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Embora seja frequentemente
associada apenas à anemia, a doença falciforme é uma condição genética complexa
que pode comprometer diversos órgãos e impactar significativamente a qualidade
de vida dos pacientes. Considerada a doença genética hereditária mais
prevalente do Brasil, segundo o Ministério da saúde, estima-se que mais de 60
mil brasileiros convivam com a condição e cerca de 2 milhões possuam o traço
falciforme. Vale salientar, ainda, que ela afeta milhares de pessoas e demanda
acompanhamento médico contínuo, além de cuidados nutricionais e
multiprofissionais ao longo da vida.
A doença ocorre devido a uma
alteração genética na hemoglobina, proteína responsável por transportar
oxigênio pelo organismo. Como consequência, os glóbulos vermelhos passam a
assumir um formato semelhante ao de uma foice, tornando-se rígidos e menos
flexíveis, o que dificulta sua circulação pelos vasos sanguíneos.
Segundo o Dr. Marco Túlio
Dias, médico hematologista e docente da Afya São João del-Rei, essa
característica é responsável por uma série de complicações que vão muito além
da anemia. “A doença falciforme é uma doença sistêmica que se origina em uma
alteração do sangue, mas suas consequências se espalham por praticamente todos
os órgãos do corpo. Os glóbulos vermelhos deformados podem obstruir pequenos
vasos sanguíneos, interrompendo o fluxo de sangue e provocando as chamadas
crises vaso-oclusivas, que estão entre as manifestações mais dolorosas da
doença”, explica.
O diagnóstico definitivo é
realizado por meio da eletroforese de hemoglobina, exame capaz de identificar o
tipo de hemoglobina presente no sangue. No Brasil, a doença também pode ser
detectada logo nos primeiros dias de vida por meio do Teste do Pezinho,
incluído no Programa Nacional de Triagem Neonatal. “Quanto mais cedo ocorre o
diagnóstico, mais rapidamente é possível iniciar o acompanhamento e a prevenção
das complicações. Ainda existem pessoas que desconhecem ter o traço falciforme,
condição que não causa sintomas, mas pode ser transmitida aos filhos dependendo
da combinação genética dos pais”, destaca o especialista.
A doença falciforme pode
provocar alterações em diferentes sistemas do organismo. Entre as complicações
mais graves estão os acidentes vasculares cerebrais (AVCs), que podem ocorrer
inclusive em crianças. “O cérebro pode ser afetado por AVCs isquêmicos ainda na
infância. Os pulmões também podem apresentar complicações importantes, enquanto
os rins podem perder progressivamente sua função. Além disso, o coração
trabalha constantemente sobrecarregado devido à anemia crônica”, afirma Dr.
Marco Túlio.
O especialista explica ainda
que órgãos como fígado e baço também sofrem impactos ao longo dos anos. A perda
gradual da função do baço, por exemplo, aumenta a vulnerabilidade a infecções,
tornando a vacinação uma parte fundamental do tratamento.
Por afetar diferentes órgãos e
sistemas, a doença falciforme exige uma abordagem integrada. Além do
hematologista, podem participar do acompanhamento profissionais como
neurologistas, cardiologistas, nefrologistas, pneumologistas, psicólogos,
enfermeiros, dentistas, fisioterapeutas, nutricionistas e assistentes sociais.
“Não existe um único profissional capaz de atender todas as demandas desses
pacientes. O ideal é que o acompanhamento seja realizado em centros de
referência com equipes multiprofissionais estruturadas”, ressalta o hematologista.
Embora o transplante de medula
óssea seja uma alternativa curativa em situações específicas, a maioria dos
pacientes depende de acompanhamento contínuo para prevenir crises e reduzir
complicações. O uso da hidroxiureia, medicamento disponível no Sistema Único de
Saúde (SUS), tem papel importante na redução das crises dolorosas e da
mortalidade associada à doença.
Alimentação tem papel importante no controle da condição
Além do tratamento médico, a
alimentação adequada contribui para o bem-estar e para a qualidade de vida dos
pacientes. Segundo o professor de Nutrição da Afya Centro Universitário
Itaperuna, Renato Pereira, pessoas com doença falciforme apresentam
necessidades nutricionais específicas e maior gasto energético quando
comparadas à população em geral. “Esses pacientes vivem em um estado de maior
demanda metabólica devido à destruição acelerada dos glóbulos vermelhos e à
necessidade constante de produção de novas células sanguíneas. Isso faz com que
o organismo necessite de mais energia, proteínas e diversos micronutrientes”,
explica.
De acordo com o especialista,
uma alimentação equilibrada auxilia na manutenção do estado nutricional,
fortalece o sistema imunológico e contribui para o funcionamento adequado do
organismo. Entre os nutrientes mais importantes para pessoas com doença
falciforme estão o ácido fólico, as vitaminas do complexo B, o zinco, o
magnésio, a vitamina D e vitaminas antioxidantes, como A, C e E. “O ácido
fólico é fundamental porque participa diretamente da formação das hemácias. Já
o zinco contribui para a imunidade, crescimento e cicatrização. O magnésio, por
sua vez, tem sido estudado por seu possível papel na manutenção da hidratação
das hemácias”, afirma Renato.
O nutricionista alerta ainda
para um cuidado importante: a suplementação de ferro não deve ser feita
automaticamente apenas porque o paciente apresenta anemia. “Muitos pacientes
recebem transfusões ao longo da vida e podem apresentar excesso de ferro no
organismo. Por isso, qualquer suplementação deve ser baseada em exames
laboratoriais e orientação profissional”, explica.
Entre as recomendações
nutricionais, também está a hidratação adequada que ocupa posição de destaque.
Isso porque a desidratação favorece o aumento da viscosidade sanguínea e pode contribuir
para o surgimento das crises vaso-oclusivas. “Frutas, verduras, legumes,
proteínas magras, cereais integrais e uma ingestão adequada de água fazem parte
das principais orientações para esses pacientes. Em períodos de calor,
atividade física ou durante episódios de doença, a necessidade de líquidos pode
ser ainda maior”, orienta o nutricionista.
Conscientização ainda é um desafio
Segundo o hematologista, a
doença falciforme também carrega uma importante dimensão social.“Muitas pessoas
ainda desconhecem a gravidade da doença. A crise dolorosa, por exemplo,
frequentemente é subestimada, apesar de ser extremamente intensa e
incapacitante. Falar sobre a doença falciforme é fundamental para ampliar o
conhecimento da população, facilitar o diagnóstico precoce e melhorar o acesso
ao tratamento adequado”, conclui.
4 fatos sobre a doença falciforme que muita gente desconhece
1. Não se trata apenas de uma anemia
A doença pode afetar cérebro,
pulmões, rins, coração, fígado e outros órgãos ao longo da vida.
2. O Teste do Pezinho identifica a condição logo após
o nascimento
O exame permite iniciar o
acompanhamento precoce e reduzir o risco de complicações graves.
3. Crianças também podem sofrer AVC em decorrência
da doença
A obstrução dos vasos
sanguíneos pode provocar acidentes vasculares cerebrais ainda nos primeiros
anos de vida.
4. A saúde intestinal pode influenciar a evolução
da doença
Estudos
recentes sugerem que alterações na microbiota intestinal podem contribuir para

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