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terça-feira, 16 de junho de 2026

Pesquisa identifica nova mutação relacionada ao câncer de pulmão

Hoje, o câncer de pulmão é um dos principais campos
da oncologia de precisão, em que existem medicamentos
direcionados a mutações em genes específicos
(imagem:
Vecteezy)

Trabalho analisou amostras tumorais de mais de mil pacientes atendidos pelo SUS e verificou que mutações no gene 
TP53 afetam resposta à terapia

 

O câncer de pulmão, o mais comum e letal no mundo, vem sendo cada vez mais compreendido como uma doença genética complexa, associada a diferentes mutações que variam conforme fatores como tabagismo e etnia – um conhecimento fundamental para orientar o desenvolvimento e a aplicação de tratamentos mais personalizados. Agora, um estudo brasileiro realizou uma ampla análise do perfil genético de tumores e identificou que mutações do gene TP53 podem influenciar diretamente no prognóstico e na escolha da terapia a ser administrada.

A pesquisa avaliou os 20 principais genes associados ao câncer de pulmão em amostras tumorais de 1.131 pacientes atendidos no Hospital de Amor, nas unidades de Barretos (SP) e de Porto Velho (RO). Um dos diferenciais do estudo foi justamente o tamanho da amostra e a diversidade dos pacientes, provenientes de todas as cinco macrorregiões do país, incluindo uma parcela expressiva da Amazônia Ocidental, ainda pouco representada em pesquisas. Isso permitiu observar variações regionais e investigar também a influência da ancestralidade genética.

“Não é um paciente selecionado para um ensaio clínico, é o paciente atendido no dia a dia da nossa instituição. Isso nos permite entender melhor o que acontece na vida real”, afirma o pesquisador Rui Manuel Reis, diretor científico do Instituto de Ensino e Pesquisa do hospital e um dos coordenadores do estudo. Segundo ele, esse tipo de análise amplia a aplicabilidade dos resultados e ajuda a orientar decisões médicas mais alinhadas à rotina real dos serviços de saúde públicos.

O estudo foi realizado com apoio da FAPESP, e os resultados foram publicados em abril na revista The Lancet Regional Health Americas.

 

Alterações relevantes

Hoje, o câncer de pulmão é um dos principais campos da oncologia de precisão, em que existem medicamentos direcionados a mutações em genes específicos. Pacientes com alterações em genes como EGFRKRAS e AKL, por exemplo, já recebem terapias customizadas para essas mutações, mais eficazes do que a quimioterapia tradicional. Os dados do estudo mostram que 88% dos pacientes avaliados apresentam alguma alteração genética relevante no tumor, reforçando a importância dos testes moleculares no manejo da doença. As alterações mais presentes foram nos genes TP53 (58%), KRAS (25,6%), EGFR (20,6%) e ALK (6,6%).

No estudo, os pesquisadores identificaram, por exemplo, que mutações no TP53 foram mais frequentes em indivíduos com maior ancestralidade africana, algo alinhado a achados internacionais. O TP53 é um importante gene supressor de tumor, é por isso é conhecido como o “guardião do genoma”. Ele atua na defesa celular, reparando danos no DNA ou destruindo células mutadas. É o gene mais frequentemente alterado em tumores humanos, presente em cerca de 50% de todos os cânceres. A maioria das mutações produz uma proteína defeituosa e, em alguns casos, as mutações eliminam completamente sua função ou sua expressão.

Mais do que mapear essas alterações genéticas isoladamente, Reis ressalta que o ineditismo do estudo foi conseguir demonstrar que o perfil genético do tumor impacta na evolução da doença e na resposta ao tratamento. Os dados indicam que a presença de mutações no gene TP53 foi associada a pior prognóstico, especialmente entre pacientes que também tinham alterações no gene EGFR – um grupo que, em geral, se beneficia de terapias-alvo (tratamento oncológico com medicamentos projetados para atacar alterações genéticas ou moleculares específicas das células cancerígenas).

“Mesmo recebendo o tratamento mais moderno [terapia EGR-alvo], pacientes com mutações no TP53 evoluíram pior”, afirma o pesquisador.

Tradicionalmente, o TP53 não era usado para orientar decisões médicas nem era incluído nos laudos e nos prontuários dos doentes, mas o achado já começou a mudar a conduta do hospital. “Agora passamos a incorporá-lo em nossa rotina, porque descobrimos que essa informação pode ajudar a orientar a melhor escolha terapêutica. Ou seja, um paciente com mutação no EGFR e também no TP53 vai responder pior à terapia EGFR-alvo e poderá ser o candidato ideal para novos ensaios clínicos”, diz Reis. Com isso, o gene se destaca como potencial marcador de prognóstico e como guia para escolhas mais individualizadas no tratamento.

“A terapia-alvo continua sendo fundamental e a melhor escolha atualmente disponível, mas já começamos a ter pistas sobre como ajustar o tratamento conforme o perfil molecular do tumor do paciente”, afirma Reis.

Acesso ainda restrito no SUS

Apesar dos avanços da medicina genômica, o acesso a testes genéticos ainda é limitado no Brasil. Atualmente, esses exames não são financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o que dificulta a adoção da medicina de precisão. Recentemente, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) aprovou o financiamento isolado de verificação do gene EGFR, mas Reis ressalta que o resultado do estudo reforça a importância da análise de outros genes além desse.

“Sem um teste genético mais abrangente, o tratamento escolhido pode ser inadequado. E estamos falando de terapias caras, que podem variar de R$ 20 mil a R$ 40 mil por mês, e por isso precisam ser bem indicadas”, diz. Segundo ele, o custo de testes genéticos mais amplos pode girar entre R$ 2 mil e R$ 8 mil.

Na avaliação do pesquisador, os achados também têm potencial para orientar políticas públicas, ao indicar quais mutações são mais frequentes na população brasileira e, portanto, quais testes e terapias deveriam ser priorizados para evitar tratamentos menos eficazes.

Além disso, Reis destaca que o estudo abre novas frentes de investigação. Cerca de 12% dos pacientes avaliados não apresentaram mutações genéticas conhecidas, o que sugere a existência de outros genes envolvidos no desenvolvimento do câncer, ainda não identificados. “O próximo passo é ampliar o estudo, incluindo o genoma completo, para tentar identificar outros genes e entender o que acontece nesses casos”, afirma.

Outra perspectiva é o desenvolvimento de terapias-alvo voltadas diretamente ao gene TP53. Estudos recentes começam a apontar caminhos para reativar sua função, o que pode ampliar as opções de tratamento no futuro. “Se conseguirmos reativar esse gene por meio de novos fármacos, podemos mudar o cenário para esses pacientes”, diz Reis, para quem o principal impacto do trabalho está na integração entre pesquisa e prática clínica. “A pesquisa não fica só no papel. Ela já está sendo usada para melhorar o cuidado dos próximos pacientes”, conclui.

O artigo Clinical and molecular characterization of a large Brazilian lung cancer cohort: a real-world observational study pode ser lido em: thelancet.com/journals/lanam/article/PIIS2667-193X(26)00059-1.

 

Fernanda Bassette

Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/pesquisa-identifica-nova-mutacao-relacionada-ao-cancer-de-pulmao/58380


Mulheres são mais vulneráveis às infecções sexualmente transmissíveis por fatores biológicos, revela especialista

 

As doenças infectocontagiosas continuam representando um importante desafio para a saúde da mulher. Infecções causadas por vírus, bactérias, fungos e parasitas podem comprometer não apenas a saúde ginecológica, mas também a fertilidade, a qualidade de vida e o bem-estar feminino. Entre as principais doenças estão HIV, hepatites virais, HPV, herpes genital, sífilis, gonorreia, clamídia, tricomoníase, vaginose bacteriana e candidíase, que podem apresentar manifestações variadas e, em muitos casos, evoluir de forma silenciosa. 

Segundo a Dra. Iara Moreno Linhares, ginecologista, membro da Comissão Nacional Especializada em Doenças Infectocontagiosas da FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, as mulheres apresentam maior vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis devido a fatores biológicos. “A natureza dotou o sêmen de propriedades imunossupressoras para permitir a fecundação. Como consequência, ocorre uma redução temporária da imunidade local na vagina após a relação sexual, facilitando a instalação de agentes infecciosos”, conta. 

Entre os sinais que merecem atenção estão feridas na região genital, corrimentos anormais, coceira, ardor ao urinar, irritação, verrugas, desconforto no baixo-ventre  e dor. No entanto, a especialista destaca que algumas infecções podem não apresentar sintomas, o que torna o acompanhamento médico ainda mais importante. “Doenças como clamídia e gonorreia podem ser totalmente silenciosas, mas causar complicações graves, como inflamação das trompas e infertilidade. Por isso, a consulta periódica com o ginecologista é fundamental, mesmo na ausência de sintomas”, ressalta a ginecologista. 

A sífilis, por exemplo, costuma se manifestar inicialmente por uma ferida indolor que desaparece espontaneamente, levando muitas pacientes a acreditarem que o problema foi resolvido. Já o herpes genital geralmente provoca pequenas bolhas que evoluem para feridas dolorosas. A tricomoníase pode causar corrimento amarelado e irritação local, a vaginose bacteriana causa corrimento com odor desagradável enquanto a candidíase costuma provocar coceira intensa e corrimento característico. O HPV merece atenção especial por incluir tipos virais associados ao desenvolvimento de câncer do colo do útero, da vagina e da vulva. 

A principal forma de prevenção continua sendo o uso correto e consistente do preservativo masculino ou feminino durante as relações sexuais. “Muitas mulheres ainda acreditam que a confiança no parceiro elimina os riscos de infecção, mas o uso da camisinha continua sendo a medida mais eficaz para reduzir a transmissão das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), afirma a médica. 

A especialista explica que, durante as relações sexuais, o contato natural entre as mucosas do pênis e da vagina pode provocar pequenas microlesões, popularmente descritas como "cortinhos", que geralmente passam despercebidas. Embora sejam imperceptíveis, essas lesões facilitam a entrada de vírus e outros agentes infecciosos, aumentando o risco de transmissão de infecções sexualmente transmissíveis, como o HIV. “A mulher apresenta uma área de mucosa genital mais extensa do que a do homem, o que amplia a superfície de exposição aos microrganismos e contribui para uma maior vulnerabilidade feminina à aquisição dessas infecções”, explica a Dra. Iara. 

A relevância das infecções sexualmente transmissíveis para a saúde pública foi reforçada recentemente por uma Nota Técnica publicada pelo Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi), do Ministério da Saúde, em parceria com a FEBRASGO. O documento orienta profissionais de saúde sobre a ampliação da oferta da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) para mulheres, incluindo gestantes, puérperas e lactantes, com o objetivo de reduzir novas infecções por HIV, fortalecer a prevenção da transmissão vertical e ampliar o acesso a estratégias eficazes de prevenção. 

O diagnóstico das doenças infectocontagiosas é realizado por meio da avaliação clínica, exame físico e exames laboratoriais, que podem incluir coleta de material do trato genital e exames de sangue. Quando identificadas precocemente, grande parte dessas infecções são tratadas de maneira eficaz,  reduzindo o risco de complicações futuras. “Sempre que houver qualquer alteração ou sintoma, a mulher deve procurar assistência médica. Mas é importante lembrar que muitas infecções não causam sinais evidentes. Por isso, o acompanhamento ginecológico regular é indispensável para a prevenção, o diagnóstico precoce e a preservação da saúde feminina”, conclui a Dra. Iara. 



Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia - FEBRASGO
Comprometida com o pleno respeito à saúde e bem-estar das mulheres, a FEBRASGO lidera a Campanha #EuVejoVocê – Pelo fim da violência contra a mulher
Site: https://www.febrasgo.org.br/pt/
@febrasgooficial
@feitoparaelaoficial


Lipedema: o que você não sabe sobre essa condição silenciosa e como tratá-la

Dor nas pernas, inchaço constante, hematomas frequentes e dificuldade para emagrecer determinadas regiões do corpo podem ser sinais de lipedema. Especialistas explicam como identificar a condição e quais tratamentos ajudam a controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida 


Muito além de uma questão estética, o lipedema é uma condição crônica, ou seja, não tem cura, mas existe um tratamento para controle. É uma doença progressiva que provoca o acúmulo anormal de gordura, principalmente nas pernas, quadris e braços, acompanhado de dor, inchaço e sensibilidade. Apesar de afetar milhões de mulheres em todo o mundo, o problema ainda é pouco conhecido e frequentemente confundido com obesidade ou retenção de líquido, o que pode atrasar o diagnóstico e o tratamento adequado. 

Dr. Rodolfo Gusmão, médico integrativo do Instituto Aeon, explica que o lipedema envolve alterações inflamatórias e hormonais que impactam diretamente a saúde e a qualidade de vida das pacientes. “Muitas mulheres convivem durante anos com dor, sensação de peso nas pernas e dificuldade para emagrecer determinadas regiões do corpo sem saber que possuem lipedema. É uma condição que precisa ser vista além da estética, porque afeta o metabolismo, a circulação e o bem-estar físico e emocional”, afirma o especialista. 

Dra Paula Góes, médica especialista em dermatologia, destaca que um dos principais desafios é justamente a identificação precoce da doença. “O lipedema costuma causar aumento desproporcional dos membros inferiores, além de dor ao toque, hematomas frequentes e sensação constante de inchaço. Muitas pacientes acreditam que é apenas gordura localizada ou dificuldade para emagrecer, quando na verdade existe um quadro inflamatório associado”, explica a especialista em dermatologista.
 

Os sinais que merecem atenção  

Entre os sintomas mais comuns do lipedema estão dor nas pernas, sensação de peso, inchaço ao longo do dia, facilidade para desenvolver hematomas e acúmulo de gordura resistente à dieta e ao exercício físico. Em muitos casos, os pés permanecem preservados, característica importante que ajuda no diagnóstico diferencial. 

Segundo Dra Paula Góes, o aspecto da pele também pode mudar ao longo do tempo. “Em fases mais avançadas, a pele pode apresentar irregularidades, maior flacidez e aspecto nodular devido ao acúmulo de gordura de forma desorganizada e ao processo inflamatório contínuo”, comenta.
 

Inflamação e hábitos de vida influenciam diretamente  

Embora o lipedema tenha forte influência genética e hormonal, fatores ligados ao estilo de vida podem agravar os sintomas. Alimentação inflamatória, sedentarismo, alterações hormonais e estresse estão entre os principais gatilhos para piora do quadro. 

Dr. Rodolfo Gusmão explica que uma abordagem integrativa pode ajudar significativamente no controle da condição. “O tratamento envolve redução do processo inflamatório através da alimentação, melhora da circulação, atividade física orientada e estratégias para restaurar a saúde metabólica. Quando o organismo funciona melhor, a paciente sente menos dor, menos inchaço e mais disposição”, afirma o médico integrativo. 

Alimentos ricos em antioxidantes, vegetais, proteínas magras e boa hidratação fazem parte das recomendações mais comuns. Além disso, evitar excesso de ultraprocessados, açúcar e alimentos inflamatórios pode contribuir para o controle dos sintomas. 

O médico revela que existem novas abordagens no tratamento: “Estudos recentes vêm mostrando que o tratamento do lipedema com microdoses de tirzepatida pode ser um grande aliado no combate ao processo inflamatório causado pela doença”.
 

Tratamentos ajudam a controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida  

O tratamento do lipedema varia de acordo com o estágio da condição e as necessidades individuais de cada paciente. Drenagem linfática, uso de meias compressivas, exercícios físicos de baixo impacto e tecnologias dermatológicas estão entre os recursos utilizados para melhorar circulação, reduzir o inchaço e aliviar dores. 

Dra Paula Góes ressalta que tecnologias como radiofrequência, ultrassom e bioestimuladores também podem auxiliar na firmeza da pele e no conforto da paciente. “Além do controle inflamatório, muitas mulheres procuram melhorar a textura da pele e a sensação de peso nas pernas. Hoje existem protocolos que ajudam tanto na parte funcional quanto na estética”, explica. 

A prática de atividades físicas regulares também é considerada uma grande aliada no tratamento. Caminhadas, musculação, pilates e hidroginástica ajudam a estimular a circulação e preservar a massa muscular sem gerar impacto excessivo nas articulações.
 

Saúde emocional também precisa de atenção 

Além dos sintomas físicos, o lipedema pode impactar diretamente a autoestima e a saúde emocional das pacientes. A dificuldade em obter resultados estéticos mesmo com dieta e exercício frequentemente gera frustração e sofrimento psicológico. 

“Muitas mulheres passaram anos ouvindo que faltava esforço ou disciplina, quando na verdade conviviam com uma condição médica real. O acolhimento e o diagnóstico correto fazem toda diferença para que a paciente entenda seu corpo e consiga tratar o problema de maneira saudável”, destaca Dr. Rodolfo Gusmão.
 

A importância do acompanhamento profissional  

Os especialistas reforçam que o diagnóstico e o tratamento devem ser feitos de forma individualizada, com acompanhamento multidisciplinar. Dermatologistas, nutrólogos, nutricionistas, fisioterapeutas e educadores físicos podem atuar em conjunto para controlar os sintomas e promover mais qualidade de vida. 

“O mais importante é entender que o lipedema tem tratamento e controle. Quanto antes a paciente buscar orientação profissional, maiores são as chances de melhorar os sintomas e evitar a progressão da condição”, finaliza Dr. Rodolfo Gusmão.
 

Instituto Aeon 

 

Cardiopatia congênita: condição afeta cerca de 1 em cada 100 bebês

especialista explica como a condição surge, quais são os principais sinais de alerta e a importância do diagnóstico precoce

 

Anualmente, milhões de crianças nascem em todo o mundo com algum tipo de cardiopatia congênita, condição considerada uma das malformações mais frequentes da infância. No Brasil, estima-se que mais de 21 mil bebês necessitem de intervenções cirúrgicas para sobreviver, enquanto a doença acomete entre oito e dez crianças a cada mil nascidos vivos, segundo dados do Departamento Científico de Cardiologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Pediatria. 

A cardiopatia congênita é uma alteração na estrutura ou no funcionamento do coração que surge ainda durante a formação do bebê no útero. Ela geralmente começa a se desenvolver nas primeiras semanas da gestação, período em que o coração está sendo formado. Embora a pessoa já nasça com a condição, em alguns casos o diagnóstico pode ocorrer apenas meses ou até anos depois, especialmente quando os defeitos são menos graves ou não provocam sintomas evidentes.

Os quadros variam desde formas mais leves, que requerem apenas acompanhamento médico, até condições complexas que demandam intervenções cirúrgicas e tratamento contínuo. Diante dessa diversidade de manifestações, a detecção precoce e o monitoramento adequado são essenciais para favorecer melhores desfechos clínicos e qualidade de vida.

De acordo com o Dr. Anderson Estevan, médico e professor da pós-graduação em Cardiologia na Afya Goiânia, a doença não é necessariamente hereditária. Apesar de algumas situações estarem associadas a alterações genéticas, síndromes ou histórico familiar, a maioria dos casos ocorre sem uma herança direta identificável. “Muitas vezes, a origem é multifatorial, envolvendo fatores genéticos, maternos, ambientais ou causas que ainda não são completamente conhecidas”, explica.


Como a cardiopatia congênita ocorre?

Durante a gestação, o coração do bebê passa por um processo complexo de formação. Quando ocorre alguma alteração nesse desenvolvimento, podem surgir defeitos estruturais que interferem no funcionamento adequado do órgão.

Conforme explica o especialista, as cardiopatias congênitas apresentam diferentes graus de complexidade. Enquanto algumas alterações têm pouca repercussão clínica e demandam apenas acompanhamento, outras podem comprometer significativamente a circulação sanguínea e exigir intervenção ainda nos primeiros dias de vida. Entre as condições mais frequentes estão a comunicação interatrial (CIA), a comunicação interventricular (CIV), a persistência do canal arterial (PCA), a Tetralogia de Fallot, a coarctação da aorta e a transposição das grandes artérias. 

Os sintomas variam de acordo com o tipo e a gravidade da cardiopatia. Nos bebês, os sinais mais comuns incluem cansaço durante as mamadas, dificuldade para ganhar peso, respiração acelerada, suor excessivo e coloração arroxeada da pele ou dos lábios. Já em crianças maiores e adultos, podem surgir falta de ar, cansaço aos esforços, palpitações, tonturas e até episódios de desmaio. Algumas cardiopatias, entretanto, podem permanecer sem sintomas por muitos anos.

De acordo com o especialista, a identificação precoce da condição faz toda a diferença no prognóstico. “Quanto mais cedo a cardiopatia é identificada, maiores são as chances de planejar o tratamento correto, reduzir complicações e proporcionar melhor qualidade de vida ao paciente”, destaca. O médico ressalta ainda que as formas que se manifestam logo no período neonatal costumam ser mais graves e apresentam incidência aproximada de três casos a cada mil nascidos vivos.


Diagnóstico e tratamentos

O diagnóstico pode ser realizado ainda durante a gestação por meio da ultrassonografia obstétrica e, principalmente quando há suspeita, pelo ecocardiograma fetal. Após o nascimento, a investigação pode incluir exame físico, teste do coraçãozinho, eletrocardiograma, radiografia de tórax e ecocardiograma, considerado um dos principais exames para confirmar e caracterizar a maioria das cardiopatias congênitas.

O tratamento depende do tipo e da gravidade da alteração cardíaca. Em alguns casos, apenas o acompanhamento clínico é suficiente. Em outros, podem ser necessários medicamentos, procedimentos realizados por cateterismo ou cirurgias cardíacas. “Muitas cardiopatias podem ser corrigidas ou tratadas cirurgicamente, permitindo uma vida mais saudável e reduzindo o risco de complicações futuras”, afirma o cardiologista.


Acompanhamento ao longo da vida

O especialista alerta que pessoas com cardiopatia congênita precisam manter acompanhamento médico regular mesmo após o tratamento ou correção da alteração cardíaca. Isso porque algumas condições exigem monitoramento contínuo para avaliar a evolução do coração ao longo dos anos e identificar precocemente possíveis complicações.

Além das consultas periódicas, o acompanhamento especializado também é importante para orientar aspectos da rotina, como a prática de atividades físicas e outros cuidados relacionados à saúde cardiovascular. A adoção de hábitos saudáveis, incluindo alimentação equilibrada, controle da pressão arterial, prática de exercícios orientados e abandono do tabagismo, também contribui para a qualidade de vida desses pacientes.

Nesse sentido, o especialista reforça a importância da informação e do diagnóstico precoce como pilares do cuidado com a doença.“A conscientização sobre a cardiopatia congênita é fundamental para que mais casos sejam identificados precocemente e os pacientes tenham acesso ao tratamento adequado. Quanto mais cedo ocorrer o diagnóstico e o acompanhamento especializado, maiores são as chances de reduzir complicações e garantir melhor qualidade de vida ao longo dos anos”, conclui Dr. Anderson. 



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Saúde bucal negligenciada pode aumentar risco de internações entre idosos brasileiros

Com mais de 32 milhões de pessoas acima dos 60 anos no país, especialista alerta para a relação entre infecções bucais e agravamento de doenças crônicas

 

 

O Brasil vive um processo acelerado de envelhecimento populacional. Atualmente, mais de 32 milhões de brasileiros têm 60 anos ou mais, o que amplia os desafios relacionados à prevenção de doenças e à promoção da qualidade de vida na terceira idade. Entre os fatores que ainda recebem pouca atenção está a saúde bucal, que pode influenciar diretamente o surgimento e o agravamento de problemas de saúde capazes de levar à hospitalização.

Segundo especialistas, infecções bucais, doenças periodontais e a perda dentária não afetam apenas a mastigação ou a estética. Esses problemas podem desencadear processos inflamatórios que impactam diversos órgãos e sistemas do corpo, especialmente em idosos que já convivem com doenças crônicas.

Para o cirurgião-dentista Dr. Davi Cunha, a saúde bucal precisa ser vista como parte integrante do cuidado com a saúde geral.

"Muitas pessoas ainda associam a odontologia apenas aos dentes, mas a boca está conectada ao organismo inteiro. Infecções periodontais podem liberar bactérias e substâncias inflamatórias na corrente sanguínea, contribuindo para o agravamento de doenças como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares", explica.

O especialista destaca que um dos riscos mais preocupantes envolve a pneumonia por aspiração, condição comum entre idosos com dificuldades para mastigar ou engolir alimentos.

"Pacientes acamados, com doenças neurológicas ou limitações motoras podem aspirar saliva contaminada por bactérias presentes na cavidade oral. Quando esses microrganismos chegam aos pulmões, podem desencadear infecções graves que frequentemente exigem internação hospitalar", afirma.

Além das infecções, a perda dentária também pode comprometer a alimentação. A dificuldade para mastigar faz com que muitos idosos deixem de consumir alimentos importantes, como frutas, vegetais e proteínas, aumentando o risco de deficiências nutricionais e fragilidade física.

"A mastigação é uma etapa fundamental do processo digestivo. Quando ela é comprometida, todo o organismo sofre as consequências. Muitos idosos passam a ter uma alimentação mais restrita, o que pode impactar diretamente a imunidade e a recuperação de outras doenças", ressalta Dr. Davi Cunha.


Sinais de alerta

Entre os sintomas que merecem atenção estão:

·         Sangramento frequente na gengiva;

·         Mau hálito persistente;

·         Dor ao mastigar;

·         Mobilidade dentária;

·         Feridas que não cicatrizam;

·         Dificuldade para se alimentar;

·         Inflamações recorrentes na boca.

Segundo o especialista, a identificação precoce desses sinais pode evitar complicações futuras e tratamentos mais complexos.



Prevenção é o melhor caminho


Consultas odontológicas periódicas, higiene bucal adequada e acompanhamento profissional regular continuam sendo as principais medidas para prevenir problemas que podem impactar a saúde sistêmica.


"Controlar o biofilme bucal, tratar inflamações precocemente e manter uma rotina de acompanhamento odontológico são atitudes simples, mas que podem fazer uma grande diferença na qualidade de vida dos idosos. Cuidar da saúde bucal é também cuidar do coração, do controle do diabetes, da alimentação e do bem-estar geral", conclui.


Com o avanço do envelhecimento populacional no Brasil, especialistas defendem uma integração cada vez maior entre odontologia e atenção à saúde do idoso, reforçando que a prevenção pode contribuir para reduzir complicações, hospitalizações e custos para o sistema de saúde.


Dr. Davi Cunha - cirurgião-dentista com mais de 20 anos de experiência, referência no Nordeste em implante zigomático. Graduado em Odontologia e mestre em Farmacologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), é pioneiro no Ceará na técnica que permite a reabilitação com dentes fixos em até três dias, sem necessidade de enxerto ósseo. Ao longo da carreira, já realizou mais de 2.500 procedimentos e se destaca pela atuação em casos complexos de perda óssea severa, reabilitação oral e saúde bucal.


3 coisas que toda mulher que pensa em ter filhos precisa saber

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Com a maternidade cada vez mais tardia, discutir estratégias de preservação da fertilidade antes dos 30 anos pode ampliar as chances de gravidez; Anvisa registra crescimento de 136,7% no congelamento de óvulos nos últimos cinco anos no país.

 

As brasileiras recorrem cada vez mais ao congelamento de óvulos para garantir maiores chances de engravidar na idade em que se sentirem prontas para ter filhos, sem depender do relógio biológico. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) revelam crescimento de 136,7% no congelamento de óvulos nos últimos cinco anos no país. 

Em 2020, foram realizados 7.872 ciclos, que consistem na estimulação dos ovários para produção de múltiplos óvulos, seguida pela coleta e criopreservação dessas células para uso futuro. Já em 2025, o registro é de 18.631 ciclos. “Isso mostra uma mudança cultural: a fertilidade começa a deixar de ser uma preocupação apenas de quem está tentando engravidar no momento e passa a fazer parte do planejamento de vida de mulheres que desejam manter aberta a possibilidade de ter filhos no futuro, com mais independência em relação à idade”, comenta Dr. Edward Carrilho, gestor médico da Clínica Fertility/Fertgroup. 

Durante o Junho Laranja, campanha de conscientização sobre infertilidade, o especialista destaca três informações essenciais para a saúde reprodutiva das mulheres:
 

1. Planejamento reprodutivo não significa decidir imediatamente quando se terá filhos 

A decisão de quando ser mãe depende de fatores que mudam ao longo da vida, como relacionamentos, carreira, estabilidade financeira e projetos pessoais. No entanto, a avaliação da fertilidade não precisa esperar essa definição.“O planejamento reprodutivo não envolve necessariamente decidir quando se terá filhos. Trata-se de conhecer a condição reprodutiva atual e usar as estratégias mais adequadas para cuidar da saúde e preservar possibilidades para o futuro”, ressalta Carrilho. 

Com consultas anuais ao ginecologista, é possível, por exemplo, identificar precocemente fatores que possam comprometer a fertilidade, como endometriose e síndrome dos ovários policísticos. Quanto mais cedo essas alterações são identificadas, mais amplas são as possibilidades de tratamento.
 

2. É essencial realizar exames para avaliação da reserva ovariana 

A dosagem do hormônio antimülleriano (AMH) no sangue e a ultrassonografia transvaginal permitem avaliar se a reserva ovariana, que corresponde ao estoque de óvulos existente nos ovários, está compatível com a idade. “Com os resultados, o ginecologista pode definir, juntamente com a paciente, estratégias de planejamento reprodutivo, como antecipar a tentativa de gravidez, intensificar o acompanhamento médico ou considerar a preservação da fertilidade por meio do congelamento de óvulos”, diz Carrilho. O médico ressalta que essas avaliações ajudam a estimar a quantidade de óvulos, mas não são capazes de medir diretamente sua qualidade, que está fortemente relacionada à idade.

 

3. Quanto mais cedo for realizado o congelamento de óvulos, melhor 

A mulher nasce com todos os óvulos que terá ao longo da vida, e essas células envelhecem junto com ela. Com o avanço da idade, aumentam as alterações cromossômicas nos óvulos, reduzindo as chances de formação de embriões saudáveis. “Quando o congelamento é realizado em idades mais jovens, preferencialmente antes dos 35 anos, os óvulos preservados tendem a apresentar melhor potencial reprodutivo. Além disso, geralmente é possível obter um número maior de óvulos viáveis em menos ciclos de estimulação e coleta”, explica Carrilho.



Copa do Mundo: especialistas orientam sobre cuidados com o coração e exames antes de jogar futebol

Forte emoção em jogos decisivos e retorno à prática do futebol amador sem avaliação prévia exigem atenção; os check-ups laboratorial e cardiológico garantem diversão segura dentro e fora de campo

 

O clima da Copa do Mundo mexe com a rotina e as emoções dos brasileiros. No entanto, para aproveitar a festa do futebol com segurança, médicos reforçam a importância de manter a saúde em dia. No Brasil, as doenças cardiovasculares respondem por cerca de 30% dos óbitos, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), um índice impulsionado por fatores como sedentarismo e obesidade e pela ausência de um acompanhamento médico preventivo regular. Em momentos de grande intensidade emocional – como em decisões por pênaltis, por exemplo –, a forte descarga de adrenalina pode sobrecarregar o sistema circulatório de quem já possui alguma vulnerabilidade. 

A cardiologista Fernanda Erthal, do laboratório Bronstein e da clínica CDPI, explica que momentos de intensa emoção, como partidas decisivas da Copa do Mundo, podem representar um desafio adicional para o sistema cardiovascular, especialmente em pessoas que já apresentam fatores de risco ou doenças cardíacas ainda não diagnosticadas. 

“Embora a maioria das pessoas atravesse essas situações sem nenhum problema, a descarga de adrenalina provocada pelo estresse e pela excitação pode aumentar temporariamente a frequência cardíaca e a pressão arterial. Em indivíduos predispostos, o aumento da demanda cardíaca pode favorecer o surgimento de sintomas ou até desencadear eventos cardiovasculares agudos”, afirma a especialista. 

Segundo a médica, desconforto ou dor no peito continua sendo o sinal de alerta mais conhecido, geralmente descrito como uma sensação de aperto, peso ou queimação, que pode irradiar para o braço esquerdo, as costas, o pescoço ou a mandíbula. “Outros sintomas que merecem atenção incluem falta de ar desproporcional ao esforço, palpitações persistentes, tonturas ou episódios de desmaio. Diante desses sinais, é importante procurar avaliação médica.” 

Fernanda ressalta que a melhor estratégia continua sendo a prevenção. “Muitas doenças cardiovasculares evoluem silenciosamente durante anos. Por isso, além do controle dos fatores de risco tradicionais, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado, obesidade e tabagismo, a realização periódica de avaliações cardiológicas permite identificar precocemente alterações que poderiam passar despercebidas. Em alguns casos, exames complementares, incluindo métodos de imagem cardiovascular, ajudam a refinar a estratificação de risco e a orientar medidas preventivas de forma mais individualizada.”
 

Investigação preventiva 

Os fatores de risco para o coração muitas vezes estão associados a condições metabólicas assintomáticas. A endocrinologista Rosita Fontes, do laboratório Sérgio Franco, lembra que o diabetes e o colesterol alto danificam progressivamente os vasos sanguíneos sem manifestar sintomas imediatos. 

“Muitas pessoas descobrem alterações na pressão ou na glicose apenas depois de passarem por uma forte emoção ou ao realizarem um check-up tardio”, afirma a especialista. Segundo ela, a prevenção eficaz começa com análises laboratoriais simples. “Monitorar as taxas de glicemia de jejum e hemoglobina glicada é fundamental para avaliar o risco de diabetes. Da mesma forma, o perfil lipídico completo – com a dosagem de colesterol LDL e HDL e de triglicerídeos – ajuda a detectar o acúmulo de gordura nas artérias. Manter essas consultas e exames em dia assegura que o organismo esteja preparado para os momentos de grande torcida.”
 

Cuidados necessários antes de entrar em campo 

Além da torcida, o período do mundial costuma motivar muitas pessoas a voltarem a praticar o futebol, seja na tradicional “pelada” de fim de semana, seja no futebol society. Por ser um esporte intermitente e de alta intensidade, que combina corridas rápidas, acelerações e mudanças bruscas de direção, a modalidade exige bastante do sistema cardiovascular, demandando cuidado especial de quem estava sedentário ou já passou dos 35, 40 anos. 

O cardiologista Breno Giestal, do Alta Diagnósticos, no Rio de Janeiro, destaca que a avaliação médica deve fazer parte do planejamento de quem deseja retornar aos gramados. 

“A base para uma prática esportiva segura começa no consultório, por meio da anamnese – que avalia o histórico familiar e sintomas como falta de ar desproporcional ou palpitações –, do exame físico e do eletrocardiograma”, orienta Giestal. 

De acordo com a idade do paciente, o histórico e a intensidade do futebol pretendido, exames adicionais podem ser indicados. “Com base nessa avaliação inicial, o médico pode solicitar testes complementares, como o teste ergométrico, a ergoespirometria ou o ecocardiograma, entre outros.” 

O especialista ressalta que as orientações não têm o objetivo de restringir o esporte, mas, sim, de viabilizá-lo de forma saudável. “O intuito é oferecer segurança e direcionamento adequado para o início da atividade física ou seu retorno. Quando bem praticado, o futebol traz excelentes benefícios para o condicionamento, o controle de peso e a redução do estresse diário. Preparar o coração antes de exigir o máximo do corpo é a melhor estratégia para jogar com segurança”, conclui o Dr. Breno.

 

Especialistas apontam cuidados que se deve ter com pessoas com demência durante o período da Copa do Mundo

Mudanças na rotina, excesso de barulho e ambientes agitados podem provocar desorientação, ansiedade e irritabilidade; adaptação do ambiente permite participação inclusiva nas celebrações

 

Na Copa do Mundo, milhões de brasileiros acompanham ansiosamente o evento como um todo e a Seleção Brasileira em particular. O período é marcado por reuniões familiares e de amigos, confraternizações e muita torcida. Ruas, casas, clubes e até locais públicos se transformam em verdadeiras arquibancadas improvisadas, com direito a muitas pessoas aglomeradas, barulho de corneta, gritos e fogos de artifício.

Porém, nem todas as pessoas se sentem confortável, empolgadas ou até mesmo felizes com o ambiente descrito acima. É o caso das pessoas com algum tipo de demência, como a doença de Alzheimer.

Segundo o Relatório Nacional sobre Demência, divulgado pelo Ministério da Saúde, cerca de 8,5% dos brasileiros com 60 anos ou mais convivem com algum tipo de demência, o que representa aproximadamente 1,8 milhão de pessoas. A condição é mais frequente entre idosos e tende a crescer nas próximas décadas em razão do envelhecimento populacional.

Especialistas alertam para alguns cuidados fundamentais que podem garantir o bem-estar dessas pessoas, especialmente em períodos como o final de ano ou a Copa do Mundo. Durante grandes eventos, mudanças bruscas na rotina podem gerar desconforto para pessoas com algum tipo de comprometimento cognitivo. Alteração nos horários das atividades habituais como refeições e descanso podem aumentar a confusão mental e a sensação de insegurança.

“É de fundamental importância preservar ao máximo a rotina da pessoa com demência. A Copa pode e deve ser um momento de integração familiar, mas sem que isso gere algum tipo de problema ou sobrecarga emocional ou sensorial para a pessoa com demência ou até mesmo para o seu cuidador. Pequenas adaptações no ambiente fazem toda a diferença para que ela participe de forma segura e confortável”, afirma Christiano Barbosa, presidente da Associação de Parentes e Amigos de Pessoas com Alzheimer (APAZ-RJ).

Entre as recomendações mais importantes está a escolha ou disponibilização de ambientes mais tranquilos para assistir às partidas. O excesso de ruídos, gritos, buzinas, o ambiente de tensão ocasionado por uma disputa de pênalti, por exemplo, ou comemorações intensas podem provocar irritabilidade, ansiedade e até episódios de agitação. Sempre que possível, é recomendável disponibilizar um espaço mais reservado para que a pessoa possa descansar caso se sinta desconfortável.

A alimentação também merece atenção especial. Nessas ocasiões, é comum o consumo de alimentos diferentes daqueles que a pessoa está habituada a comer e, dependendo do estágio da demência, podem existir dificuldades de mastigação ou deglutição, aumentando o risco de engasgos. Por isso, os cuidadores devem observar a consistência dos alimentos e acompanhar as refeições de perto.

Outro fator para se ficar atento é observar sinais de cansaço ou sobrecarga emocional. Mudanças de humor, inquietação, aumento da confusão mental ou isolamento são indicativos que o ambiente pode estar muito estimulante para a pessoa.

“Não devemos excluir as pessoas com demência das celebrações. Pelo contrário, a participação social é importante para a manutenção dos vínculos afetivos e para a qualidade de vida. O que precisamos é adaptar o ambiente às necessidades de cada pessoa, respeitando seus limites e promovendo acolhimento”, pondera Barbosa.

O presidente da APAZ-RJ ressalta ainda a importância de se compreender que cada pessoa vivencia a doença de forma diferente. “Com planejamento prévio, conscientização e respeitando as necessidades e a individualidade de cada pessoa, a Copa do Mundo pode se transformar em uma oportunidade de fortalecer laços familiares, criar momentos prazerosos, despertar lembranças agradáveis à pessoa com demência e proporcionar a ela um sentimento de pertencimento e inclusão”, finaliza.


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