Com o aumento da expectativa de vida e a atuação da mulher na
sociedade, a menopausa passa a ter cada vez mais importância no dia a dia
Livros como “A menopausa e o cérebro” da neurocientista
Lisa Mosconi se propõe a discutir um outro lado da menopausa, nada ligado à
simples ginecologia e vem fazendo muito sucesso. Mas ele apenas revela o que
ficou escondido por tanto tempo: a menopausa é um período da vida humana, no
caso, da vida da mulher, e por isso não pode ser lido apenas como um problema
de uma especialidade médica.
Durante séculos, a mulher teve sua importância dentro da sociedade
relativizada. E dessa forma, todas suas questões.
Com as conquistas políticas e sociais do sexo feminino, a mulher passou a
ocupar mais lugares e a evolução da medicina permite que ela ocupe esses
lugares por mais tempo. Isso faz com que, finalmente, a menopausa mereça entrar
em discussão.
Recentemente tivemos a discussão sobre o quanto a reposição hormonal foi
culpabilizada por dezenas de problemas de saúde, notadamente o câncer de mama.
E isso é muito bom, pois a reposição hormonal tem transformado a vida de
mulheres que sofriam com os efeitos da menopausa.
É importante lembrar que os problemas de saúde da mulher não começam somente
quando o fluxo menstrual para definitivamente. O climatério começa por volta
dos 40 anos já mudando várias coisas na vida da pessoa e, por isso, as mulheres
vêm se preocupando cada dia mais com sua saúde, mais cedo.
E isso pode ser por questões como a resposta ao etarismo: ninguém mais se
aposenta aos 40 e poucos anos. “A vida começa aos 50!” tem sido bradado por aí.
Para a ginecologista e especialista do Instituto da Menopausa do Hospital
Moriah, Carolina Ambrogini, “a mulher passa por uma reflexão nesse período,
porque ela vê o seu tempo passando e começa a avaliar sua vida toda. A
menopausa causa divórcios.”. Essa afirmação está longe de ser uma generalização
para a médica, mas vai ao encontro do grey divorce – onda de separações que
acontecem quando os filhos do casal crescem e não vêem mais razão para ficarem
juntos.
Por isso que a menopausa está bem longe de ser um problema apenas para discutir
com o ginecologista.
Sim, tudo começa com o estrogênio que é um modulador do sistema nervoso central
e a menopausa é a queda e ausência desse hormônio no corpo da mulher. A queda
da produção do estrogênio afeta os neurotransmissores e faz com que o cérebro
meio que “entre em surto”. “A principal consequência é o esquecimento, essa
névoa mental, que é muito ruim porque a mulher tem uma queda da produtividade e
isso afeta a autoestima. Por outro lado, como a falta de estrogênio bagunça os
neurotransmissores, a mulher fica mais suscetível a ter depressão e
irritabilidade, trazendo muitos conflitos familiares, no ambiente de trabalho e
isso é sofrido para a mulher”, completa Ambrogini.
É aí que entra a reposição hormonal e o acompanhamento de uma equipe
multidisciplinar e onde o olhar do ginecologista – profissional fundamental
nessa fase – deve ser múltiplo também. Os comprimidos, adesivos, géis podem
ajudar sobremaneira, mas precisam ser muito bem personalizados. E há outras
recomendações que precisam ser dadas às mulheres, mesmo antes da menopausa em
si.
“Toda atividade física é melhor que nenhuma, então toda mulher tem que ter seus
150 minutos semanais. Porém, a atividade ideal para a menopausa é a que tenha
exercícios resistidos, como musculação, Pilates e ioga.”, recomenda a médica,
pois o envelhecimento traz a perda de massa muscular e a tendência a engordar.
“Sabemos que a quantidade de músculos também tem relação com demência,
principalmente de membros inferiores”, alerta Carolina Ambrogini.
Mas e as mulheres que tiveram câncer de mama? Como ficam, sem poder fazer a
reposição hormonal? Porque a terapia hormonal foi inocentada de causar o
câncer, mas ter tido câncer de mama é uma condição incompatível com repor os
hormônios. Isso porque a grande maioria dos tumores de mama se alimentam do
estrogênio.
Essas mulheres precisam ainda mais do olhar individual porque o seu tratamento
deve ser ainda mais multidisciplinar. Se não podem fazer a reposição hormonal,
têm que buscar o bem-estar através do exercício físico, da alimentação e do
sono. “Sabemos que a menopausa afeta bastante o sono, então a mulher tem que
ter uma higiene do sono adequada. Se ela tem muitas ondas de calor, sabemos que
alguns antidepressivos ajudam e também, nos próximos anos, está para ser
aprovada pela Anvisa uma nova droga não hormonal específica para os fogachos. E
temos que fazer uso das opções naturais como a amora, cimicífuga e outros
fitoestrogênios, com o acompanhamento médico. Lembrando que a mulher que teve
câncer de mama não pode usar as isoflavonas, presentes na soja, por exemplo”,
inclui Ambrogini.
Mas quais mulheres podem ou não ser beneficiadas pela reposição hormonal? Não
existe uma resposta segura. O que existe é a individualização do tratamento. Se
todas as medidas não medicamentosas não surtem efeito para essa mulher ter uma
vida mais produtiva e saudável, devemos buscar os remédios que vão ajudar.
“Para aquela mulher que teve um câncer de mama que não é hormônio dependente,
ou seja, o triplo negativo, já existem estudos que levantam a possibilidade
delas fazerem a reposição hormonal, mas ainda não está consolidado pela
literatura médica, então, se você seguir a Sociedade Brasileira de Mastologia,
qualquer câncer de mama é uma contra-indicação. Mas a ciência está buscando
respostas.”, inclui a médica.
Da mesma forma, mulheres que tiveram câncer de endométrio e de ovário podem ter
no estrogênio o fator de estímulo das células malignas. Diferente de quem teve
o câncer de colo de útero, que não tem essa dependência, liberando para a
reposição. Por isso, o olhar tem que ser tão particular.
O mais importante é que a mulher pode ter uma vida melhor, com seu cérebro
protegido e sua continuidade dentro da sociedade garantida apesar da sua idade.
E fazendo da sua idade, justamente a sua importância.
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