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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Doença falciforme atinge milhares de brasileiros e exige cuidados contínuos para evitar complicações

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No Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença Falciforme (19.06), especialistas explicam a condição, sua ligação com a nutrição e listam fatos que muitas desconhecem a respeito da mesma

 

Embora seja frequentemente associada apenas à anemia, a doença falciforme é uma condição genética complexa que pode comprometer diversos órgãos e impactar significativamente a qualidade de vida dos pacientes. Considerada a doença genética hereditária mais prevalente do Brasil, segundo o Ministério da saúde, estima-se que mais de 60 mil brasileiros convivam com a condição e cerca de 2 milhões possuam o traço falciforme. Vale salientar, ainda, que ela afeta milhares de pessoas e demanda acompanhamento médico contínuo, além de cuidados nutricionais e multiprofissionais ao longo da vida.

 

A doença ocorre devido a uma alteração genética na hemoglobina, proteína responsável por transportar oxigênio pelo organismo. Como consequência, os glóbulos vermelhos passam a assumir um formato semelhante ao de uma foice, tornando-se rígidos e menos flexíveis, o que dificulta sua circulação pelos vasos sanguíneos.

 

Segundo o Dr. Marco Túlio Dias, médico hematologista e docente da Afya São João del-Rei, essa característica é responsável por uma série de complicações que vão muito além da anemia. “A doença falciforme é uma doença sistêmica que se origina em uma alteração do sangue, mas suas consequências se espalham por praticamente todos os órgãos do corpo. Os glóbulos vermelhos deformados podem obstruir pequenos vasos sanguíneos, interrompendo o fluxo de sangue e provocando as chamadas crises vaso-oclusivas, que estão entre as manifestações mais dolorosas da doença”, explica.

 

O diagnóstico definitivo é realizado por meio da eletroforese de hemoglobina, exame capaz de identificar o tipo de hemoglobina presente no sangue. No Brasil, a doença também pode ser detectada logo nos primeiros dias de vida por meio do Teste do Pezinho, incluído no Programa Nacional de Triagem Neonatal. “Quanto mais cedo ocorre o diagnóstico, mais rapidamente é possível iniciar o acompanhamento e a prevenção das complicações. Ainda existem pessoas que desconhecem ter o traço falciforme, condição que não causa sintomas, mas pode ser transmitida aos filhos dependendo da combinação genética dos pais”, destaca o especialista.

 

A doença falciforme pode provocar alterações em diferentes sistemas do organismo. Entre as complicações mais graves estão os acidentes vasculares cerebrais (AVCs), que podem ocorrer inclusive em crianças. “O cérebro pode ser afetado por AVCs isquêmicos ainda na infância. Os pulmões também podem apresentar complicações importantes, enquanto os rins podem perder progressivamente sua função. Além disso, o coração trabalha constantemente sobrecarregado devido à anemia crônica”, afirma Dr. Marco Túlio.

 

O especialista explica ainda que órgãos como fígado e baço também sofrem impactos ao longo dos anos. A perda gradual da função do baço, por exemplo, aumenta a vulnerabilidade a infecções, tornando a vacinação uma parte fundamental do tratamento.

 

Por afetar diferentes órgãos e sistemas, a doença falciforme exige uma abordagem integrada. Além do hematologista, podem participar do acompanhamento profissionais como neurologistas, cardiologistas, nefrologistas, pneumologistas, psicólogos, enfermeiros, dentistas, fisioterapeutas, nutricionistas e assistentes sociais. “Não existe um único profissional capaz de atender todas as demandas desses pacientes. O ideal é que o acompanhamento seja realizado em centros de referência com equipes multiprofissionais estruturadas”, ressalta o hematologista.

 

Embora o transplante de medula óssea seja uma alternativa curativa em situações específicas, a maioria dos pacientes depende de acompanhamento contínuo para prevenir crises e reduzir complicações. O uso da hidroxiureia, medicamento disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), tem papel importante na redução das crises dolorosas e da mortalidade associada à doença.


 

Alimentação tem papel importante no controle da condição

 

Além do tratamento médico, a alimentação adequada contribui para o bem-estar e para a qualidade de vida dos pacientes. Segundo o professor de Nutrição da Afya Centro Universitário Itaperuna, Renato Pereira, pessoas com doença falciforme apresentam necessidades nutricionais específicas e maior gasto energético quando comparadas à população em geral. “Esses pacientes vivem em um estado de maior demanda metabólica devido à destruição acelerada dos glóbulos vermelhos e à necessidade constante de produção de novas células sanguíneas. Isso faz com que o organismo necessite de mais energia, proteínas e diversos micronutrientes”, explica.

 

De acordo com o especialista, uma alimentação equilibrada auxilia na manutenção do estado nutricional, fortalece o sistema imunológico e contribui para o funcionamento adequado do organismo. Entre os nutrientes mais importantes para pessoas com doença falciforme estão o ácido fólico, as vitaminas do complexo B, o zinco, o magnésio, a vitamina D e vitaminas antioxidantes, como A, C e E. “O ácido fólico é fundamental porque participa diretamente da formação das hemácias. Já o zinco contribui para a imunidade, crescimento e cicatrização. O magnésio, por sua vez, tem sido estudado por seu possível papel na manutenção da hidratação das hemácias”, afirma Renato.

 

O nutricionista alerta ainda para um cuidado importante: a suplementação de ferro não deve ser feita automaticamente apenas porque o paciente apresenta anemia. “Muitos pacientes recebem transfusões ao longo da vida e podem apresentar excesso de ferro no organismo. Por isso, qualquer suplementação deve ser baseada em exames laboratoriais e orientação profissional”, explica.

 

Entre as recomendações nutricionais, também está a hidratação adequada que ocupa posição de destaque. Isso porque a desidratação favorece o aumento da viscosidade sanguínea e pode contribuir para o surgimento das crises vaso-oclusivas. “Frutas, verduras, legumes, proteínas magras, cereais integrais e uma ingestão adequada de água fazem parte das principais orientações para esses pacientes. Em períodos de calor, atividade física ou durante episódios de doença, a necessidade de líquidos pode ser ainda maior”, orienta o nutricionista.


 

Conscientização ainda é um desafio

 

Segundo o hematologista, a doença falciforme também carrega uma importante dimensão social.“Muitas pessoas ainda desconhecem a gravidade da doença. A crise dolorosa, por exemplo, frequentemente é subestimada, apesar de ser extremamente intensa e incapacitante. Falar sobre a doença falciforme é fundamental para ampliar o conhecimento da população, facilitar o diagnóstico precoce e melhorar o acesso ao tratamento adequado”, conclui.

 

4 fatos sobre a doença falciforme que muita gente desconhece 

1. Não se trata apenas de uma anemia

A doença pode afetar cérebro, pulmões, rins, coração, fígado e outros órgãos ao longo da vida.

2. O Teste do Pezinho identifica a condição logo após o nascimento

O exame permite iniciar o acompanhamento precoce e reduzir o risco de complicações graves.

3. Crianças também podem sofrer AVC em decorrência da doença

A obstrução dos vasos sanguíneos pode provocar acidentes vasculares cerebrais ainda nos primeiros anos de vida.

4. A saúde intestinal pode influenciar a evolução da doença

Estudos recentes sugerem que alterações na microbiota intestinal podem contribuir para

 

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