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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

A saúde íntima também precisa entrar na conversa sobre câncer de mama

No Outubro Rosa, ressecamento vaginal e dor nas relações sexuais chamam atenção para efeitos que podem acompanhar o tratamento oncológico. A fisioterapia pélvica pode integrar esse cuidado, conforme avaliação individual e orientação da equipe médica.

 

Ressecamento vaginal, desconforto e dor durante as relações sexuais podem fazer parte das mudanças enfrentadas por mulheres em tratamento contra o câncer de mama. Alguns tratamentos podem alterar a função dos ovários ou reduzir a ação do estrogênio, com repercussões na lubrificação e no conforto íntimo. Esses efeitos variam entre pacientes e merecem espaço nas consultas, mesmo quando a prioridade é o controle da doença.

No Outubro Rosa, ampliar essa conversa ajuda a reconhecer necessidades que muitas mulheres têm dificuldade de relatar. Vergonha, receio de parecer uma preocupação secundária ou a ideia de que o desconforto é inevitável podem levar ao silêncio. A saúde sexual, porém, também faz parte da qualidade de vida durante e após o tratamento.

Segundo Jullia Mello, fisioterapeuta pélvica, especialista em Uroginecologia e Obstetrícia e mentora do grupo Pelve Conecta, o cuidado começa pela escuta. “A mulher precisa encontrar espaço para contar o que mudou, sem sentir que está trazendo uma questão menos importante. Dor, ressecamento e insegurança merecem avaliação, respeitando o momento do tratamento e aquilo que ela deseja trabalhar”, explica.

A dor nas relações não deve ser atribuída automaticamente a uma única causa. Além das alterações dos tecidos, podem existir tensão muscular, dificuldade de relaxamento do assoalho pélvico e medo de sentir dor novamente. A avaliação ajuda a identificar quais fatores estão presentes e quais profissionais precisam participar do cuidado.

A fisioterapia pélvica pode integrar esse acompanhamento quando há indicação. O trabalho pode envolver percepção corporal, coordenação e relaxamento muscular, além de outros recursos selecionados conforme os sintomas e as condições clínicas. A Sociedade Americana de Câncer inclui a fisioterapia pélvica entre as possibilidades para mulheres com dor relacionada à dificuldade de relaxar a musculatura vaginal.

“Não é simplesmente orientar contrações. Se existe uma musculatura tensa ou dificuldade para relaxar, a conduta precisa considerar isso. Também não podemos atribuir à fisioterapia a solução de todas as alterações hormonais. O cuidado deve ser construído em conjunto”, ressalta Jullia.

Lubrificantes e hidratantes vaginais podem ser discutidos com a equipe responsável, assim como outras alternativas para os sintomas. Produtos e tratamentos hormonais exigem avaliação médica individualizada, especialmente diante do histórico de câncer de mama. A escolha não deve ser feita por indicação informal ou pela repetição de uma receita utilizada antes do diagnóstico.

O acompanhamento também precisa respeitar os limites e as preferências da paciente. Técnicas de avaliação e tratamento devem ser explicadas e realizadas com consentimento, considerando a fase do cuidado oncológico e eventuais restrições.

“A reabilitação não tem como objetivo fazer a mulher retomar relações em um prazo determinado. Precisamos cuidar do conforto, da autonomia e das necessidades que ela apresenta. A intimidade pode ser vivida de diferentes formas, sem pressão para corresponder a uma expectativa”, afirma a fisioterapeuta.

Conversar com a equipe de saúde permite avaliar os sintomas e definir possibilidades de cuidado. Quando necessário, o acompanhamento psicológico ou em terapia sexual também pode ajudar a trabalhar questões relacionadas à imagem corporal, ao medo e às mudanças na relação.

Para Jullia, a mensagem é que essas queixas não precisam permanecer escondidas. “A mulher não deve sentir que precisa escolher entre cuidar do câncer e falar sobre sua saúde íntima. São necessidades que podem ser acolhidas dentro de um acompanhamento integrado, com respeito à sua história e ao seu tempo”, conclui.

 

Fonte: Jullia Mello — fisioterapeuta pélvica, especialista em Uroginecologia e Obstetrícia e mentora do grupo Pelve Conecta.



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