudo isso ocorre em um contexto internacional particularmente sensível. As democracias estão sob pressão em diversas partes do mundo. A Europa enfrenta tensões geopolíticas, econômicas e estratégicas profundas. O mundo se fragmenta, fecha-se em blocos e radicaliza discursos. Nada do que acontece em Portugal está dissociado desse ambiente global.
É importante destacar que o processo eleitoral português transcorreu com absoluta normalidade, transparência e solidez institucional. O debate não diz respeito ao sistema, mas ao sentido da escolha.
As próximas três semanas serão, portanto, decisivas. Não apenas
para definir quem ocupará o Palácio de Belém, mas para determinar que mensagem
Portugal deseja enviar ao mundo: a de um país que, mesmo em tempos difíceis, reafirma
sua tradição de moderação, abertura e previsibilidade; ou a de um país que
ingressa, ainda que parcialmente, na lógica da ruptura, do confronto e da
política construída a partir do medo.

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