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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Copa do Mundo e Neurodiversidade: o desafio da inclusão além do camp

Entender o funcionamento cerebral permite que a festa do futebol seja para todos

 

A prevalência do autismo atinge cerca de 1% da população mundial, enquanto o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) afeta entre 5% e 8% dos adultos globalmente. Durante a Copa do Mundo, arenas e praças frequentemente ignoram cérebros que processam o mundo de forma atípica.

Dr. Matheus Trilico, neurologista referência em TEA e TDAH adulto, afirma que a inclusão exige compreensão neurobiológica e adaptação ambiental. A falta de preparo dos espaços públicos gera barreiras que impedem a participação plena desses indivíduos em eventos de grande porte.


O impacto das alterações sensoriais no ambiente esportivo

A festa do futebol gera alta intensidade sonora e visual. O barulho de vuvuzelas e multidões causa euforia em muitos, mas impõe obstáculos para pessoas neurodivergentes. O neurologista explica que o evento demanda acessibilidade para evitar que o prazer de torcer se transforme em sofrimento por alterações sensoriais. “O processamento sobrecarregado resulta em desconforto real e desregulação emocional, o que invalida a experiência festiva para uma parcela significativa da população”, ressalta Dr Matheus.


A Coexistência Neurobiológica e o Conceito de AuTDAH

A medicina reconhece que a coexistência entre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é uma realidade frequente e cientificamente validada. Estudos indicam que até 70% das pessoas autistas apresentam sintomas clinicamente significativos de TDAH. Essa sobreposição não é meramente uma soma de diagnósticos isolados, mas uma configuração neurológica única que cria demandas contraditórias no processamento de informações e na regulação emocional.

Embora não figurem como nomenclatura diagnóstica oficial nos manuais técnicos, os termos AuDHD (do inglês Autism + ADHD) ou AuTDAH, em português, foram cunhados pela própria comunidade neurodivergente. Essa terminologia surgiu porque a classificação clínica isolada frequentemente não captura a experiência vivida de quem navega simultaneamente pelas características de ambos os transtornos. O uso desses termos reflete a busca por identidade e compreensão de uma realidade neurobiológica que a medicina ainda está aprendendo a nomear adequadamente.

Segundo Dr. Trilico, essa combinação gera conflitos internos severos, especialmente em ambientes de alta estimulação. O traço autista busca rotina, previsibilidade e controle sensorial, enquanto o TDAH demanda novidade, movimento e estimulação constante. Esses dois sistemas neurológicos funcionam em direções opostas. “Durante a Copa do Mundo, o torcedor que vivencia o AuTDAH enfrenta um dilema neurobiológico: a necessidade de foco na partida colide frontalmente com alterações sensoriais bruscas — o estouro de fogos, gritos súbitos da torcida, mudanças abruptas de iluminação. O resultado é uma desregulação severa que pode invalidar completamente a experiência do evento”, explica o médico.


Evidências científicas sobre dificuldades sensoriais

Pesquisas indicam que a maioria das pessoas autistas relata experiências sensoriais atípicas, particularmente hipersensibilidade a ruídos intensos e luzes piscantes. Sons acima de 85 decibéis em estádios e bares causam dor física. O silêncio de um pênalti seguido pelo grito explosivo de um gol gera um choque no sistema nervoso. Luzes piscantes e multidões densas elevam os níveis de cortisol e ansiedade, resultando em prejuízo funcional imediato. O neurologista reforça que esses estímulos funcionam como barreiras físicas para o cérebro neurodivergente.


O custo do masking para a saúde mental do adulto

Adultos neurodivergentes utilizam o masking para simular comportamentos neurotípicos e evitar estigmas sociais. O médico alerta que essa camuflagem esconde o sofrimento, mas cobra um preço alto. O esforço contínuo para parecer sociável durante um jogo resulta em esgotamento autista (burnout), depressão e ansiedade crônica. “Fingir que as alterações sensoriais não existem gera uma exaustão profunda que pode durar dias após o encerramento do evento”, alerta o neurologista.


Estratégias práticas de redução de danos

O Dr. Matheus Trilico recomenda ações concretas para quem deseja frequentar estádios ou eventos públicos com maior segurança e conforto:

  1. Use fones com cancelamento de ruído para filtrar frequências dolorosas sem isolar completamente o ambiente.
  2. Identifique zonas de descompressão, como áreas silenciosas ou menos movimentadas, para pausas rápidas.
  3. Estabeleça sinais combinados com acompanhantes para indicar o limite sensorial e facilitar uma saída estratégica.
  4. Planeje pausas de dez minutos a cada hora para auxiliar na autorregulação antes que a sobrecarga ocorra.

 

Validação de formas alternativas de torcer

A inclusão verdadeira valida formas distintas de engajamento com o esporte. Assistir aos jogos em casa garante controle total sobre volume, iluminação e texturas. O foco analítico em estatísticas e mapas de calor oferece estimulação intelectual prazerosa sem o caos sensorial das multidões. Comunidades digitais permitem a conexão social com a segurança do distanciamento físico. Conforme aponta o neurologista, não existe uma forma única ou correta de ser torcedor.

 

Conclusão e respeito à diversidade neurológica

“A Copa do Mundo de 2026 deve marcar a evolução da empatia coletiva. Respeitar diferentes formas de torcer define uma sociedade civilizada. O cérebro neurodivergente representa uma variação natural da biologia humana, não um defeito a ser corrigido”, enfatiza o neurologista. Trilico reforça ainda que a inclusão começa no reconhecimento dessa diversidade. Para ele, as peças se encaixam quando a pessoa entende como seu cérebro funciona. 



Dr. Matheus Luis Castelan Trilico — CRM 35805/PR | RQE 24818 - Médico formado pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA); Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR); Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR; Pós-graduado em Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mais conteúdos sobre TEA e TDAH em adultos estão disponíveis no portal do especialista:

Mais artigos sobre TEA e TDAH em adultos podem ser vistos no portal do neurologista: https://blog.matheustriliconeurologia.com.br/



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