No ambiente
corporativo atual, a promessa da tecnologia era simples: quanto mais
dados, ERPs robustos e Inteligência Artificial integrados, mais
precisas e rápidas seriam as decisões. Contudo, o que se observa na prática é o
surgimento de um fenômeno silencioso e devastador: o apagão da gestão. Apesar
da abundância de informações, diversas organizações estão perdendo a capacidade
de interpretar o próprio negócio e agir de forma assertiva. O problema está
longe de ser um déficit de tecnologia, e revela uma crise profunda de
capacitação de lideranças, falta de governança sobre os dados e desalinhamento
cultural.
A percepção
de que uma empresa opera sem gestão ou com uma liderança ineficiente varia
conforme o país, o porte e o setor de atuação. No cenário brasileiro,
especialmente em empresas de pequeno e médio porte em fase de crescimento, essa
ineficiência tem relação com a falta de capacitação dos líderes. Como prova
disso, um estudo da Gartner revela um dado alarmante: cerca de 60% dos novos
gestores falham nos primeiros 24 meses de cargo.
É muito
comum que, quando o negócio é pequeno, a relevância da gestão permaneça quase
invisível. Entretanto, à medida que a empresa cresce, tomar decisões que
protejam a operação atual e preparem o futuro exige uma liderança que
compreenda profundamente o que está decidindo. O obstáculo raramente é a
ausência de dados, mas sim a falta de preparo para interpretá-los — o que faz
com que muitos gestores tomem decisões baseados em premissas equivocadas.
Outra causa
bastante frequente é a armadilha do excesso de informação, que ser
funcional, precisa ser rápida, relevante e confiável, apresentando uma única
versão da verdade. No entanto, quando os dados atrasam, trazem relatórios
abarrotados de indicadores desconectados ou geram respostas divergentes entre
áreas, a gestão cai na paralisia por análise e a tomada de decisão se torna um
exercício de adivinhação.
Essa falta
de capacidade analítica é o verdadeiro divisor de águas entre as pequenas e
médias empresas que sobrevivem e as que sucumbem à adolescência corporativa. Os
principais motivos de encerramento de empresas no Brasil estão ligados ao
capital de giro e ao fluxo de caixa, e decisões ineficientes frequentemente
exigem mais recursos do que seria necessário. Já nas organizações maduras, o
sinal de alerta acende quando se perde a capacidade de “ler” o terreno em que
pisa. Até porque, sem leitura analítica dos indicadores, a empresa não
identifica as mudanças do mercado a tempo de promover correções de rota para
preservar sua relevância.
Existe a
falsa premissa de que a abundância de dados gerada por ERPs robustos
e Inteligência Artificial trará clareza automática. A realidade é oposta:
a tecnologia amplifica tanto os acertos quanto os problemas. Quando
os processos são mal definidos, os indicadores não possuem critérios claros e
os departamentos não compartilham a mesma visão do negócio, as ferramentas
utilizadas apenas aceleram a geração de ruído. Não à toa,
organizações que possuem sistemas modernos frequentemente travam ao tentar
responder perguntas básicas sobre rentabilidade, produtividade ou eficiência
operacional. É preciso enfatizar que a tecnologia produz respostas,
mas formular as perguntas certas continua sendo papel da gestão.
A
Inteligência Artificial é uma ferramenta extraordinária de apoio, mas não
elimina responsabilidades. O risco crescente nas empresas está na tentativa de
transferir para os algoritmos uma atribuição estritamente humana. Dados mostram
tendências e sistemas identificam padrões, porém decidir continua sendo papel
da liderança. Os melhores líderes usam recursos tecnológicos para
ampliar sua capacidade analítica, jamais para terceirizar seu senso crítico. Ao
aceitar qualquer recomendação sem questionamento, a gestão renuncia à interpretação
do contexto do negócio, dos clientes e das pessoas.
Para
reorganizar esse ecossistema, o ponto de partida deve ser a simplificação. O
primeiro exercício é identificar quais decisões são realmente estratégicas e
quais informações são estritamente necessárias para sustentá-las, estruturando
processos e criando uma única versão da verdade. Os projetos que geram maior
retorno não são os que acumulam mais tecnologia, mas sim os que alinham
processos, pessoas e indicadores. Quando essa conexão acontece, a tecnologia deixa
de ser um mero repositório de dados e passa a se tornar um instrumento ativo de
gestão.
Entretanto,
nenhuma ferramenta corrige uma cultura desalinhada. O papel central
do líder é cuidar de pessoas, atuar como o guardião da cultura intencional da
empresa e exemplificar como ela deve ser aplicada no dia a dia. A importância
dessa atuação pode ser comprovada com uma pesquisa cruzada da McKinsey e
Gallup, apontando que a influência do líder direto responde por até 70% da
variação no engajamento dos funcionários.
O custo de
negligenciar esse equilíbrio é a perda gradual de competitividade, refletida em
margens menores, menor produtividade, decisões inconsistentes e perda de espaço
no mercado. No futuro próximo, o diferencial não estará na quantidade de dados
disponíveis, e sim na capacidade de criar clareza e transformar conhecimento em
ação — ou seja, não vencerá quem tiver mais dados, mas quem souber decidir
melhor.
Durante
anos, o desafio das empresas foi obter informações. Hoje, o obstáculo é muito
maior: separar sinal de ruído. Nunca tivemos tantos dados disponíveis e,
paradoxalmente, tantas dificuldades para decidir. A tecnologia continuará evoluindo,
mas a vantagem competitiva seguirá pertencendo às organizações que conseguirem
unir dados, liderança e cultura em torno de uma visão clara de negócio.
Marco Vonzodas - Co-CEO da Okser.
Okser
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