Dia 20/10 é o dia
do Combate Mundial ao Bullying, um dos grandes desafios no setor de educação
O bullying em escolas é um tema que vem sendo
discutido de maneira mais profunda entre professores (as) e pedagogos (as) nos
últimos anos. Infelizmente, é uma daquelas práticas entranhadas na sociedade e
que durante anos não era considerado como um problema de responsabilidade das
escolas. Felizmente, este assunto entrou nas rodas de discussões pedagógicas
como algo a ser combatido, diante dos danos graves que causa aos envolvidos e
envolvidas. Muitas ações já têm sido feitas para combater este problema, mas
ainda temos muito o que
caminhar.
Considerando que dia 20/10 é o Dia do Combate Mundial ao Bullying, é mais do
que válido utilizar esse espaço para tratar de um assunto tão importante e
desafiador na área de educação, especialmente quando falamos de crianças. O
primeiro ponto que se coloca é a maneira como esse combate é feito. Obviamente,
é necessário que as escolas busquem formas de mitigar problemas causados pela
prática do bullying, seja sobre como lidar com a criança agressora, quanto com
aquela que é agredida. Mas, é muito importante aprofundar essa discussão e
entender os motivos que levam a naturalização dessas agressões. Afinal, que
cultura é essa que valoriza algumas pessoas em detrimentos de
outras?
Em pleno ano de 2022, já é mais do que hora de
repensar valores, conceitos e posicionamentos que a sociedade adota como
padrões estéticos e “normais”. Tudo isso pode levar aos casos de crianças que
ameaçam, intimidam, descriminam ou humilham outras.
Estamos quase que 24 horas por dia sob um intenso
bombardeio de padrões que devem ser seguidos, seja por meio de propagandas,
novelas, séries, desenhos, redes sociais, ou rodas de conversas informais. Os
padrões de beleza, por exemplo, são muito delimitados. Uma criança mais
gordinha, com nariz grande, ou que possua uma cicatriz é considerada diferente
pelas outras, já que estão fora dos padrões perpetuados pela sociedade.
Existe ainda uma disparidade entre o tipo de “vantagem” que se coloca entre homens e mulheres. Historicamente, os meninos são elogiados como fortes e corajosos, enquanto as meninas devem se portar como fofas e delicadas. Recomendo fortemente o documentário “Repense o elogio”, produzido pela Avon em parceria com a ONU Mulheres, lançado em 2017, que mostra justamente como esse tratamento diferenciado para meninos e meninas é um dos fatores que desencadeia a prática do bullying. O objetivo da obra é mostrar como estes padrões de elogios pressionam os jovens a atender às expectativas. Nem todas as meninas querem o rótulo de delicadas, mas preferem ser chamadas de corajosas. Ao mesmo tempo, muitos meninos não fazem questão de parecerem fortes, mas preferem ser reconhecidos pela inteligência. Não existe qualquer problema em uma menina parecer uma “princesa”, ou um menino ser um bom jogador de futebol. O problema é justamente quando se reduz a identidade de criança a isso, como se tanto os meninos quanto as meninas não tivessem outra opção a não ser aquilo que a sociedade obriga. Justamente por isso, é urgente repensar os elogios que são feitos, já que nem sempre eles são positivos.
Logicamente, os educadores devem estar sempre atentos aos sinais dados pelas
crianças de que algo errado está acontecendo com elas, como por exemplo:
problemas de aprendizagem, machucados, agressividade, autoestima prejudicada,
ou isolamento. Essencial ainda observar se algum boato está sendo disseminado
sobre algum aluno ou aluna. Quanto mais cedo o “gatilho” do bullying for
identificado, mas rápido é possível interrompê-lo.
Insisto, entretanto, que o foco principal não deve
ser cuidar dos trágicos resultados depois que o bullying se instaura.
Devemos, sim, prevenir que ele se manifeste. A escola deve se tornar o
espaço ideal e privilegiado para discutir essa questão e evitar que essa
prática se perpetue nas próximas gerações. Para isso, é importante discutir
padrões que a sociedade enxerga como ideais e trabalhar isso com as crianças em
formação.
É importante instaurar um ambiente colaborativo e
participativo, no qual as diferenças sejam inseridas como algo positivo e
propositivo, pois devem ser acolhidas e não ridicularizadas. As escolas devem
ter práticas de combate ao racismo, ao preconceito e à opressão. Devem propor
conversas e debates sobre padrões estéticos e valorizar a diversidade. Deste
modo, podemos dar um passo a mais para mudança e combate ao bullying.
Ana
Paula Yazbek - pedagoga, formada pela
Faculdade de Educação da USP, com especialização em Educação de Crianças de
zero a três anos pelo Instituto Singularidades, com mestrado em Educação pela
Faculdade de Educação da USP. É Diretora Pedagógica do espaço ekoa, casada com
Marcos Mourão com quem tem dois filhos, Marina e Pedro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário