No Dia Nacional da Amizade (20/07), especialista destaca como cultivar vínculos genuínos fortalece a saúde mental e o sentimento de pertencimento.
Um estudo da AARP
Research, realizado recentemente com quase 1.500 adultos, reforça o papel das
amizades na qualidade de vida. Segundo a pesquisa, 95% dos entrevistados
consideram os amigos essenciais para uma vida feliz e saudável. O levantamento
também mostra que, embora a maioria das pessoas continue aberta a conhecer
novos amigos, criar esses laços tende a se tornar mais desafiador com o passar
dos anos.
Para a Dra.
Mariana Ramos, professora de Psicologia da Afya Centro Universitário de
Itaperuna, a amizade atende a uma das necessidades humanas mais
fundamentais que é se sentir-se parte de um grupo. Segundo a especialista, as
pessoas são, por natureza, seres relacionais e dependem do contato com o outro
desde o nascimento não apenas para sobreviver fisicamente, mas também para
desenvolver a identidade, aprender a regular as emoções e construir a
autoestima.
As primeiras
relações, especialmente com os cuidadores, funcionam como um espelho e
influenciam a forma como cada indivíduo passa a enxergar a si mesmo e ao mundo.
"É por meio dessas experiências que começamos a responder perguntas que
nos acompanham por toda a vida, como: 'Sou importante?', 'Sou digno de amor?' e
'Posso confiar nas pessoas?'. Quando essas necessidades emocionais são
atendidas de forma consistente, desenvolvemos mais segurança para estabelecer
conexões saudáveis ao longo da vida. Quando isso não acontece, podem surgir
crenças que dificultam nossos relacionamentos", explica.
A docente ressalta
que a amizade vai muito além da companhia para sair, viajar ou conversar
ocasionalmente. "As amizades verdadeiras são espaços de segurança
emocional. São relações em que podemos celebrar conquistas sem receio de
despertar inveja, dividir dificuldades sem medo de julgamentos e demonstrar
fragilidade sem sentir vergonha. Um bom amigo não elimina nossos problemas, mas
torna o peso deles mais suportável."
Dra. Mariana
destaca ainda que estar sem amigos não significa, necessariamente, estar
sozinho. Muitas pessoas convivem diariamente com colegas de trabalho,
familiares ou centenas de contatos nas redes sociais e, mesmo assim,
experimentam uma profunda sensação de vazio. "Uma das maiores ilusões da
vida moderna é acreditar que quantidade representa qualidade. É possível estar
cercado de pessoas e, ainda assim, sentir-se profundamente sozinho quando
faltam relações construídas com confiança, respeito e reciprocidade. A sensação
de fazer parte nasce da qualidade dessas conexões. Pertencemos aos lugares e às
pessoas onde somos aceitos, respeitados e acolhidos exatamente como
somos."
Solidão
x solitude
Embora os termos
sejam frequentemente confundidos, existe uma diferença importante entre estar
sozinho e sentir-se sozinho. Enquanto a solidão costuma estar associada ao
sofrimento provocado pela ausência de conexões afetivas significativas e pela
sensação de isolamento, a solitude representa a capacidade de aproveitar a
própria companhia de forma saudável e voluntária.
"Estar
sozinho por escolha pode ser extremamente positivo para o autoconhecimento e o
equilíbrio emocional. A solitude é um momento de encontro consigo mesmo, que
favorece a criatividade, a autorreflexão e a regulação das emoções. Já a
solidão surge quando existe o desejo de se conectar, mas a pessoa sente que não
consegue estabelecer relações que ofereçam apoio, compreensão e segurança
emocional. Quem aprende a conviver bem consigo tende a desenvolver
relacionamentos mais saudáveis, pois deixa de atribuir ao outro a
responsabilidade exclusiva por preencher seus vazios emocionais", explica
a psicóloga.
Amizades
virtuais na era da hiperconectividade
Embora a
tecnologia facilite encontros e amplie as possibilidades de interação, ela também
evidencia que o número de contatos não é sinônimo de relações significativas.
Dados do Digital Wellness Lab, do Boston Children's Hospital, divulgados no
relatório Pulse Survey: Belonging (2025), mostram que 50% dos
adolescentes afirmam ter amigos próximos que conheceram exclusivamente pela
internet e nunca encontraram pessoalmente. Além disso, 71% dizem ter
desenvolvido amizades significativas em ambientes virtuais, enquanto 67%
consideram esses amigos tão importantes quanto os presenciais.
Segundo a
especialista, as amizades iniciadas no ambiente digital podem ser tão
relevantes quanto as presenciais quando são construídas com confiança,
respeito, apoio mútuo e disponibilidade emocional. Para ela, a internet ampliou
as possibilidades de encontro e aproxima pessoas com interesses em comum,
especialmente aquelas que enfrentam dificuldades para socializar
presencialmente. "As redes sociais podem, sim, favorecer a construção de
amizades genuínas. Muitas pessoas encontram apoio, identificação e até relacionamentos
importantes por meio da internet. No entanto, a tecnologia, por si só, não
substitui elementos essenciais de um vínculo saudável, como presença,
reciprocidade, confiança e disponibilidade emocional. Mais importante do que o
lugar onde uma amizade começa é a qualidade da conexão construída. Nenhum
algoritmo é capaz de substituir o conforto de alguém que verdadeiramente nos
escuta ", enfatiza.
Por
que algumas pessoas têm dificuldade para fazer amigos?
Diversos fatores
emocionais e psicológicos podem dificultar a construção de amizades, como baixa
autoestima, medo da rejeição, ansiedade social, traumas, experiências de
abandono, excesso de autocrítica e dificuldade para confiar nas pessoas.
Mudanças na rotina, como trabalho remoto, jornadas extensas, mudança de cidade,
maternidade, envelhecimento e o uso excessivo das redes sociais, também reduzem
as oportunidades de convivência e de criação de novos laços.
Segundo Mariana
Ramos, professora de Psicologia da Afya Centro Universitário de Itaperuna,
muitas pessoas acreditam que simplesmente não nasceram para fazer amigos,
quando, na realidade, carregam experiências que afetam a forma como se
relacionam. "Essa é uma frase que escuto com frequência no consultório:
'Eu simplesmente não nasci para fazer amigos'. Na maioria das vezes, porém, ela
não descreve uma realidade. Ela revela uma história marcada por rejeições,
críticas, bullying ou relações que ensinaram a pessoa a acreditar que não era
suficientemente boa. Quando essas barreiras emocionais são compreendidas e
trabalhadas, muitos pacientes descobrem que nunca lhes faltou capacidade para
construir amizades. O que lhes faltava era segurança para acreditar que eram
dignos de serem aceitos", comenta.
A psicóloga
destaca que essas dificuldades costumam alimentar um ciclo de isolamento.
"Quanto mais alguém evita interações por medo da rejeição ou por acreditar
que não corresponderá às expectativas dos outros, menores se tornam as
oportunidades de criar novas amizades. Com o tempo, esse isolamento reforça
sentimentos de inadequação e intensifica o sofrimento emocional."
A falta de uma
rede de apoio também pode tornar os desafios cotidianos mais difíceis. Segundo
a especialista, relações interpessoais saudáveis ajudam a reduzir os impactos
do estresse, fortalecem a resiliência e protegem a saúde mental. "Os
amigos funcionam como uma rede de suporte emocional. Eles não resolvem os
nossos problemas, mas ajudam a diminuir o peso que eles exercem sobre quem atravessa
uma situação difícil. Sentir-se ouvido, compreendido e acolhido transforma a
maneira como enfrentamos as adversidades", afirma.
A
terapia pode ajudar?
Para quem encontra
dificuldades para criar ou manter amizades, a psicoterapia pode ser uma
importante aliada. O processo terapêutico oferece um espaço seguro para
compreender a origem dos medos, identificar crenças que interferem na forma de
se relacionar e desenvolver maneiras mais saudáveis de interpretar as relações.
Além disso, contribui para fortalecer habilidades sociais, ampliar a
consciência emocional e aumentar a segurança na construção de novos vínculos.
"Na Terapia Cognitivo-Comportamental, por exemplo, identificamos pensamentos automáticos que alimentam sentimentos de rejeição, inadequação e insegurança. A partir desse trabalho, a pessoa aprende a interpretar as relações de maneira mais saudável e desenvolve recursos para lidar com o medo da rejeição. Muitas vezes, ela acredita que simplesmente 'não nasceu' para fazer amigos, quando, na verdade, enfrenta barreiras emocionais que podem ser compreendidas e superadas. O objetivo da terapia não é transformar alguém em uma pessoa extremamente sociável, mas ajudá-la a construir vínculos verdadeiros, respeitando sua personalidade, seu ritmo e seus limites", explica Dra. Mariana.
A especialista ressalta que desenvolver boas amizades também exige disponibilidade e investimento contínuo. "Assim como qualquer relacionamento importante, a amizade precisa de cuidado, presença e reciprocidade. Pequenos gestos, conversas sinceras e demonstrações genuínas de interesse fortalecem a confiança e contribuem para uma vida emocional mais saudável", conclui.
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