O avanço da discussão sobre o fim das bets no Brasil coloca uma nova questão no
centro do debate. Além dos impactos econômicos e regulatórios, existe uma
dimensão de saúde pública que continuará exigindo atenção independentemente do
destino das plataformas autorizadas: o cuidado com as pessoas que já apresentam
uma relação problemática com as apostas.
Regulação e saúde pública estão conectadas, mas não são a mesma questão. O
encerramento ou a restrição das plataformas autorizadas pode alterar o acesso e
a exposição ao jogo, mas não significa necessariamente o desaparecimento das
apostas.
Esse ponto é importante porque o mercado ilegal já representa parcela relevante
da atividade no país. Auditoria divulgada pelo Tribunal de Contas da União em
2026 estimou que operadores ilegais respondem por 41% a 51% do volume total de
apostas realizadas no Brasil.
Ou seja, uma mudança no mercado regulado não elimina automaticamente o acesso
ao jogo. Pessoas que já apresentam perda de controle podem continuar buscando
formas de apostar, inclusive em ambientes sem os mecanismos de fiscalização e
proteção exigidos das empresas autorizadas.
É justamente por isso que prevenção e tratamento precisam continuar fazendo
parte da discussão. A compulsão não desaparece simplesmente porque determinado
canal deixa de existir.
O problema também não começa apenas quando há diagnóstico de transtorno do
jogo. Antes disso, mudanças de comportamento podem indicar uma trajetória de
risco.
Aumento da frequência das apostas, crescimento dos valores envolvidos,
dificuldade para respeitar limites de tempo e dinheiro, desejo intenso de jogar
e tentativas recorrentes de recuperar perdas estão entre os sinais que merecem
atenção.
Isso não significa transformar qualquer pessoa que aposta em paciente. O
desafio está em observar padrões e mudanças ao longo do tempo.
Um dos instrumentos utilizados internacionalmente para avaliar problemas
relacionados ao jogo é o Problem Gambling Severity Index, o PGSI. Outros
indicadores, como frequência das apostas, volume de gastos, períodos sem jogar
e craving, termo utilizado para o desejo intenso de apostar, também podem
contribuir para compreender a evolução do comportamento. Nenhum deles, porém,
deve ser interpretado isoladamente como diagnóstico.
Essa distinção é importante porque restringir o acesso ao jogo e tratar um
comportamento problemático são intervenções diferentes. Medidas regulatórias
atuam sobre o ambiente. Quando um padrão já está estabelecido, também é
necessário trabalhar fatores como gatilhos, crenças relacionadas às apostas,
estabelecimento de limites e prevenção de recaídas.
Nesse campo, intervenções baseadas em Terapia Cognitivo-Comportamental
apresentam evidências relevantes. Em estudo randomizado publicado na revista
Behaviour Research and Therapy, pesquisadores da Universidade Laval avaliaram
tratamento cognitivo em grupo para pessoas que preenchiam os critérios então
utilizados para jogo patológico. Entre os 34 participantes que concluíram a
intervenção, 88% deixaram de preencher esses critérios ao final do tratamento,
ante 20% no grupo de controle.
O ambiente digital acrescenta outra dimensão ao problema. As apostas podem
ocorrer pelo celular e acompanhar o indivíduo ao longo do dia, fazendo com que
mudanças de comportamento aconteçam entre consultas ou outros contatos com
profissionais de saúde e redes de apoio.
Recursos digitais podem contribuir nesse intervalo. Registros de frequência,
gastos, gatilhos e períodos sem jogar podem ampliar as informações disponíveis
para acompanhamento e ajudar a identificar padrões que não aparecem em um
contato isolado.
Esses recursos devem funcionar como apoio à prevenção e à continuidade do
cuidado, e não como substitutos da avaliação profissional. Quando existe
suspeita de ludopatia ou necessidade de tratamento especializado, a condução
deve ser feita por profissionais habilitados.
É por isso que o fim das bets autorizadas, caso se concretize, não encerra a
discussão sobre jogo problemático.
A mudança pode alterar o mercado regulado, a publicidade e a exposição. Mas não
elimina automaticamente o mercado ilegal nem a necessidade de cuidar de quem já
desenvolveu uma relação problemática com o jogo.
As regras podem mudar. O acesso pode assumir outras formas. A necessidade de
reconhecer, prevenir e tratar o jogo problemático permanece.
Lucas Baraças - diretor de Saúde Digital da Galileu Saúde e cofundador do Vigilantes
Vigilantes by Galileu - plataforma de autocuidado e mudança de hábitos da Galileu Saúde, que combina ciência comportamental, tecnologia e acompanhamento contínuo para apoiar pessoas na construção de rotinas mais saudáveis. A solução atua em quatro frentes (saúde do sono, mental, física e financeira) por meio de jornadas digitais, diários, autoavaliações e ferramentas baseadas em inteligência artificial. O Vigilantes também oferece recursos para empresas e profissionais de saúde, integrando acompanhamento de hábitos e indicadores ao cuidado tradicional.
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