Pesquisa conduzida pela Libbs, com apoio da Febrasgo, revela que a decisão contraceptiva começa antes da consulta: 58% das brasileiras buscam informações nas redes sociais antes de conversar com o ginecologista
Para 92% das brasileiras, a pílula anticoncepcional é um método eficaz para evitar a gravidez, mas reconhecer sua eficácia não significa ter a mesma percepção sobre sua segurança para o organismo.¹ Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a pílula anticoncepcional é considerada altamente segura para mulheres saudáveis e, quando utilizada corretamente, com a ocorrência de uma gravidez a cada 100 usuárias.2 Ainda assim, apenas 18% das entrevistadas confiam nas pílulas, evidenciando uma possível lacuna de conhecimento sobre seus benefícios, riscos, desinformação gerada pelas redes sociais e mecanismos de ação.¹
É o que revela a pesquisa conduzida pela Libbs, com o apoio da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), que investigou como as brasileiras se informam, quais fatores consideram e que dúvidas levam para a conversa com o ginecologista, especialmente em um cenário de ampla circulação de informações imprecisas no ambiente digital. Dados que vão ao encontro de um fenômeno global: mais de 1,18 bilhão de visualizações sobre contracepção no TikTok evidenciam a vasta exposição das mulheres a informações antes de uma consulta médica. 3
O levantamento ouviu 500 mulheres de 16 a 45 anos, em abril deste ano, das mais variadas classes sociais de todas as regiões do país. Os resultados mostram uma mulher mais ativa na busca por informações sobre contracepção: antes de ir ao médico, ela pode pesquisar, comparar experiências e formar percepções sobre os diferentes métodos1. Nesse cenário, a orientação clínica ganha espaço como uma etapa importante para transformar informação em conhecimento e apoiar uma decisão individualizada.4
Entre os fatores que influenciam essa percepção estão os receios relacionados a efeitos colaterais, trombose e aos impactos dos hormônios no organismo. Diante de tantos receios que circulam na internet, torna-se papel do ginecologista combater ativamente a chamada "hormoniofobia". Esse fenômeno consiste no medo exacerbado em relação ao uso de hormônios que extrapola os riscos reais, gerando uma sensação de alarmismo que afasta mulheres de contracepção adequada. 5
O acolhimento na consulta de tais medos e desmistificar esses conceitos transforma-se então um ato essencial de cuidado, porque a ciência e prática clínica nos mostram que, quando bem indicada e acompanhada de perto, a pílula anticoncepcional permanece como um método seguro, confiável e benéfico para boa parte das mulheres, indo muito além da prevenção da gravidez. 2
A pesquisa também mostra que a percepção sobre a pílula vai além da eficácia. Diferentes atributos podem ter pesos distintos para cada mulher, e dúvidas sobre hormônios, efeitos e outras características dos métodos fazem parte desse processo de escolha1. Mais do que apontar uma preferência única, os dados ajudam a entender a complexidade da decisão contraceptiva e a importância de considerar a realidade de cada mulher6.
“Hoje,
a paciente chega ao consultório com uma carga de informações que não existia há
dez anos. Ela já leu sobre trombose, já viu relatos de queda de libido e já
desconfia dos hormônios antes mesmo de ouvir a prescrição. Esta pesquisa traz
dados que elucidam e quantificam o que já é perceptível na prática clínica”,
explica o ginecologista Dr. Vitor Maga (Vitor Henrique de Oliveira CRM
185.033-SP RQE 92.064) médico consultor em contracepção.
Quando informação e percepção de risco não caminham juntas
A distância entre eficácia percebida e segurança percebida aparece também nos principais receios das entrevistadas. 74% afirmam ter medo dos efeitos colaterais da pílula e 59% acreditam que os hormônios podem “desregular” o organismo.¹ Quando falta orientação qualificada, a percepção de risco pode se sobrepor ao risco real, abrindo espaço para que a desinformação influencie a forma como as mulheres avaliam os métodos contraceptivos.7
Entre as crenças identificadas pelo levantamento, 45% acreditam que é necessário “pausar o corpo” durante o uso da pílula, enquanto 22% associam o método à infertilidade permanente. ¹
O levantamento mostra ainda que seis em cada dez mulheres acreditam em pelo menos uma informação falsa sobre contracepção, incluindo afirmações relacionadas a ganho de peso, infertilidade e câncer.¹ Para o especialista, os números mostram que o desafio não está apenas em ampliar o acesso a conteúdo confiável, mas em garantir que a mulher tenha orientação qualificada para interpretar essas informações e tomar decisões de forma consciente durante o aconselhamento contraceptivo.
“O
acesso a uma grande quantidade de conteúdo não significa, necessariamente,
acesso à informação de qualidade. A mulher pode encontrar relatos verdadeiros,
experiências individuais, informações científicas e conteúdos incorretos na
mesma busca. Por isso, a consulta médica é fundamental para colocar cada
informação em contexto e avaliar o que faz sentido para aquela paciente”,
afirma o Dr. Vitor.
A consulta ganha um novo papel
Embora a internet tenha ampliado o acesso das mulheres a informações sobre saúde, o profissional de saúde continua sendo uma das principais referências para a tomada de decisão1.
Os resultados mostram que a decisão contraceptiva começa cada vez mais cedo: 58% das entrevistadas afirmam buscar informações primeiro nas redes sociais, antes mesmo da consulta médica. Apesar da influência crescente do ambiente digital, 70% afirmam confiar mais em profissionais de saúde do que em outras fontes de informação1.
A conversa também tem impacto sobre a percepção das pacientes: 77% dizem se sentir mais tranquilas depois de receber uma explicação clara de um profissional, enquanto 45% gostariam de ter mais espaço durante a consulta para discutir os riscos e benefícios de cada método. A forma como essa conversa acontece também importa: 53% afirmam perder a confiança quando percebem falta de empatia durante o atendimento. ¹
“Uma decisão contraceptiva não deve ser baseada apenas no que a mulher viu nas redes sociais ou no relato de outra pessoa. O que funciona e é adequado para uma mulher pode não ser a melhor opção para outra. O papel do profissional é justamente ajudar a transformar informação em conhecimento e, a partir daí, construir uma escolha compartilhada”, reforça o especialista.
Nesse processo, o papel do médico vai além de apresentar opções e prescrever um método. A escolha do contraceptivo deve considerar a individualidade de cada paciente, suas necessidades, prioridades, rotina, histórico e possíveis queixas. Mais do que indicar um método, a consulta deve ser um espaço de escuta e diálogo, em que benefícios, riscos e expectativas sejam discutidos de forma personalizada. Afinal, não existe um método ideal para todas as mulheres, mas aquele que melhor se adapta a cada uma delas.8
“Atualmente,
as mulheres chegam à consulta com muito mais informação, mas nem sempre com
informação de qualidade. O papel da FEBRASGO é garantir que cada mulher tenha
acesso a conhecimento científico confiável e a um aconselhamento contraceptivo
individualizado, baseado em evidências, escuta e respeito às suas escolhas. Não
existe um método ideal para todas: existe o método mais adequado para cada
mulher, em cada momento de sua vida”, explica a Dra. Maria Celeste Osório
Wender, presidente da entidade.
Uma mesma informação pode ser percebida de maneiras diferentes
O levantamento também identificou diferenças regionalizadas na percepção das brasileiras sobre contracepção. A pílula é o método mais lembrado em todas as regiões, com maior índice de lembrança no Sul e no Norte, ambos com 65%.¹
A percepção sobre sua eficácia é mais elevada no Sudeste e no Sul, com 94%, seguidos por Centro-Oeste (92%), Norte (87%) e Nordeste (85%). Já a percepção de segurança dos métodos contraceptivos para o organismo apresenta índices significativamente menores, variando de 13% no Sul a 24% no Nordeste.¹
Os resultados reforçam que a decisão contraceptiva não é construída a partir de uma única variável. Histórico de saúde, necessidades, expectativas, estilo de vida e planos reprodutivos são alguns dos fatores que podem fazer parte dessa conversa.9
A pesquisa apontou que é fundamental oferecer estratégias que já estejam balizadas na percepção de valor da paciente — visto que 53% das pacientes perdem confiança quando sentem falta de empatia e 45% esperam maior discussão de riscos e benefícios. ¹ “Uma das coisas mais importantes na contracepção é entender que não existe uma escolha universal. A informação é o ponto de partida, mas ela precisa ser individualizada. A paciente precisa ter espaço para falar sobre seus receios, expectativas e prioridades para que, junto com o profissional, possa avaliar as opções disponíveis”, explica o Dr. Vitor.
Sendo
assim, para as mulheres que já valorizam benefícios como regularidade do ciclo,
controle de cólicas e melhora da acne, as pílulas contraceptivas com hormônios
combinados, por exemplo, se apresentam como uma estratégia prescritiva
naturalmente alinhada com as expectativas da paciente, o que favorece a adesão,
dissipa receios e fortalece o vínculo de confiança.
Informação confiável também é parte do cuidado.8,10
Nesse cenário, a educação em saúde ganha importância tanto para mulheres quanto para profissionais. Entidades médicas, como a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), têm papel relevante na promoção da educação médica continuada e na disseminação de conhecimento científico relacionado à saúde da mulher.
Para
a Libbs, os dados reforçam a importância de estimular uma conversa qualificada
sobre contracepção, baseada em evidências e que considere as dúvidas,
necessidades e escolhas individuais de cada mulher. Com pacientes mais
informadas, o desafio médico vai além de ofertar conteúdo: é preciso filtrar
mitos e evidências para construir decisões seguras e individualizadas.
“Mas
é no diálogo com o profissional de saúde que essa informação ganha contexto
para apoiar uma escolha segura”, alerta.
www.libbs.com.br
Referências
- Inception. Relatorio Contracepção & Fake News –
versão final. Pesquisa quantitativa on-line conduzida para Libbs
Farmacêutica [dados não publicados]. 2026
- World Health Organization. Oral contraceptives
[Internet]. Geneva: World Health Organization; 2025 Dec 23 [acesso 11 Set
2026]. Disponível em: Link
- Black KI, Vromman M, French RS. Common myths and
misconceptions surrounding hormonal con- traception. Best Pract Res Clin
Obstet Gynaecol. 2025;98:102573
- Damásio LCVC, Wender MCO. Responsabilidade médica e
pseudociência em Ginecologia e Obstetrícia: o desafio da atuação ética em
tempos de desinformação e fake news. Femina. 2025;53(6):794-8.
- Le Guen M, Schantz C, Régnier-Loilier A, de La
Rochebrochard E. Reasons for rejecting hormonal contraception in Western
countries: a systematic review. Soc Sci Med. 2021;284:114247.
- Manzer JL, Carrillo-Perez A, Tingey L, et al. Client
Perspectives on Contraceptive Care: A Systematic Review. Am J Prev Med.
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- Schneider-Kamp A, Takhar J. Interrogating the pill:
rising distrust and the reshaping of health risk perceptions in the social
media age. Soc Sci Med. 2023;331:116081.
- American College of Obstetricians and Gynecologists.
Patient-centered contraceptive counseling. Committee Statement No. 1.
Obstet Gynecol. 2022;140(3):458-61.
- Nguyen AT, Curtis KM, Tepper NK, Kortsmit K, Brittain
AW, Whiteman MK, et al. U.S. Medical Eligibility Criteria for
Contraceptive Use, 2024. MMWR Recomm Rep. 2024;73(4):1-126.
- Curtis KM, Nguyen AT, Tepper NK, Zapata LB, Snyder EM,
Hatfield-Timajchy K, et al. U.S. Selected Practice Recommendations for
Contraceptive Use, 2024. MMWR Recomm Rep. 2024;73(3):1-77.
Informações
não referenciadas correspondem à opinião e/ou prática clínica do profissional
da saúde entrevistado.
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