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| IMAGEM: Karime Xavier Folhapress |
Levantamento da Febrafar aponta que 65% dos pacientes param de comprar medicamento pelo alto custo. Associação Médica Brasileira aprova eficácia, mas sinaliza cuidados para quem receita e comercializa
Medicamentos da classe GLP-1,
conhecidos popularmente como "canetas emagrecedoras", consolidaram-se
como eficazes no tratamento de diabetes tipo 2, obesidade e diversas doenças
cardiometabólicas. Porém, apesar dos benefícios clínicos reconhecidos pelos médicos,
o alto custo ainda limita o acesso e a continuidade do tratamento para grande
parte dos pacientes brasileiros. E não há previsão para que o SUS os inclua na
distribuição de alto custo.
Pesquisa nacional realizada por um braço da Febrafar (Federação Brasileira das
Redes Associativas e Independentes de Farmácias), o Instituto IFEPEC, com 1.067
médicos de diferentes especialidades e regiões do país, em maio último, mostra
que o preço inviabiliza o tratamento para 28% dos pacientes considerados aptos
ao uso. Além disso, 65% dos pacientes abandonam o tratamento ou não conseguem
manter a posologia indicada pelo mesmo motivo.
Comportamento semelhante
aparece em recente levantamento NielsenQ/ABAD (Associação Brasileira de
Atacadistas e Distribuidores de Produtos Industrializados) sobre consumo
saudável, publicado aqui pelo Diário do Comércio. Cerca de 45% dos consumidores brasileiros têm uma percepção positiva
sobre esses medicamentos e 58% estão dispostos a gastar até R$ 500 por mês pelo
produto. Entre as principais barreiras para a adoção estão o alto preço (citado
por 10% dos entrevistados) e o receio de efeitos colaterais (62%).
Já a pesquisa da Febrafar
também identificou um fenômeno que preocupa profissionais de saúde. Em média,
7% dos pacientes relatam já ter utilizado medicamentos GLP-1 sem prescrição
médica antes da primeira consulta. O dado alerta para a comercialização
irregular desses produtos e reforça a importância de combater canais
clandestinos de venda, um risco para a saúde dos pacientes.
Para Edison Tamascia,
presidente da Febrafar e da Farmarcas, as farmácias legalmente estabelecidas
cumprem a legislação e têm papel fundamental na promoção do uso racional dos
medicamentos. "Quando um paciente procura o produto sem receita, a
orientação correta é encaminhá-lo para avaliação médica. O combate à
comercialização irregular desses medicamentos é fundamental para proteger a
saúde da população. O lugar desses tratamentos é dentro do canal farmacêutico
regular, com dispensação responsável e acompanhamento profissional",
afirma.
Para ele, o farmacêutico é um
importante elo entre o médico e o paciente, cuja atuação contribui para
aumentar segurança, adesão ao tratamento e resultados terapêuticos.
Outro destaque da pesquisa é o
elevado grau de expectativa dos médicos em relação à chegada de biossimilares,
genéricos e similares de GLP-1, impulsionada pelo vencimento de patentes e pela
perspectiva de ampliação da concorrência no setor. A maioria dos profissionais
pretende incorporar essas novas alternativas à prática clínica, desde que
apresentem comprovação de qualidade, segurança e eficácia.
A ampliação da oferta tende a representar um marco para o mercado farmacêutico
brasileiro. "A expectativa é que a entrada de novos concorrentes contribua
para reduzir gradualmente os preços praticados atualmente. Embora os
medicamentos genéricos ainda não devam chegar ao mercado no curto prazo, o
aumento da oferta tende a favorecer o acesso e melhorar os índices de adesão ao
tratamento. Quanto maior a concorrência, maior a possibilidade de tornar essa
terapia acessível para uma parcela mais ampla da população", afirma Tamascia.
De médico
para farmacêutico - O presidente da AMB (Associação
Médica Brasileira), César Eduardo Fernandes, divide a responsabilidade entre as
partes da cadeia de consumo. "Farmácias idôneas e médicos só devem
comercializar e indicar, respectivamente, medicamentos com selo de segurança da
Anvisa."
O médico ressalta que essas
medicações seguras são comprovadamente eficazes para controlar obesidade, que é
uma doença crônica, porém adiciona riscos de outras, como câncer, diabetes,
infarto e AVC. "Vai muito além da estética", afirma.
Incorporação no SUS - Até o momento, nenhum medicamento da classe
dos agonistas (moléculas modificadas) do GLP-1 foi incorporado ao SUS para o
tratamento da obesidade. Semaglutida e liraglutida possuem registro para diabetes
tipo 2, mas pedidos de incorporação já foram avaliados pela Conitec (Comissão
Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS), órgão do Ministério da Saúde
responsável por analisar e recomendar a inclusão de medicamentos, produtos e
procedimentos no sistema público.
As avaliações não foram
aprovadas devido ao alto custo e ao impacto orçamentário. O preço mensal desses
tratamentos na rede privada varia entre R$ 800 e R$ 2 mil, o que torna inviável
a oferta ampla no sistema público sem avaliação rigorosa de custo-efetividade.
O monitoramento ativo de eventos adversos conduzido pela Anvisa também deve
subsidiar futuras decisões da Conitec sobre a eventual incorporação desses
fármacos no SUS.
Melina Dias
https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/comercio-de-canetas-emagrecedoras-veio-para-ficar-mas-exige-etica-na-cadeia-de-consumo

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