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| Hoje, o câncer de pulmão é um dos principais campos da oncologia de precisão, em que existem medicamentos direcionados a mutações em genes específicos (imagem: Vecteezy) |
Trabalho analisou amostras tumorais de mais de mil pacientes atendidos pelo SUS e verificou que mutações no gene TP53 afetam resposta à terapia
O câncer de pulmão, o mais
comum e letal no mundo, vem sendo cada vez mais compreendido como uma doença
genética complexa, associada a diferentes mutações que variam conforme fatores
como tabagismo e etnia – um conhecimento fundamental para orientar o
desenvolvimento e a aplicação de tratamentos mais personalizados. Agora, um
estudo brasileiro realizou uma ampla análise do perfil genético de tumores e
identificou que mutações do gene TP53 podem influenciar
diretamente no prognóstico e na escolha da terapia a ser administrada.
A pesquisa avaliou os 20
principais genes associados ao câncer de pulmão em amostras tumorais de 1.131
pacientes atendidos no Hospital de Amor, nas unidades de Barretos (SP) e de
Porto Velho (RO). Um dos diferenciais do estudo foi justamente o tamanho da
amostra e a diversidade dos pacientes, provenientes de todas as cinco
macrorregiões do país, incluindo uma parcela expressiva da Amazônia Ocidental,
ainda pouco representada em pesquisas. Isso permitiu observar variações
regionais e investigar também a influência da ancestralidade genética.
“Não é um paciente selecionado
para um ensaio clínico, é o paciente atendido no dia a dia da nossa
instituição. Isso nos permite entender melhor o que acontece na vida real”, afirma
o pesquisador Rui Manuel Reis, diretor
científico do Instituto de Ensino e Pesquisa do hospital e um dos coordenadores
do estudo. Segundo ele, esse tipo de análise amplia a aplicabilidade dos
resultados e ajuda a orientar decisões médicas mais alinhadas à rotina real dos
serviços de saúde públicos.
O estudo foi realizado
com apoio da FAPESP, e os
resultados foram publicados em abril na revista The
Lancet Regional Health Americas.
Alterações
relevantes
Hoje, o câncer de pulmão é um
dos principais campos da oncologia de precisão, em que existem medicamentos
direcionados a mutações em genes específicos. Pacientes com alterações em genes
como EGFR, KRAS e AKL, por exemplo, já
recebem terapias customizadas para essas mutações, mais eficazes do que a
quimioterapia tradicional. Os dados do estudo mostram que 88% dos pacientes
avaliados apresentam alguma alteração genética relevante no tumor, reforçando a
importância dos testes moleculares no manejo da doença. As alterações mais
presentes foram nos genes TP53 (58%), KRAS (25,6%), EGFR (20,6%)
e ALK (6,6%).
No estudo, os pesquisadores
identificaram, por exemplo, que mutações no TP53 foram mais
frequentes em indivíduos com maior ancestralidade africana, algo alinhado a
achados internacionais. O TP53 é um importante gene supressor
de tumor, é por isso é conhecido como o “guardião do genoma”. Ele atua na
defesa celular, reparando danos no DNA ou destruindo células mutadas. É o gene
mais frequentemente alterado em tumores humanos, presente em cerca de 50% de
todos os cânceres. A maioria das mutações produz uma proteína defeituosa
e, em alguns casos, as mutações eliminam completamente sua função ou sua
expressão.
Mais do que mapear essas
alterações genéticas isoladamente, Reis ressalta que o ineditismo do estudo foi
conseguir demonstrar que o perfil genético do tumor impacta na evolução da
doença e na resposta ao tratamento. Os dados indicam que a presença de mutações
no gene TP53 foi associada a pior prognóstico, especialmente
entre pacientes que também tinham alterações no gene EGFR – um
grupo que, em geral, se beneficia de terapias-alvo (tratamento oncológico com
medicamentos projetados para atacar alterações genéticas ou moleculares
específicas das células cancerígenas).
“Mesmo recebendo o tratamento
mais moderno [terapia EGR-alvo], pacientes com mutações no TP53 evoluíram
pior”, afirma o pesquisador.
Tradicionalmente, o TP53 não
era usado para orientar decisões médicas nem era incluído nos laudos e nos
prontuários dos doentes, mas o achado já começou a mudar a conduta do hospital.
“Agora passamos a incorporá-lo em nossa rotina, porque descobrimos que essa
informação pode ajudar a orientar a melhor escolha terapêutica. Ou seja, um
paciente com mutação no EGFR e também no TP53 vai
responder pior à terapia EGFR-alvo e poderá ser o candidato ideal para novos
ensaios clínicos”, diz Reis. Com isso, o gene se destaca como potencial
marcador de prognóstico e como guia para escolhas mais individualizadas no
tratamento.
“A terapia-alvo continua sendo
fundamental e a melhor escolha atualmente disponível, mas já começamos a ter
pistas sobre como ajustar o tratamento conforme o perfil molecular do tumor do
paciente”, afirma Reis.
Acesso
ainda restrito no SUS
Apesar dos avanços da medicina
genômica, o acesso a testes genéticos ainda é limitado no Brasil. Atualmente,
esses exames não são financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o que
dificulta a adoção da medicina de precisão. Recentemente, a Comissão Nacional
de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) aprovou o financiamento isolado
de verificação do gene EGFR, mas Reis ressalta que o resultado do
estudo reforça a importância da análise de outros genes além desse.
“Sem um teste genético mais
abrangente, o tratamento escolhido pode ser inadequado. E estamos falando de
terapias caras, que podem variar de R$ 20 mil a R$ 40 mil por mês, e por isso
precisam ser bem indicadas”, diz. Segundo ele, o custo de testes genéticos mais
amplos pode girar entre R$ 2 mil e R$ 8 mil.
Na avaliação do pesquisador, os
achados também têm potencial para orientar políticas públicas, ao indicar quais
mutações são mais frequentes na população brasileira e, portanto, quais testes
e terapias deveriam ser priorizados para evitar tratamentos menos eficazes.
Além disso, Reis destaca que o
estudo abre novas frentes de investigação. Cerca de 12% dos pacientes avaliados
não apresentaram mutações genéticas conhecidas, o que sugere a existência de
outros genes envolvidos no desenvolvimento do câncer, ainda não identificados.
“O próximo passo é ampliar o estudo, incluindo o genoma completo, para tentar
identificar outros genes e entender o que acontece nesses casos”, afirma.
Outra perspectiva é o
desenvolvimento de terapias-alvo voltadas diretamente ao gene TP53.
Estudos recentes começam a apontar caminhos para reativar sua função, o que
pode ampliar as opções de tratamento no futuro. “Se conseguirmos reativar esse
gene por meio de novos fármacos, podemos mudar o cenário para esses pacientes”,
diz Reis, para quem o principal impacto do trabalho está na integração entre
pesquisa e prática clínica. “A pesquisa não fica só no papel. Ela já está sendo
usada para melhorar o cuidado dos próximos pacientes”, conclui.
O artigo Clinical and
molecular characterization of a large Brazilian lung cancer cohort: a
real-world observational study pode ser lido em: thelancet.com/journals/lanam/article/PIIS2667-193X(26)00059-1.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/pesquisa-identifica-nova-mutacao-relacionada-ao-cancer-de-pulmao/58380



