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sábado, 3 de janeiro de 2026

A menopausa, alimentação para o cérebro e ritmo de vida

Com o aumento da expectativa de vida e a atuação da mulher na sociedade, a menopausa passa a ter cada vez mais importância no dia a dia
 

Livros como “A menopausa e o cérebro” da neurocientista Lisa Mosconi se propõe a discutir um outro lado da menopausa, nada ligado à simples ginecologia e vem fazendo muito sucesso. Mas ele apenas revela o que ficou escondido por tanto tempo: a menopausa é um período da vida humana, no caso, da vida da mulher, e por isso não pode ser lido apenas como um problema de uma especialidade médica.

Durante séculos, a mulher teve sua importância dentro da sociedade relativizada. E dessa forma, todas suas questões.

Com as conquistas políticas e sociais do sexo feminino, a mulher passou a ocupar mais lugares e a evolução da medicina permite que ela ocupe esses lugares por mais tempo. Isso faz com que, finalmente, a menopausa mereça entrar em discussão.

Recentemente tivemos a discussão sobre o quanto a reposição hormonal foi culpabilizada por dezenas de problemas de saúde, notadamente o câncer de mama. E isso é muito bom, pois a reposição hormonal tem transformado a vida de mulheres que sofriam com os efeitos da menopausa.

É importante lembrar que os problemas de saúde da mulher não começam somente quando o fluxo menstrual para definitivamente. O climatério começa por volta dos 40 anos já mudando várias coisas na vida da pessoa e, por isso, as mulheres vêm se preocupando cada dia mais com sua saúde, mais cedo.

E isso pode ser por questões como a resposta ao etarismo: ninguém mais se aposenta aos 40 e poucos anos. “A vida começa aos 50!” tem sido bradado por aí.

Para a ginecologista e especialista do Instituto da Menopausa do Hospital Moriah, Carolina Ambrogini, “a mulher passa por uma reflexão nesse período, porque ela vê o seu tempo passando e começa a avaliar sua vida toda. A menopausa causa divórcios.”. Essa afirmação está longe de ser uma generalização para a médica, mas vai ao encontro do grey divorce – onda de separações que acontecem quando os filhos do casal crescem e não vêem mais razão para ficarem juntos.

Por isso que a menopausa está bem longe de ser um problema apenas para discutir com o ginecologista.

Sim, tudo começa com o estrogênio que é um modulador do sistema nervoso central e a menopausa é a queda e ausência desse hormônio no corpo da mulher. A queda da produção do estrogênio afeta os neurotransmissores e faz com que o cérebro meio que “entre em surto”. “A principal consequência é o esquecimento, essa névoa mental, que é muito ruim porque a mulher tem uma queda da produtividade e isso afeta a autoestima. Por outro lado, como a falta de estrogênio bagunça os neurotransmissores, a mulher fica mais suscetível a ter depressão e irritabilidade, trazendo muitos conflitos familiares, no ambiente de trabalho e isso é sofrido para a mulher”, completa Ambrogini.

É aí que entra a reposição hormonal e o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar e onde o olhar do ginecologista – profissional fundamental nessa fase – deve ser múltiplo também. Os comprimidos, adesivos, géis podem ajudar sobremaneira, mas precisam ser muito bem personalizados. E há outras recomendações que precisam ser dadas às mulheres, mesmo antes da menopausa em si.

“Toda atividade física é melhor que nenhuma, então toda mulher tem que ter seus 150 minutos semanais. Porém, a atividade ideal para a menopausa é a que tenha exercícios resistidos, como musculação, Pilates e ioga.”, recomenda a médica, pois o envelhecimento traz a perda de massa muscular e a tendência a engordar. “Sabemos que a quantidade de músculos também tem relação com demência, principalmente de membros inferiores”, alerta Carolina Ambrogini.

Mas e as mulheres que tiveram câncer de mama? Como ficam, sem poder fazer a reposição hormonal? Porque a terapia hormonal foi inocentada de causar o câncer, mas ter tido câncer de mama é uma condição incompatível com repor os hormônios. Isso porque a grande maioria dos tumores de mama se alimentam do estrogênio.

Essas mulheres precisam ainda mais do olhar individual porque o seu tratamento deve ser ainda mais multidisciplinar. Se não podem fazer a reposição hormonal, têm que buscar o bem-estar através do exercício físico, da alimentação e do sono. “Sabemos que a menopausa afeta bastante o sono, então a mulher tem que ter uma higiene do sono adequada. Se ela tem muitas ondas de calor, sabemos que alguns antidepressivos ajudam e também, nos próximos anos, está para ser aprovada pela Anvisa uma nova droga não hormonal específica para os fogachos. E temos que fazer uso das opções naturais como a amora, cimicífuga e outros fitoestrogênios, com o acompanhamento médico. Lembrando que a mulher que teve câncer de mama não pode usar as isoflavonas, presentes na soja, por exemplo”, inclui Ambrogini.

Mas quais mulheres podem ou não ser beneficiadas pela reposição hormonal? Não existe uma resposta segura. O que existe é a individualização do tratamento. Se todas as medidas não medicamentosas não surtem efeito para essa mulher ter uma vida mais produtiva e saudável, devemos buscar os remédios que vão ajudar. “Para aquela mulher que teve um câncer de mama que não é hormônio dependente, ou seja, o triplo negativo, já existem estudos que levantam a possibilidade delas fazerem a reposição hormonal, mas ainda não está consolidado pela literatura médica, então, se você seguir a Sociedade Brasileira de Mastologia, qualquer câncer de mama é uma contra-indicação. Mas a ciência está buscando respostas.”, inclui a médica.

Da mesma forma, mulheres que tiveram câncer de endométrio e de ovário podem ter no estrogênio o fator de estímulo das células malignas. Diferente de quem teve o câncer de colo de útero, que não tem essa dependência, liberando para a reposição. Por isso, o olhar tem que ser tão particular.

O mais importante é que a mulher pode ter uma vida melhor, com seu cérebro protegido e sua continuidade dentro da sociedade garantida apesar da sua idade. E fazendo da sua idade, justamente a sua importância.

 

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