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sábado, 25 de julho de 2026

SOBRE ESTAR SÓ

Alguém pode estar só porque restou em algum instante desacompanhado; há quem opte por se afastar de toda a gente; é possível que alguém acabe sozinho por se haver tornado insuportável para os demais; muitos são solitários por não conseguirem vencer o medo de aproximação.

Algumas pessoas procuram companhia para preencher o vazio da sua existência. Outras o fazem por não se tolerarem a si mesmas. Suponho que há motivos para raramente alguém gostar de estar só. Não importa a razão, em geral, não suportamos estar solitários. Ficamos agoniados.

Sei que há muito palpite sobre a solidão. Altemar Dutra cantava: “Antes só do que mal acompanhado”. Não creio nisso. A se ficar só, prefere-se qualquer tipo de companhia, inclusive as más. Vinicius de Moraes foi mais sincero: “Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão”.

Desconfio que até Charles Bukowski mentia quando afirmava que gostava das pessoas, mas as preferia longe. Afinal, ele se complicou com a maioria delas, porém, gostava de ter com quem se complicar. Bukowski não era um retirado, mas um provocador. Um provocador acompanhado.

Intelectuais importantes refletiram sobre convivência: Jean-Paul Sartre dizia que o inferno são os outros (frase mal interpretada). Victor Hugo pensava que solidão é o inferno. Fico no entremeio proposto por Josh Billings: A solidão é um lugar bom de se visitar, mas não é uma boa morada.

A ciência, há algum tempo, compareceu. Juliana Vines, (FSP, 22jul14) noticiou uma pesquisa da Science sobre ficar a sós com os próprios pensamentos. “O resultado do estudo surpreendeu até o seu coordenador, o psicólogo Timothy Wilson, da Universidade da Virgínia (EUA).

Desafiadas a ficar de seis a 15 minutos sem companhia, 57% das pessoas afirmaram dificuldades para se concentrar, 89% disseram que a mente vagou e 49% não gostaram da experiência. Em outro teste, 67% dos homens e 25% das mulheres preferiram levar choques a ficar sós”.

Para Wilson, "parece que há uma dificuldade para se distrair com a própria mente”. A convivência com a tecnologia de comunicação individual denuncia um sintoma e é uma causa dessa dificuldade, restando que “hoje temos menos oportunidade para refletir e desfrutar dos nossos pensamentos".

A meu ver, esse problema acompanha a humanidade; é seu apanágio. O sucesso de todo esse aparato tecnológico não é só uma questão de oferta tentadora, mas também de uma tentação demandadora. Esses brinquedinhos e seus algoritmos serenam nossa insaciável sede de contato.

E a isso, segundo Lívia Godinho Nery Gomes (psicóloga, UFS), soma-se outro fenômeno que as mídias sociais incrementaram: a necessidade de estarmos disponíveis. “Há um apelo muito grande para estar em rede, compartilhar. Quem está de fora sente que está perdendo alguma coisa”.

Roberto N. Sá (psicólogo, UFF) pontua: "A noção de realidade, de estabilidade e segurança é construída socialmente, através das relações com os outros e das ocupações. Quando não estamos inseridos em alguma atividade há um sentimento de não realização, fragilidade e angústia".

O sociólogo português José Machado Pais abrange o relacionar-se consigo e com outras pessoas, e arremata bem: “A solidão surge quando não há capacidade de comunicação com os outros ou consigo. O estar só não significa estar em solidão se você está de bem consigo mesmo".

Estar de bem consigo mesmo. Essa é toda a questão. Mas tal só é possível se portarmos um tanto de conteúdo mental que nos proveja sentidos à existência. Se alguém for um deserto de ideias, como poderá ter afetos agradáveis consigo? Que vida interior há em um interior vazio?

Aliás, falta de conteúdos que enriqueçam o existir produz estranhos agrupamentos de solitários: ovelhas buscam suas religiões, entorpecidos acorrem aos balcões das farmácias, bêbados apostam esperança no álcool, utentes de outras drogas se empenham com traficantes.

Penso nas noites: multidões à procura de encontros. Nenhum encontro supre a incompletude humana: sós não somos suficientes; ninguém se apazigua buscando sentidos fora de si. Ou nos fazemos admiráveis por nós, ou jamais deixaremos de estar ávidos do que não encontraremos.



Léo Rosa de Andrade
Doutor em Direito pela UFSC
Psicanalista e Jornalista


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