Método permite que a própria mulher
faça a coleta da amostra vaginal para pesquisa do vírus e pode ajudar a ampliar
o acesso ao rastreamento
O Brasil deve registrar 19.310 novos casos de câncer do colo do
útero em 2026, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Apesar de ser uma doença amplamente prevenível, o tumor ainda está entre os
mais incidentes nas mulheres brasileiras. Uma das estratégias que começa a
ganhar espaço para ampliar o rastreamento é a autocoleta para detecção do HPV,
principal agente relacionado ao desenvolvimento da doença.
Na autocoleta, a própria mulher coleta uma amostra vaginal,
utilizando um dispositivo específico, que posteriormente é encaminhada ao
laboratório para análise molecular. Diferentemente do exame ginecológico
convencional, o procedimento não exige que a coleta seja realizada diretamente
por um profissional de saúde.
“A autocoleta pode facilitar o acesso ao rastreamento
principalmente para mulheres que, por diferentes razões, não realizam o exame
regularmente. Questões como constrangimento, dificuldade de acesso aos serviços
de saúde, falta de tempo ou desconforto com o procedimento convencional podem
afastar parte da população da prevenção”, explica a médica patologista Renata
Sacchi, gerente geral do DB Patologia.
A estratégia tem efetividade respaldada por ampla literatura
científica, que demonstra que, quando utilizados métodos validados, a
autocoleta para teste de HPV apresenta desempenho semelhante ao da coleta
realizada por um profissional de saúde. Sua adoção é especialmente oportuna
diante da importante mudança nas diretrizes brasileiras de rastreamento,
alinhada às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Desde 2025, o Ministério da Saúde passou a recomendar o teste
molecular para detecção do DNA de HPV oncogênico como método primário para o
rastreamento populacional. A principal diferença em relação à citologia é que o
teste molecular permite identificar a infecção por tipos de HPV associados ao
maior risco de desenvolvimento do câncer do colo do útero antes do aparecimento
de alterações celulares ou de lesões precursoras. O Papanicolau, por sua vez,
baseia-se na identificação de alterações morfológicas nas células, que podem
surgir após o desenvolvimento dessas lesões.
Essa mudança permite aumentar a sensibilidade dos programas de
rastreamento e, diante de um resultado negativo, oferece maior segurança para
ampliar o intervalo entre os exames de rotina.
Pelas diretrizes nacionais, o rastreamento deve ser oferecido às
mulheres e demais pessoas com colo do útero, entre 25 e 64 anos, que já tiveram
atividade sexual. Quando o teste de DNA-HPV apresenta resultado negativo, o
intervalo recomendado para repetição é de cinco anos. Nos locais onde a nova
tecnologia ainda não está disponível, o Teste de Papanicolau continua sendo
utilizado. Além disso, a citologia continua desempenhando um papel importante
na avaliação das pacientes com resultado positivo para determinados tipos de HPV
de alto risco. Nesses casos, ela contribui para a estratificação do risco e
auxilia na definição da necessidade de investigação complementar, evitando
encaminhamentos desnecessários para colposcopia.
“A principal diferença é que estamos procurando a presença do HPV
de alto risco antes mesmo que ele provoque alterações celulares importantes.
Isso permite identificar quem precisa de uma investigação complementar e, ao
mesmo tempo, acompanhar com segurança quem apresenta resultado negativo”,
afirma a especialista.
Na autocoleta, a medicina diagnóstica laboratorial também
desempenha um papel fundamental, pois a amostra precisa ser coletada com
dispositivo e metodologia adequados, encaminhada de forma apropriada e
processada por um teste molecular validado para esse tipo de material. Dessa
forma, a possibilidade de colher a amostra em sua casa, de forma simples e
rápida, representa uma estratégia para ampliar a adesão ao rastreamento, mas a
qualidade do resultado depende da integração entre todas as etapas envolvidas,
desde a coleta, logística e o processamento laboratorial e fluxo adequado de
acompanhamento da jornada do paciente.
Assim, é necessário manter a clareza de que a autocoleta
não substitui, de modo algum, o
acompanhamento por um profissional. Um resultado positivo para HPV não é
diagnóstico de câncer. Dependendo do tipo viral identificado e do resultado,
podem ser necessários exames complementares e avaliação médica para definir a
conduta adequada. A melhor maneira de assegurar que cada paciente tenha a
melhor conduta para sua condição é contar com o acompanhamento médico.
Estudos internacionais demonstram que a estratégia é efetiva como
ferramenta adicional para ampliar a participação nos programas de rastreamento,
especialmente entre mulheres que permanecem fora da rotina preventiva.
“Quanto mais simples e acessível for o rastreamento, maior a
possibilidade de alcançarmos quem hoje não realiza nenhum exame preventivo. A
autocoleta não elimina a importância do acompanhamento ginecológico, mas pode
funcionar como uma porta de entrada para pessoas que estavam afastadas dessa
rotina”, reforça Renata Sacchi.
A discussão ganha ainda mais relevância durante o Outubro Rosa.
Embora a campanha seja tradicionalmente associada ao câncer de mama, o período
também pode servir para ampliar o olhar sobre a saúde feminina. Prevenção não
deve se restringir a uma doença ou a um mês específico, especialmente quando
existem estratégias capazes de identificar riscos antes do surgimento de
sintomas.
Grupo DB
Nenhum comentário:
Postar um comentário