O Janeiro Branco costuma trazer imagens de pausa, equilíbrio e autocuidado. No ambiente corporativo, entretanto, há um fator menos visível, mas igualmente determinante para o bem-estar: a forma como as pessoas se comunicam ou deixam de se comunicar. Palavras mal escolhidas, omitidas ou ambíguas podem gerar desgaste emocional contínuo.
Parte desse adoecimento nasce do silêncio organizacional. Não o
silêncio atento, mas aquele imposto pelo medo ou pelo cálculo de risco. Em
muitas empresas, falar exige medir consequências, suavizar alertas e calibrar
frases para não gerar atrito. O resultado é um ambiente onde a autocensura se
confunde com cordialidade, e a ausência de conflito é interpretada erroneamente
como maturidade.
Pesquisas indicam que esse silêncio não é individual, mas
estrutural. Pessoas deixam de se manifestar não por falta de assertividade, mas
porque aprenderam que discordar pode custar reputação, oportunidades ou
pertencimento. Decisões pré-definidas, feedbacks escassos ou confusos e
estratégias mal alinhadas transformam a comunicação em fonte constante de
insegurança.
O contraste com o discurso corporativo é marcante. Levantamento de
2025 da Câmara Americana de Comércio (Amcham) indica que 58% de CEOs e gestores
consideram a comunicação uma habilidade estratégica para o futuro do trabalho.
Um relatório de 2024 da Grammarly reforça o impacto dessa lacuna, uma vez que
86% de funcionários e executivos apontam a comunicação e a colaboração
deficientes como principais causas de falhas organizacionais, e, em média,
gastam 3,2 horas por semana esclarecendo informações pouco claras.
Há um custo invisível nas conversas mal conduzidas. Líderes que
acreditam ser claros, mas não são; gestores que interrompem ou desautorizam o
diálogo; tentativas de “suavizar” temas delicados que apenas adiam decisões
necessárias. Esses padrões aumentam a sobrecarga cognitiva, alimentam
ansiedade, frustração e sensação de desamparo nas equipes.
O erro está em associar saúde mental à ausência de tensão. O que
protege é a clareza. Conflitos abertos, quando tratados com respeito e
critérios explícitos, são menos nocivos do que tensões silenciadas.
Para que o Janeiro Branco deixe um legado concreto, a comunicação
deve ser tratada como infraestrutura de saúde, e não apenas como técnica
interpessoal. É preciso revisar relações de poder, práticas de escuta e
critérios de decisão. A pergunta central deixa de ser apenas “como estão se
sentindo?” e passa a incluir “quem pode se expressar sem sofrer consequências?”
A seguir, quatro práticas para uma comunicação que cuida:
- Priorizar mensagens objetivas, com critérios, prazos e expectativas claros, mesmo em temas sensíveis;
- Tornar as conversas frequentes, previsíveis e abertas à escuta, reduzindo o peso emocional;
- Comunicar decisões, mudanças e prioridades de forma consistente, evitando ambiguidades;
- Criar condições reais para que opiniões divergentes sejam
expressas sem risco de retaliação.
Comunicar bem não é suavizar tudo, mas sustentar diálogos que preservam
a saúde emocional, respeitando a inteligência, os limites e a dignidade de quem
trabalha.
Vivian Rio Stella - doutora em
Linguística pela Unicamp, pós-doutora pela PUC-SP e idealizadora da VRS Academy
e participantes do TEDx Jundiaí.
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