Avanço dos medicamentos altera hábitos de consumo no país, mas compra sem receita e automedicação preocupam especialistas
O uso das chamadas canetas
emagrecedoras avançou no Brasil em 2026. Pesquisa do Instituto Locomotiva
mostra que 33% dos domicílios brasileiros já tiveram ao menos um morador que
utiliza ou utilizou medicamentos como Ozempic, Mounjaro e Wegovy, ante 26% no fim
de 2025. O tema também se popularizou, com apenas 6% da população afirmando
nunca ter ouvido falar desses medicamentos.
Embora o uso ainda seja mais comum
entre as classes de maior renda, a pesquisa indica expansão para todas as
faixas sociais. O levantamento aponta que 39% dos domicílios das classes A e B
registram usuários, enquanto o índice chega a 30% nas classes C, D e E. Além
disso, seis em cada dez brasileiros conhecem alguém que faz ou já fez uso
desses medicamentos.
"Esse crescimento é resultado da
combinação de alguns fatores. Os medicamentos passaram a apresentar resultados
consistentes na perda de peso, ganharam ampla exposição nas redes sociais e na
mídia, tiveram novas indicações aprovadas e se tornaram mais conhecidos pela
população. Isso fez com que muitas pessoas passassem a enxergá-los como uma
solução rápida para o emagrecimento”, explicar o médico gastroenterologista e
cirurgião geral Mauro Lúcio Jácome. O especialista ainda discute uma
preocupação. É que essa popularização veio acompanhada da banalização do
tratamento.
“O tratamento da obesidade não se
resume à aplicação de uma medicação. Cada paciente precisa ser avaliado quanto
ao seu estado de saúde, às contraindicações, à dose adequada e à necessidade de
acompanhamento nutricional e de atividade física. Quando cerca de quatro em
cada dez usuários conseguem o medicamento sem receita, estamos diante de um
problema de saúde pública, porque o uso indiscriminado aumenta o risco de
complicações e compromete a eficácia do tratamento”, completa o especialista.
O estudo também revela mudanças
significativas nos hábitos de consumo. Em 95% dos domicílios com usuários,
houve redução na compra de pelo menos uma categoria de alimentos ou bebidas. As
maiores quedas ocorreram no consumo de doces e salgadinhos, bebidas açucaradas,
massas, bebidas alcoólicas e alimentos ultraprocessados. Também foi registrada
diminuição na frequência de idas a restaurantes, pedidos de delivery e consumo
de fast food.
Apesar da elevada aprovação entre os
usuários, o preço ainda representa a principal barreira ao acesso. A pesquisa
mostra que 78% recomendariam o medicamento a familiares, mas cerca de 40%
afirmam ter adquirido o produto sem receita médica, pela internet ou no
exterior, evidenciando o crescimento do mercado informal. Segundo o Instituto
Locomotiva, uma eventual redução de preços ou quebra de patentes pode ampliar
ainda mais o uso desses medicamentos no país.
“Muito além do preço, é preciso avaliar
quem realmente tem indicação, ajustar doses, monitorar efeitos colaterais e
associar a medicação a mudanças no estilo de vida. Caso contrário, aumenta o
risco de complicações e de resultados insatisfatórios a longo prazo. Sem falar
que estamos falando de saúde, de vida. É muito importante ser responsável com
isto”, finaliza Dr. Mauro.
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