Na campanha Setembro Dourado, sobre câncer infantojuvenil, a Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) chama a atenção para os benefícios da protonterapia, modalidade de radioterapia que utiliza prótons, em vez dos fótons empregados nos tratamentos convencionais. Técnica permite reduzir a dose de radiação recebida por tecidos saudáveis. Já utilizada em diferentes países, a tecnologia pode ser especialmente importante para crianças e adolescentes. O Brasil ainda não oferece o tratamento, mas o primeiro centro do país está em desenvolvimento no Rio de Janeiro, com previsão de iniciar os atendimentos em 2030
A
diferença da protonterapia em relação à radioterapia convencional está
principalmente na forma como a radiação deposita energia no organismo. De
acordo com a SBRT, enquanto os tratamentos convencionais utilizam fótons, como
os raios X, a protonterapia emprega partículas chamadas prótons. Quando essas
partículas atingem uma determinada profundidade, ocorre o chamado pico de
Bragg, caracterizado pela maior deposição de energia naquele ponto e por uma
queda acentuada da dose logo depois. Na prática, essa característica permite
concentrar a radiação no tumor e reduzir a quantidade que atinge tecidos
saudáveis localizados além da área tratada.
De
acordo com Michael Jenwei
Chen, radio-oncologista, membro da SBRT e coordenador médico no
GRAACC, essa possibilidade é particularmente relevante para pacientes que ainda
estão em fase de desenvolvimento. “Quando falamos de crianças fazendo
radioterapia, a protonterapia tem como objetivo não alterar, por exemplo, o
crescimento ósseo. Em tumores cerebrais, você tem uma vantagem grande, porque
são menos tecidos saudáveis expostos, o que pode evitar possíveis efeitos
colaterais no desenvolvimento cerebral e cognitivo. Pacientes que fazem prótons
evoluem com menos efeitos colaterais tardios”, explica o especialista.
O
benefício da protonterapia está principalmente na possibilidade de reduzir a
dose de radiação recebida pelos tecidos saudáveis e, consequentemente, determinados
efeitos adversos do tratamento. Isso não significa, porém, que a tecnologia
necessariamente aumente as chances de cura em comparação com outras modalidades
de radioterapia. “Os estudos não apontam nenhuma evidência de que essa
estratégia de tratamento aumente as chances de cura. Esse benefício ainda não
foi demonstrado de forma clara com o uso de prótons. O principal objetivo é
minimizar alguns possíveis efeitos colaterais, principalmente em jovens”,
completa Chen.
A
indicação também não ocorre para todos os pacientes que precisam de
radioterapia. A decisão é individualizada e leva em consideração fatores como o
tipo e a localização do tumor, a idade do paciente, a proximidade da doença com
órgãos e estruturas sensíveis e o benefício esperado com a redução da dose
nessas regiões. A protonterapia já integra sistemas públicos de saúde de países
como Inglaterra e Países
Baixos, com critérios estabelecidos para definir quais
pacientes podem receber o tratamento.
Na
Inglaterra, o NHS possui uma política específica para o uso da protonterapia em
crianças, adolescentes e adultos jovens com determinados tumores malignos e não
malignos. Nos Países Baixos, tumores pediátricos estão entre as chamadas
“indicações padrão” para a protonterapia, embora a decisão final continue sendo
individualizada. “Nos países que dispõem da técnica, a indicação depende de
identificar os pacientes que realmente podem se beneficiar do tratamento”,
resume Chen.
Radioterapia no câncer infantojuvenil
O
Brasil deve registrar 7.560
novos casos de câncer infantojuvenil por ano no triênio 2026-2028,
segundo as estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Desse total, a
estimativa é de 3.960 casos anuais entre meninos e 3.600 entre meninas. Um
estudo internacional publicado na revista científica Radiotherapy and Oncology,
que analisou 13.305 pacientes pediátricos com câncer atendidos em uma
instituição entre 2010 e 2017, mostrou que 33% receberam pelo menos um ciclo de
radioterapia. A utilização variou conforme o tipo e o estágio da doença.
Aplicado apenas como referência ao número de novos casos estimados anualmente
no Brasil, esse percentual corresponderia a cerca de 2.500 crianças e
adolescentes. O cálculo, no entanto, não representa uma estimativa da
utilização da radioterapia no país, uma vez que o estudo foi realizado em outro
contexto de assistência.
Segundo
Chen, na radioterapia indicada para crianças e adolescentes existe uma
preocupação especial com a preservação das áreas de crescimento ósseo, a
redução de possíveis sequelas e a exposição de órgãos e tecidos saudáveis, já
que alguns efeitos podem aparecer anos ou mesmo décadas depois. “Hoje as
indicações de radioterapia são muito individualizadas e criteriosas, e a combinação
com outras modalidades permite reduzir possíveis efeitos colaterais a longo
prazo”, explica.
Mesmo
sem a protonterapia disponível no Brasil, técnicas modernas utilizadas
atualmente no país, como a radioterapia
de intensidade modulada (IMRT) e a radioterapia em arco volumétrico (VMAT),
permitem distribuir a dose com maior precisão e reduzir a exposição de
estruturas saudáveis. A protonterapia acrescenta uma possibilidade diferente
justamente pelas características físicas dos prótons e pela maneira como essas
partículas depositam energia no organismo.
Entre
crianças de 0 a 14 anos, as leucemias
são o grupo de cânceres mais frequente. Entre os tumores sólidos, destacam-se
os tumores do sistema
nervoso central, incluindo meduloblastomas, ependimomas e alguns
tumores do tronco cerebral. Também estão entre os principais tipos de câncer
diagnosticados na infância os linfomas,
o tumor de Wilms,
que afeta os rins, os sarcomas
de partes moles, o neuroblastoma
e o retinoblastoma,
tumor ocular raro que costuma surgir nos primeiros anos de vida e ganhou maior
visibilidade no Brasil após o diagnóstico de Lua, filha dos jornalistas Tiago
Leifert e Daiana Garbin. Em casos selecionados de retinoblastoma, uma das
possibilidades de tratamento é a braquiterapia,
modalidade de radioterapia na qual uma fonte radioativa é posicionada
temporariamente junto ao olho, próxima ao tumor, permitindo concentrar a
radiação na área a ser tratada e reduzir a exposição dos tecidos ao redor.
De acordo com Michael Chen, um dos grandes desafios no enfrentamento do câncer infantojuvenil é chegar mais rapidamente ao diagnóstico. “É muito comum que as famílias procurem as unidades de atendimento e passem por inúmeras consultas até chegar ao diagnóstico. Por isso, é importante estar atento aos sinais de alerta, como nódulos persistentes no pescoço, axila ou virilha que não estejam relacionados a infecções e apresentam crescimento progressivo. Sintomas como febre sem causa aparente, perda de peso e sudorese noturna também merecem atenção, assim como dor óssea sem causa aparente e reflexo branco no olho”, finaliza.
Sociedade Brasileira de Radioterapia – SBRT

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