Crianças que enfrentam infecções de repetição seguidas no mesmo ano entram em um ciclo perigoso de medicações pesadas devido a bloqueios estruturais; a médica Dra. Loyane Brozon mostra quando a recorrência deixa de ser uma baixa de imunidade comum e exige cirurgia.
Quem tem criança em casa sabe que a
cena se repete quase como um roteiro, basta o tempo mudar para a garganta
inflamar, a febre subir e a corrida ao pronto-socorro começar. O problema é
quando esse ciclo vira uma rotina massacrante. Entrar e sair de consultórios
levando mais uma receita de antibiótico pesado para casa se tornou o cotidiano
de muitas famílias. Mas o que poucos pais sabem é que esse vai e vem de
infecções pode não ter nada a ver com imunidade baixa, e o excesso de remédios
pode estar camuflando um problema físico real.
O uso repetitivo de antibióticos em
intervalos curtos é um perigo silencioso. Além de sobrecarregar o organismo em
crescimento e agredir a flora intestinal, essa prática contribui para o aumento
da resistência bacteriana, ou seja, o remédio vai deixando de fazer efeito.
Quando a criança não consegue passar dois ou três meses sem precisar de uma
nova dose, a medicina acende um alerta vermelho: o foco precisa sair do alívio
imediato dos sintomas e ir direto para a anatomia da garganta.
A Dra. Loyane Bronzon,
otorrinolaringologista especialista em ronco, apneia e no atendimento infantil,
explica que existe uma conta exata para saber quando a situação passou dos
limites seguros. "O sinal de alerta definitivo é quando a criança enfrenta
sete ou mais infecções de garganta em um único ano, ou uma média de cinco
episódios por ano durante dois anos seguidos. Nessas condições, quase sempre
estamos lidando com amígdalas e adenoides grandes demais, que funcionam como
uma espécie de 'esconderijo' para as bactérias, impedindo que o corpo se cure
de verdade", esclarece.
Esse aumento anatômico, que muita gente
conhece como carne esponjosa, transforma a respiração em um trabalho hercúleo.
Para conseguir o ar que falta, o pequeno passa a respirar o tempo todo pela
boca. É aí que o problema silenciosamente transborda para outras áreas do desenvolvimento,
afetando desde o formato da arcada dentária até a qualidade do sono, que é o
momento mais importante para o crescimento infantil.
As noites mal dormidas por conta desse
bloqueio na garganta cobram um preço alto durante o dia, muitas vezes confundindo
os pais e até os professores. "O ronco e as pausas na respiração durante a
noite quebram o ciclo do sono. Como o cérebro da criança não oxigena direito e
ela não descansa, o reflexo no dia seguinte é o oposto do adulto, em vez de
moleza, ela apresenta uma hiperatividade difícil de controlar, irritabilidade e
falta de concentração nas aulas", ressalta a médica.
Chega um momento em que insistir em
mais uma caixa de remédio deixa de ser um cuidado e passa a ser um risco.
Quando as medicações perdem o sentido e a qualidade de vida da criança vai
embora, a cirurgia para a retirada das amígdalas e da adenoide deixa de ser um
tabu. Longe de ser um procedimento extremo, a intervenção surge como o caminho
mais seguro e definitivo para quebrar o ciclo da farmácia e devolver ao pequeno
o direito de respirar, dormir e crescer com saúde.
Fonte: Dra. Loyane Bronzon — Médica Otorrinolaringologista | Especialista em ronco, apneia do sono e otorrinolaringologia infantil
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