Especialista explica por que os efeitos dessas medicações não atingem diretamente os dentes, mas alteram mecanismos naturais de proteção da boca e reforçam a importância do acompanhamento odontológico
O uso de medicamentos à base de agonistas do receptor
GLP-1, indicados principalmente para o tratamento do diabetes tipo 2 e da
obesidade, mas conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, tem
ampliado uma discussão que vai além do controle metabólico e da perda de peso:
os impactos indiretos na saúde bucal. Segundo a professora da Pós-graduação de
Odontologia do Senac São Paulo, Maristela Maia Lobo, embora esses medicamentos
não atuem diretamente sobre os dentes, eles podem desencadear alterações no
organismo que afetam o equilíbrio da cavidade oral.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o diabetes é
uma das principais doenças crônicas do mundo e está associado a uma série de complicações
sistêmicas, incluindo impactos na saúde bucal. Nesse contexto, pacientes com a
condição já apresentam maior predisposição a problemas como doenças gengivais e
alterações na produção de saliva, o que torna ainda mais relevante o
acompanhamento odontológico durante qualquer mudança no tratamento metabólico.
No caso dos medicamentos à base de GLP-1, especialistas explicam
que efeitos como redução do fluxo salivar, episódios de refluxo, náuseas e
vômitos podem comprometer mecanismos naturais de proteção da boca. Na prática,
isso pode aumentar o risco de cáries, erosão do esmalte dentário, sensibilidade
e inflamações gengivais. Embora o fenômeno tenha ganhado popularidade nas redes
sociais sob o nome de “Boca de Ozempic”, o termo não corresponde a um
diagnóstico clínico reconhecido.
“Não existe uma condição clínica chamada ‘Boca de Ozempic’. O que
observamos é que essas medicações podem desencadear alterações que reduzem o
fluxo salivar (xerostomia) e favorecem sintomas como alterações no paladar e
halitose (o mau hálito). Além disso, episódios de refluxo e vômito expõem o
esmalte dentário ao ácido do estômago, aumentando o risco de erosão. Ou seja,
os efeitos não acontecem porque o medicamento agride diretamente os dentes, mas
pelas mudanças fisiológicas, metabólicas e comportamentais que ele provoca no
organismo”, explica Maristela.
A especialista destaca que a saliva tem papel essencial na
proteção da saúde bucal, atuando na neutralização de ácidos, na remineralização
do esmalte e no controle da microbiota oral. Quando esse sistema é afetado, a
boca fica mais suscetível ao desenvolvimento de doenças.
Em pessoas com diabetes, esse cenário exige atenção redobrada.
Isso porque a própria condição já está associada a maior risco de infecções
bucais e dificuldade de cicatrização, o que reforça a importância do
acompanhamento odontológico regular, além do controle glicêmico e da integração
entre diferentes áreas da saúde.
Entre os cuidados recomendados estão a hidratação frequente,
manutenção de higiene bucal adequada e atenção especial após episódios de
refluxo ou vômito. Nesses casos, a orientação é evitar a escovação imediata,
realizar enxágue com água e aguardar cerca de 30 minutos antes da escovação,
reduzindo o risco de desgaste do esmalte dentário.
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