Cirurgião bariátrico explica como o
excesso de gordura eleva o estrogênio após a menopausa e o que mostram os
estudos sobre a perda de peso sustentada
O Outubro Rosa leva o público feminino às clínicas de imagem para
a mamografia, principal ferramenta de detecção precoce do câncer de mama — condição que deve registrar cerca de 78,6 mil novos casos por ano
entre 2026 e 2028 no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Um
dos fatores de risco sobre os quais as mulheres podem agir, porém, ainda é
pouco conhecido por muitas delas: a obesidade. Para o cirurgião bariátrico
César De Fazzio, diretor do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília,
o tratamento da obesidade precisa entrar na pauta da prevenção. “A mamografia
serve para encontrar cedo um câncer que já começou, enquanto o tratamento da
obesidade atua antes disso, reduzindo a chance de que ele comece”, afirma.
A explicação está no que acontece com os hormônios depois da
menopausa. “O ovário deixa de ser a fonte principal de estrogênio, mas a
produção hormonal não termina ali, ela apenas muda de endereço, e o novo
endereço é o tecido adiposo”, explica o médico. A gordura converte outros hormônios
em estrogênio por meio de uma enzima chamada aromatase, inclusive no próprio
tecido mamário. Assim, mulheres com obesidade tendem a manter níveis
estrogênicos mais altos do que mulheres da mesma idade com peso considerado
adequado. A resistência à insulina, comum nesse quadro, também reduz a proteína
que transporta esse hormônio no sangue, deixando mais estrogênio livre na
circulação para atuar sobre as células da mama.
O efeito pode ser medido. Uma reanálise de nove estudos
prospectivos, publicada no Journal of the National Cancer Institute em
2002, mostrou que mulheres na pós-menopausa com os níveis mais altos de estradiol
tinham cerca do dobro do risco de câncer de mama em relação às que tinham os
níveis mais baixos. Segundo De Fazzio, antes da menopausa, quando os ovários
ainda são a principal fonte de estrogênio, essa associação não se repete da
mesma forma. Por isso, a discussão sobre prevenção diz respeito sobretudo à
pós-menopausa, fase em que ocorre a maior parte dos casos.
O que muda com a perda de peso
Uma análise conjunta de dez estudos com cerca de 180 mil mulheres
acima de 50 anos, publicada no Journal of the National Cancer Institute
em 2020, comparou quem perdeu peso com quem manteve o peso estável. Entre as
mulheres que não faziam reposição hormonal, as que perderam 9 kg ou mais e
mantiveram a perda tiveram risco 32% menor de câncer de mama. A associação já
aparecia a partir de perdas de 2 a 4,5 kg. “O fator protetor não é o
emagrecimento em si, é a manutenção, e isso tem implicação direta na escolha do
tratamento”, destaca o cirurgião.
Entre mulheres operadas, uma metanálise publicada no American Journal
of Surgery em 2021, com 11 estudos e mais de 1,1 milhão de pessoas,
associou a cirurgia bariátrica a uma incidência de câncer de mama cerca de 50%
menor do que a de mulheres com obesidade e IMC semelhante que não passaram pelo
procedimento. Quando a doença surgiu, foi diagnosticada com mais frequência em
estágio inicial.
No caso das canetas emagrecedoras, De Fazzio pondera que os dados
ainda são menos robustos, porque o tempo de estudo com essas medicações é
menor. Para ele, cada mulher precisa de uma indicação própria: “O que define o
tratamento adequado, se mudança de estilo de vida, se medicação, se cirurgia, é
a avaliação individual, o grau de obesidade, as comorbidades e a história de
tentativas anteriores”.
Informar não é culpar
No consultório, De Fazzio conta que recebe com frequência mulheres
na faixa dos 50 anos, com a mamografia rigorosamente em dia, que nunca ouviram
de nenhum profissional que o peso tem relação com o câncer. Para ele, parte
dessa omissão vem da forma como a assistência está organizada: o rastreamento
mamográfico tem campanha, meta e indicador, enquanto o tratamento da obesidade
fica como assunto de outra especialidade. A outra parte vem do receio de
constranger a paciente, quando se confunde informar com culpabilizar. “O
resultado prático desse silêncio é que a mulher deixa de receber uma informação
sobre a qual ela poderia agir”, observa.
O cirurgião reforça que a obesidade é uma doença crônica, com componentes hormonais, genéticos e ambientais, e não falta de força de vontade. Ele lembra que nada substitui o rastreamento e que perdas de 5% a 10% do peso corporal já produzem efeito metabólico mensurável. “O que não pode continuar acontecendo é a mulher sair da clínica de imagem com o laudo normal na mão sem que ninguém tenha dito a ela que existe uma segunda frente de prevenção, disponível, estudada e, por enquanto, pouco falada”, conclui.
César De Fazzio - cirurgião bariátrico César De Fazzio dedica-se à área do aparelho digestivo há mais de 15 anos. Fundador do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília-DF, é referência no tratamento cirúrgico e clínico da obesidade. Com um olhar sistêmico do paciente, o especialista coordena todas as etapas do emagrecimento, integrando medicina, nutrição e psicologia em um acompanhamento multidisciplinar. Sua prática é pautada em evidências científicas, pela ética e pelo uso de tecnologia de ponta com materiais de alta qualidade em intervenções minimamente invasivas, visando resultados de longo prazo. Prioriza a segurança e um atendimento transparente e individualizado.
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