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terça-feira, 13 de outubro de 2026

Parece Alzheimer, mas pode ser outra coisa: uma demência que tem tratamento

Hidrocefalia de pressão normal pode provocar perda de memória, dificuldade para caminhar e perda de autonomia, mas avanços no tratamento têm ampliado a segurança e as possibilidades de recuperação 

 

Envelhecer não significa necessariamente perder a autonomia. Ainda assim, dificuldade para caminhar, alterações de memória e perda do controle urinário podem ser atribuídas ao avanço da idade ou associadas a doenças como Alzheimer. Existe, porém, outra possibilidade que merece ser investigada: a hidrocefalia de pressão normal (HPN). 

Mais comum em pessoas idosas, a HPN pode provocar essa combinação de sintomas de forma gradual e ser confundida com outras doenças neurológicas. A consequência é a perda progressiva da independência sem que uma causa potencialmente tratável seja identificada. 

“O diagnóstico exige mais do que um exame isolado. A investigação começa pela história do paciente e por uma avaliação neurológica, com atenção às alterações da marcha, da cognição e do controle urinário”, explica o Dr. Rodolfo Casimiro Reis, neurocirurgião do Hcor. 

A tomografia e, especialmente, a ressonância magnética podem mostrar o aumento dos ventrículos, mas a imagem precisa ser analisada em conjunto com os sintomas. “Em alguns casos, também realizamos uma punção lombar com retirada de líquor, para observar se há melhora da marcha ou de outras funções. Essa resposta pode ajudar a identificar pacientes com maior possibilidade de benefício com a cirurgia”, completa.

 

Quando a tecnologia faz diferença 

O tratamento recomendado é a derivação ventrículo-peritoneal, cirurgia que implanta um sistema para drenar o excesso de líquido do cérebro para o abdômen. Entre os avanços mais importantes estão as válvulas programáveis, que permitem ajustar ambulatorialmente a drenagem de acordo com a resposta de cada paciente, sem uma nova cirurgia. 

“Em um estudo conduzido por nossa equipe, observamos uma redução expressiva das complicações no primeiro ano após a cirurgia: elas ocorreram em 10,5% dos pacientes que receberam válvulas programáveis, contra 52,6% daqueles tratados com válvulas de pressão fixa. Esse resultado tem uma tradução bastante concreta: menos complicações e menor possibilidade de novas intervenções após a cirurgia”, revela o especialista. 

Também foi estudado como definir a programação inicial dessas válvulas. O objetivo é encontrar o equilíbrio entre drenar o suficiente para produzir benefício e evitar uma drenagem excessiva, que pode causar complicações. 

“Os resultados mostraram que uma programação mais conservadora proporcionou melhora neurológica semelhante à de uma drenagem maior, mas com menos problemas relacionados à hiperdrenagem. Em outras palavras, foi possível buscar o mesmo benefício com uma abordagem mais segura”, conta.

 

O tratamento termina com a cirurgia? 

O acompanhamento após o procedimento também é importante para avaliar a evolução da pessoa. Uma das dificuldades é que os exames de imagem nem sempre acompanham a melhora clínica. A pessoa pode caminhar melhor, recuperar funções e ganhar autonomia mesmo quando medidas tradicionalmente utilizadas nas imagens praticamente não se alteram. 

“Por isso, nossa equipe passou a estudar outro parâmetro, chamado ângulo do corpo caloso. Nas análises realizadas até aqui, observamos que mudanças nesse ângulo acompanharam a evolução neurológica dos pacientes. O achado pode ajudar a complementar a avaliação clínica e oferecer mais uma ferramenta para acompanhar a resposta ao tratamento”, explica. 

É um exemplo de como a inovação pode estar não apenas em desenvolver novos tratamentos, mas também em aperfeiçoar o diagnóstico, tornar a cirurgia mais segura e acompanhar melhor quem foi tratado.

 

Nem todo declínio é apenas parte do envelhecimento 

Alterações na marcha, na memória e no controle urinário em pessoas mais velhas merecem investigação. “Isso não significa que esses sinais sejam necessariamente causados por HPN ou que todo declínio cognitivo possa ser revertido. Significa apenas que não devemos assumir, antes de investigar, que tudo faz parte do envelhecimento ou de uma doença neurodegenerativa”, ressalta. 

Na hidrocefalia de pressão normal, um diagnóstico adequado pode abrir uma possibilidade de tratamento e, em muitos pacientes, de recuperação de funções que pareciam perdidas. 

“Por isso, diante de um idoso que passa a caminhar com dificuldade, apresentar alterações cognitivas e perder o controle urinário, a pergunta não deve ser apenas ‘é Alzheimer?’. Também precisamos perguntar: pode ser outra coisa?”, orienta o especialista.



 Hcor



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