Quando milhares de pessoas se reúnem em um estádio,
em um show ou em um grande evento urbano, o que o público percebe é a
experiência. A música começa no horário, o fluxo de entrada funciona, ninguém
se sente ameaçado. Esse é o cenário ideal. E justamente por isso, quase nunca
se fala sobre o trabalho que acontece antes, durante e depois para que tudo
siga assim.
Atuo há mais de duas décadas na área de segurança
preventiva, com foco em detecção de explosivos por meio de cães de trabalho. Ao
longo desse tempo, aprendi que o sucesso da segurança não se mede por aplausos
ou visibilidade. Ele se mede pelo silêncio. Quando nada acontece, quando o
evento termina como planejado e as pessoas voltam para casa sem perceber
qualquer risco, o trabalho foi bem feito.
Existe uma ideia comum de que segurança em grandes
eventos é reação. Barreiras, revistas, policiamento ostensivo. Na prática, a
lógica é outra. Segurança é antecipação. É leitura de ambiente, análise de
comportamento e protocolos que começam muito antes do primeiro ingresso ser
validado. O que acontece no dia do evento é apenas a etapa final de um processo
longo e meticuloso.
No caso da detecção de explosivos, esse trabalho
exige ainda mais disciplina. O cão não pode agir por impulso. Ele não pode
latir, arranhar ou tocar. Ele precisa identificar um odor específico e
sinalizar de forma controlada. Esse comportamento não nasce pronto. Ele é
construído ao longo de anos de treinamento, repetição e validação constante. O
método é o que transforma instinto em previsibilidade.
Ao contrário do que muitos imaginam, não existe
improviso nesse tipo de operação. Cada ambiente é diferente, mas a resposta
precisa ser a mesma. Estádios, centros de convenções, estações de transporte e
áreas abertas exigem leitura técnica e adaptação, sem que isso comprometa o
padrão de comportamento do cão. Quando a resposta varia, o risco aumenta. Por
isso, a especialização é decisiva.
Outro ponto pouco visível para o público é o nível
de exigência envolvido. Equipes de detecção passam por testes periódicos. Não
importa o histórico ou a experiência acumulada. Se o cão ou o condutor falha, a
operação não acontece. A responsabilidade é alta demais para permitir exceções.
Nesse trabalho, confiança se constrói todos os dias e se prova o tempo todo.
Talvez o aspecto mais difícil de explicar seja o emocional.
Em grandes eventos, o fluxo de pessoas é intenso, o tempo é curto e a pressão é
constante. Ainda assim, o controle precisa ser absoluto. O cão percebe o
ambiente, mas aprende a não reagir a ele. O condutor conhece o risco, mas não
pode demonstrá-lo. A calma faz parte da técnica.
Segurança preventiva não tem narrativa heroica. Ela
não aparece em fotos e raramente vira notícia. E isso não é um problema. Pelo
contrário. Significa que o sistema funcionou. Que o planejamento foi
respeitado. Que o risco foi neutralizado antes de se tornar uma ameaça real.
Quando aquele tão esperado show chega ao fim sem incidentes, o público leva apenas a memória da experiência vivida. Nos bastidores, fica a certeza de que o trabalho invisível cumpriu seu papel. Na segurança, não existe reconhecimento maior do que esse.
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