Obesidade
infantil, sono insuficiente, sedentarismo e alimentação inadequada podem elevar
o risco de diabetes e doenças cardiovasculares décadas depois
Uma em cada dez crianças e adolescentes de 5 a 19
anos vivia com obesidade no mundo em 2025, o equivalente a 188 milhões de
pessoas, segundo relatório do UNICEF. No Brasil, a prevalência nessa faixa
etária triplicou de 5% em 2000 para 15% em 2022.
Lucas Rezende, médico
da ARC Health Place,
clínica de São Paulo especializada em medicina preventiva, saúde metabólica e
emagrecimento, afirma que o cuidado durante os primeiros anos precisa ir além
da ausência de doenças. Alimentação, sono, atividade física, saúde emocional,
crescimento e acompanhamento médico fazem parte de uma combinação que ajuda a
construir a saúde metabólica do adulto.
“Cuidar da saúde na infância significa observar
fatores que podem acompanhar aquela pessoa por décadas. Muitas doenças crônicas
diagnosticadas aos 40 ou 50 anos não surgem de uma hora para outra. Elas podem
ser resultado de alterações e hábitos acumulados ao longo da vida”, afirma o
médico.
A obesidade infantil é um dos sinais mais claros
dessa relação. De acordo com o UNICEF, 36% das crianças e adolescentes
brasileiros de 5 a 19 anos estavam com sobrepeso em 2022, o dobro dos 18%
registrados em 2000. A entidade associa o excesso de peso nessa fase a um risco
maior de resistência à insulina, hipertensão, diabetes tipo 2 e doenças
cardiovasculares no futuro.
O risco começa antes dos
sintomas
Para o especialista em medicina preventiva e saúde
metabólica, identificar um fator de risco na infância não significa prever que
uma doença necessariamente aparecerá na vida adulta. A importância está
justamente na possibilidade de agir antes que determinadas alterações
permaneçam por anos no organismo.
Um estudo com 103.232 pessoas publicado no JAMA
Pediatrics reforça essa possibilidade. Os pesquisadores observaram que
indivíduos com excesso de peso na infância que chegaram à vida adulta jovem com
peso dentro da faixa considerada adequada apresentaram risco de doença
coronariana semelhante ao daqueles que não tiveram excesso de peso nos dois
períodos. Já a manutenção da alteração até a juventude esteve associada a maior
risco cardiovascular.
“A saúde na infância não é uma sentença sobre o
futuro. É uma janela importante para identificar riscos, corrigir hábitos e
reduzir o tempo de exposição do organismo a fatores que podem comprometer a
saúde metabólica”, ressalta Rezende.
Além do peso, outros elementos entram nessa
avaliação. O sono infantil participa de processos ligados à regulação hormonal,
ao crescimento e ao metabolismo. A atividade física contribui para o
desenvolvimento muscular e cardiovascular, enquanto a alimentação influencia a
composição corporal, metabolismo e a formação de comportamentos que podem
permanecer por muitos anos.
O histórico familiar também precisa ser
considerado. Crianças com antecedentes de obesidade, diabetes, hipertensão ou
doenças cardiovasculares na família podem exigir acompanhamento mais próximo,
sempre de acordo com a avaliação clínica e a indicação médica.
Nem todo risco vira doença
Segundo o médico, prevenção não significa antecipar
diagnósticos nem transformar crianças saudáveis em pacientes. O objetivo é
reconhecer sinais, acompanhar o desenvolvimento e agir quando houver
necessidade.
“Não se trata de pedir exames indiscriminadamente
ou medicalizar a infância. O ponto é entender o histórico da criança, acompanhar
o crescimento, observar mudanças importantes e usar exames laboratoriais quando
houver indicação. Prevenção bem feita não é excesso de intervenção”, aponta o
especialista em longevidade.
A participação da família também é determinante.
Rotina de sono, disponibilidade de alimentos, tempo destinado ao movimento e
comportamento dos próprios adultos ajudam a formar hábitos. Por isso, colocar
sobre a criança toda a responsabilidade por escolhas alimentares ou atividade
física tende a ignorar parte importante do problema.
A discussão sobre prevenção também aparece na
Campanha de Multivacinação de 2026 do Ministério da Saúde, voltada à
atualização da caderneta de crianças e adolescentes menores de 15 anos. Para
Rezende, a lógica de agir antes que uma doença apareça pode ser ampliada para o
cuidado metabólico e para os hábitos que acompanham o indivíduo ao longo da
vida.
A longevidade começa cedo
A relação entre infância e envelhecimento saudável
também muda a forma como a longevidade costuma ser discutida. Em vez de olhar
apenas para pessoas a partir dos 50 ou 60 anos, o médico defende que parte
dessa trajetória começa muito antes.
“Quando se fala em longevidade, muita gente pensa
apenas na velhice. Mas a saúde na infância ajuda a formar a base sobre a qual
esse adulto vai envelhecer. Sono, alimentação, atividade física, saúde
emocional e acompanhamento adequado podem fazer diferença na forma como essa
pessoa chegará às décadas seguintes”, destaca Lucas Rezende.
Para o especialista, a principal mudança está em
compreender que a prevenção não começa quando o primeiro exame se altera. Ela
começa na construção de hábitos, no acompanhamento do desenvolvimento e na
identificação precoce dos fatores capazes de modificar a saúde ao longo dos
anos.
Lucas Rezende - médico (CRMSP 181835), com atuação em nutrologia, medicina preventiva, saúde metabólica. Desenvolveu sua prática clínica voltada à identificação precoce de fatores de risco para doenças crônicas, defendendo uma medicina que prioriza a prevenção, o diagnóstico antecipado e a promoção da saúde antes do surgimento dos sintomas. Sua atuação integra medicina baseada em evidências, avaliação clínica aprofundada, exames laboratoriais e mudanças no estilo de vida para construir estratégias individualizadas de cuidado. Ao longo da carreira, consolidou seu trabalho em temas como envelhecimento saudável, saúde metabólica, obesidade, composição corporal, saúde hormonal e medicina do estilo de vida, defendendo uma mudança de paradigma no cuidado com a saúde, com foco em preservar a qualidade de vida e ampliar a longevidade da população.
Para mais informações, acesse o site, Instagram, youtube ou Linkedln.
ARC Health Place
Instagram: @arc.healthplace
Fontes de Pesquisa
UNICEF Brasil
https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/pela-primeira-vez-obesidade-supera-desnutricao-globalmente-entre-criancas-e-adolescentes-em-idade-escolar
JAMA Pediatrics
https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/fullarticle/2841559
Ministério da Saúde
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias-ms/2026/agosto/ministerio-da-saude-reforca-vacinacao-de-criancas-e-adolescentes-em-sao-paulo
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