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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Com 61% de ociosidade em salas cirúrgicas, Brasil deixa de realizar 2 milhões de procedimentos mensa

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Análise da Planisa detalha o impacto financeiro e clínico dessa problemática 

 

No ecossistema da saúde, a sustentabilidade financeira e a excelência clínica travam uma batalha diária por equilíbrio. Dentro da estrutura de um hospital geral, nenhum ambiente materializa esse desafio de forma tão intensa e dramática quanto o Bloco Cirúrgico. Conhecido tradicionalmente como a linha de frente do salvamento de vidas, o Centro Cirúrgico (CC) assume o papel de "coração econômico" da instituição. Sob a perspectiva de volume, as admissões cirúrgicas respondem por 60% das admissões hospitalares; sob a ótica financeira, no entanto, elas consomem ou direcionam mais de 40% de todos os custos com internações. Destes 40%, o centro cirúrgico sozinho responde a aproximadamente 15% de todo o custo hospitalar. 

Esse peso financeiro confere ao setor uma responsabilidade central na saúde financeira do negócio hospitalar: qualquer oscilação em sua produtividade impacta imediatamente na última linha do resultado econômico da instituição. O grande paradoxo reside no fato de que a mesma alta complexidade tecnológica e de recursos humanos que gera margem e prestígio institucional atua como um biombo que esconde "custos invisíveis" e desperdícios crônicos. Em cenários de inflação médica ascendente e transição de modelos de remuneração (do fee-for-service para modelos baseados em valor), a ineficiência no centro cirúrgico deixou de ser um problema puramente administrativo para se tornar uma ameaça à própria viabilidade da assistência ao paciente. 

Ao analisar o desempenho macro dos blocos cirúrgicos no Brasil com suporte nos dados consolidados do Boletim de Indicadores Planisa (1), constata-se uma métrica alarmante: uma taxa média de ociosidade que atinge 61%. Isso significa que, na maior parte do tempo disponível operacional, a estrutura física mais cara do hospital permanece vazia ou subutilizada. 

Para contextualizar a gravidade da situação, a Planisa observou a evolução histórica do indicador de número de cirurgias por sala por dia: em 2019, registravam-se 2,6 procedimentos/sala/dia e, após seis anos, em 2025, permanecem os mesmos 2,6 procedimentos/sala/dia. 

A retração na produtividade registrada no último ano para a média de 2,6 cirurgias diárias por sala acende um sinal de alerta máximo para os executivos da saúde. Este declínio torna-se ainda mais grave quando associado ao fato de que o custo da hora do centro cirúrgico sofreu um incremento superior a 50% no mesmo ciclo histórico (2019-2025). Ou, em termos práticos: manter uma sala cirúrgica aberta está significativamente mais caro, mas estamos realizando o mesmo volume de procedimentos dentro dela. 

“Como preconizava o guru da administração moderna, Peter Drucker: ‘A eficiência não é fazer as coisas mais rápido, mas fazer as coisas certas’. Trazer a filosofia de Drucker para o ambiente perioperatório exige que gestores e lideranças médicas abandonem o empirismo e passem a governar o centro cirúrgico com base em dados de alta acurácia, transformando a variabilidade descontrolada em previsibilidade operacional”, fala o diretor de Serviços da Planisa, Marcelo Carnielo.

 

A tradução monetária do tempo desperdiçado 

Para retirar o conceito de ociosidade do campo abstrato e inseri-lo na realidade orçamentária, a análise da Planisa detalha a estrutura de custos médios de uma única sala de cirurgia em hospitais avaliados: 

  • Custo Fixo Mensal de Operação (por Sala): R$ 202.377 (1)
  • Custo Direto da Ociosidade Mensal (por Sala): R$ 123.652 (1) 

“Quando expandimos essa ótica micro para a escala macroeconômica brasileira — considerando o censo de 25.293 (7) salas cirúrgicas ativas no país em 2024, excluindo salas cirúrgicas de pequenos procedimentos ambulatoriais, o impacto se mostra devastador: o custo acumulado da ociosidade nos blocos operatórios drena R$ 3,1 bilhões anuais do sistema de saúde. Esse montante bilionário se traduz no represamento de cirurgias eletivas, o que agrava o quadro clínico de milhares de pacientes nas filas de espera. Otimizar a atual ociosidade de 61% dessas salas permitiria injetar um potencial de 1,97 milhões por mês de novos procedimentos ao sistema”, explica Carnielo.

 

Custos invisíveis 

A ineficiência de um centro cirúrgico raramente se limita às barreiras físicas de suas salas; ela funciona como um epicentro que reverbera disfunções para os setores que estão antes e depois do ato cirúrgico (efeitos upstream e downstream). Dois exemplos clássicos de desperdício são gerados por comportamento médico defensivo e falha de planejamento que envolvem os leitos de Terapia Intensiva e a reserva de hemoderivados. 

De forma sistemática, as equipes cirúrgicas solicitam vagas de UTI no período pré-operatório como salvaguarda de segurança. No entanto, os indicadores revelam que 25,6% dos leitos de UTI reservados antecipadamente não chegam a ser utilizados pelo paciente, pois este apresenta evolução estável que permite o encaminhamento direto à enfermaria (2). Considerando que o custo de uma única diária de UTI adulto gira em torno de R$ 2.692 (1), manter um quarto de alta complexidade bloqueado sem necessidade real gera um prejuízo financeiro severo e impede a internação de pacientes críticos vindos do pronto-socorro, por exemplo. 

O comportamento preventivo repete-se na solicitação de bolsas de sangue. As equipes cirúrgicas demandam reservas em 5,0% dos casos, mas o uso real e efetivo ocorre em escassos 1,1% do total de procedimentos (2). Embora as bolsas não utilizadas retornem ao banco de sangue se mantidas sob refrigeração adequada, o processo de tipagem, transporte, testes de compatibilidade e bloqueio temporário gera custos invisíveis expressivos. Cada bolsa de sangue processada representa um custo estimado de R$ 431 (1) para a instituição, inflacionando o desperdício de processos.

 

O roteiro estratégico para a mudança cultural 

O diretor de Serviços da Planisa pontua que a jornada para a consolidação de um centro cirúrgico de alta performance exige resiliência das lideranças e a implementação de um ciclo estruturado de melhoria contínua baseado em quatro passos executivos fundamentais: analisar dados atuais; definir metas claras; priorizar iniciativas de alto impacto; monitorar e ajustar rotas. 

“A excelência operacional nasce do ponto de convergência entre a precisão milimétrica dos algoritmos preditivos e a coordenação relacional das equipes assistenciais. A implantação de ferramentas consagradas, como o uso sistemático e obrigatório do checklist de cirurgia segura da Organização Mundial da Saúde (OMS), melhora de forma documentada a consciência situacional da equipe, minimizando erros e mitigando atrasos de fluxo”, fala Carnielo. 

Ele ressalta ainda que, ao estruturar comitês formais de governança perioperatória e implementar políticas como os protocolos ERAS (Enhanced Recovery After Surgery), os hospitais rompem com a lógica do desperdício oculto. “O resultado desta transformação transcende a otimização de custos e a recuperação de margens financeiras: trata-se da construção de um sistema de saúde mais seguro, sustentável, eficiente e focado em seu propósito maior: salvar vidas com o máximo de dignidade e o menor desperdício de recursos”, conclui.

  

Referências Bibliográficas 

(1) Planisa. Indicadores por classificação – BIP Hospitais Ano 2025. Boletim Indicadores Planisa: Unidades hospitalares – indicadores econômicos e de produtividade. São Paulo: Planisa; 2025.

(2) Anestech. Observatório Anestesia de Valor 2024 / 2026. Florianópolis: Anestech; 2026. 


Canetas para emagrecer entram no radar da oncologia após estudo apontar maior sobrevida em pacientes com câncer

 

Pesquisa sugere que medicamentos como semaglutida podem aumentar a eficácia da imunoterapia e reduzir efeitos adversos do tratamento

 

As chamadas “canetas para emagrecer”, que revolucionaram o tratamento da obesidade e do diabetes nos últimos anos, começam agora a despertar interesse em uma área inesperada da medicina: a oncologia. Um estudo apresentado durante a Reunião Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) 2026 sugere que pacientes com câncer que utilizam medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, grupo que inclui fármacos como semaglutida e liraglutida, podem apresentar maior sobrevida e menos efeitos colaterais durante o tratamento com imunoterapia. 

A pesquisa analisou dados de mais de 177 mil pacientes com tumores sólidos e cânceres hematológicos tratados com imunoterapia. Entre eles, cerca de 3.800 utilizavam medicamentos da classe do GLP-1. Após ajustes estatísticos para equilibrar as características dos grupos, os pesquisadores acompanharam mais de 3.400 pacientes em cada grupo por até cinco anos. 

Os resultados chamaram atenção da comunidade científica. Os pacientes que utilizavam agonistas de GLP-1 apresentaram risco de morte 31% menor ao longo de cinco anos em comparação com aqueles que receberam apenas imunoterapia. Em números absolutos, a mortalidade foi de 32% entre os usuários desses medicamentos, contra 45% no grupo que não fazia uso da medicação. 

Segundo o coordenador de Oncologia da Rede Total Care, Carlos Donnarumma, os achados reforçam uma linha de pesquisa que vem ganhando força nos últimos anos: a influência do metabolismo e da inflamação sobre a resposta ao câncer. 

“Os agonistas de GLP-1 parecem atuar em diferentes mecanismos biológicos que favorecem a ação da imunoterapia. Eles reduzem processos inflamatórios crônicos, muito comuns em pacientes com obesidade e diabetes, modulam a resposta imunológica e podem criar um ambiente mais favorável para que o organismo reconheça e combata as células tumorais”, explica. 

De acordo com o oncologista, estudos experimentais também sugerem que esses medicamentos podem alterar o microambiente tumoral e influenciar positivamente a microbiota intestinal, fator cada vez mais associado à resposta aos tratamentos oncológicos. Outro dado relevante foi a redução de eventos adversos como febre, fadiga, pneumonia, sepse e caquexia, síndrome caracterizada pela perda involuntária de peso e massa muscular. 

“Quando conseguimos reduzir a toxicidade do tratamento, aumentamos as chances de o paciente completar a terapia planejada. Isso se traduz em mais qualidade de vida, menos hospitalizações e potencialmente melhores resultados clínicos”, afirma Donnarumma. 

Os benefícios, porém, não apareceram imediatamente. O estudo mostrou que as diferenças entre os grupos se tornaram mais evidentes após três e cinco anos de acompanhamento, sugerindo um possível efeito acumulativo ao longo do tempo. 

Apesar dos resultados promissores, especialistas alertam que ainda não é possível afirmar que os medicamentos foram responsáveis pelos benefícios observados. Como se trata de uma análise observacional baseada em dados do mundo real, o estudo identifica associações, mas não comprova relação de causa e efeito. 

Para a oncologista do Hospital Pasteur, Thaíssa Gonzalez, os resultados devem ser interpretados com cautela, embora reforcem uma mudança importante na forma de compreender o tratamento do câncer. 

“Hoje sabemos que fatores metabólicos influenciam diretamente a evolução da doença e a resposta às terapias. Cada vez mais a oncologia olha para o paciente de forma integrada, considerando condições como obesidade, diabetes, alimentação, atividade física e composição corporal. Esse estudo reforça a importância dessa abordagem mais ampla.” 

Segundo a especialista, embora ainda não possamos afirmar que os agonistas de GLP-1 sejam responsáveis pelos benefícios observados, os dados reforçam a importância de controlar fatores como obesidade e diabetes durante o tratamento oncológico. Isso inclui acompanhamento multidisciplinar, alimentação adequada, prática regular de atividade física e preservação da massa muscular, aspectos que também impactam os resultados clínicos.

 

Rede Total Care

 

A gripe passou, mas a tosse continua: quando o sintoma merece atenção?

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Especialistas explicam por que a tosse pode persistir por semanas após infecções respiratórias e quando é importante investigar possíveis complicações 

 

Em meio ao aumento dos casos de doenças respiratórias registrado em todo o país, muitas pessoas relatam uma situação aparentemente contraditória: os sintomas mais intensos da gripe desaparecem, a febre cessa e o mal-estar melhora, mas a tosse continua por dias ou até semanas. 

A dúvida é comum: afinal, isso é normal ou pode indicar um problema mais sério? 

Segundo o mais recente boletim InfoGripe, da Fiocruz, os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) continuam em alta no Brasil, impulsionados principalmente pela circulação de influenza A, vírus sincicial respiratório (VSR) e rinovírus. Em 2026, mais de 77 mil casos já foram notificados no país. Em meio a esse cenário, uma dúvida frequente entre pacientes é por que a tosse pode persistir mesmo após a melhora da gripe ou de outras infecções respiratórias. 

Especialistas explicam que, na maioria das vezes, o sintoma não indica que o vírus ainda está presente no organismo, mas sim uma resposta inflamatória das vias respiratórias que pode durar semanas após a recuperação. "Após uma infecção respiratória, as vias aéreas podem permanecer inflamadas por algum tempo, mesmo quando o organismo já eliminou o vírus. É o que chamamos de tosse pós-viral, uma condição relativamente frequente e que pode durar algumas semanas", explica o Dr. Renato Bergallo, médico de Família e Comunidade e conteúdista do Portal Afya. 

De acordo com o especialista, a persistência do sintoma costuma gerar preocupação porque muitos pacientes associam a tosse à continuidade da doença ou à falta de resposta ao tratamento. 

"Nem toda tosse prolongada significa uma complicação. Em muitos casos, trata-se apenas de uma reação residual do organismo ao processo inflamatório causado pela infecção. O importante é observar a evolução do quadro e a presença de outros sintomas associados", afirma. 

Embora a tosse pós-viral seja comum, alguns sinais podem indicar a necessidade de investigação médica. Entre eles estão falta de ar, febre persistente ou recorrente, chiado no peito, produção excessiva de secreção, dor torácica e piora progressiva dos sintomas. 

Para a Dra. Maria Cecília Maiorano, coordenadora da pós-graduação em Pneumologia da Afya Educação Médica São Paulo, a persistência da tosse também pode revelar condições que se tornam mais evidentes após uma infecção respiratória. 

"Em alguns pacientes, a infecção funciona como um gatilho para manifestações respiratórias que já existiam de forma mais discreta, como asma, rinite ou hiperresponsividade brônquica. Por isso, quando a tosse persiste por muitas semanas ou impacta a qualidade de vida, é importante buscar avaliação especializada", explica. 

A especialista destaca ainda que a duração da tosse pode variar conforme o vírus envolvido, a idade do paciente e a presença de doenças respiratórias prévias. 

"Não existe um prazo único que sirva para todos os casos. O que avaliamos é o contexto clínico. Uma tosse leve, que apresenta melhora gradual, costuma ter comportamento diferente de uma tosse que piora com o passar dos dias ou vem acompanhada de novos sintomas", diz.
 

Quando a tosse merece investigação?

Os especialistas recomendam procurar avaliação médica quando a tosse:

  • Persiste por várias semanas sem sinais de melhora;
  • É acompanhada de falta de ar ou dificuldade para respirar;
  • Surge junto com febre persistente ou recorrente;
  • Vem acompanhada de chiado no peito;
  • Interfere no sono ou nas atividades diárias;
  • Apresenta secreção em grande quantidade ou com sangue;
  • É acompanhada por dor no peito ou perda de peso.

Além da avaliação médica quando necessária, medidas simples como hidratação adequada, evitar exposição à fumaça e manter ambientes ventilados podem contribuir para a recuperação das vias respiratórias após infecções virais. 

Embora a maioria dos casos evolua de forma favorável, os especialistas reforçam que observar a evolução dos sintomas é fundamental para diferenciar uma recuperação normal de situações que exigem investigação e tratamento específicos.



Afya
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Dengue: projeto do Institut Pasteur de São Paulo usará inteligência artificial para identificar áreas de risco e antecipar surtos

Pesquisa combina dados climáticos, ambientais e comportamento da população para criar mapas de risco em alta resolução e apoiar ações mais precisas de saúde pública

 

A dengue continua sendo um dos maiores desafios de saúde pública do Brasil. Embora fatores climáticos como temperatura e umidade sejam reconhecidos há décadas como importantes determinantes da doença, pesquisadores do Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) acreditam que parte da explicação para a ocorrência dos surtos ainda está escondida em escalas muito mais detalhadas do território urbano. 

Para investigar esse fenômeno, o IPSP trabalha em um novo projeto de pesquisa que pretende integrar inteligência artificial, dados climáticos, indicadores ambientais, infraestrutura urbana e percepção da população sobre vacinação para desenvolver um sistema capaz de identificar áreas de maior risco para a transmissão da dengue em São Paulo.

O objetivo é compreender de forma integrada como fatores climáticos, condições urbanas e a aceitação da vacina interagem entre si para influenciar os surtos de dengue. 

A iniciativa é coordenada pelo pesquisador Mauro César Cafundó de Morais, líder do Laboratório de Clima e Saúde do IPSP, e reúne parcefriros nacionais e internacionais, incluindo o Institut Pasteur de Paris. 

“O objetivo é compreender como diferentes fatores ambientais, sociais e climáticos interagem para favorecer a transmissão da dengue dentro da cidade. Hoje sabemos que o risco não é distribuído de forma homogênea. Existem áreas muito específicas onde diversos fatores se combinam e criam condições mais favoráveis para a proliferação do mosquito e para a ocorrência da doença”, explica Morais. 

Além das variáveis climáticas tradicionais, como temperatura e umidade, os pesquisadores pretendem analisar fatores ainda pouco explorados em estudos epidemiológicos, como ilhas de calor urbanas, acesso à água, coleta de esgoto e cobertura de serviços urbanos. 

A hipótese é que a convergência desses elementos possa ajudar a explicar por que determinadas regiões apresentam incidências mais elevadas de dengue mesmo quando comparadas a áreas vizinhas submetidas às mesmas condições sazonais.

 

 Um dos objetivos do projeto é analisar fatores pouco explorados em estudos epidemiológicos, como ilhas de calor.

Mapas de risco em escala de bairro – Uma das principais inovações do projeto é o desenvolvimento de modelos capazes de gerar mapas de risco em alta resolução espacial. Enquanto muitos sistemas atuais trabalham com dados agregados para cidades inteiras ou grandes regiões, a proposta do IPSP é identificar padrões em escalas muito menores, chegando ao nível de bairros e, futuramente, de quarteirões.

Segundo Morais, essa abordagem poderá contribuir para uma utilização mais eficiente dos recursos públicos destinados ao combate à dengue. “Se conseguirmos indicar com maior precisão onde o risco está aumentando, as equipes de vigilância poderão direcionar suas ações de forma mais estratégica, seja em campanhas de prevenção, visitas de agentes de saúde ou controle de criadouros”, afirma. 

A expectativa é que os modelos também permitam o desenvolvimento de sistemas de alerta precoce, auxiliando gestores públicos a antecipar medidas de prevenção antes que os surtos atinjam grandes proporções.
 

Escuta social e confiança na vacinação – Outro eixo do projeto envolve o monitoramento de redes sociais para compreender como a população percebe a nova vacina contra a dengue recentemente incorporada às estratégias de prevenção no país. 

A técnica, conhecida como escuta social, busca identificar dúvidas, preocupações e percepções dos cidadãos a partir de conteúdos publicados em plataformas digitais. O objetivo não é verificar informações individualmente, mas compreender tendências coletivas de comportamento e confiança relacionadas à vacinação. 

“O que queremos entender é como as pessoas percebem a vacina e quais fatores influenciam a adesão às campanhas de imunização. Essas informações podem ajudar a orientar estratégias de comunicação e fortalecer a confiança da população”, explica o pesquisador. 

O estudo também pretende analisar a percepção de profissionais de saúde, considerados atores fundamentais na recomendação de vacinas e na construção da confiança pública.
 

Abordagem One Health O projeto integra a estratégia One Health (Saúde Única) adotada pelo IPSP e pela Rede Pasteur, que reconhece a interdependência entre saúde humana, saúde animal e meio ambiente. 

A pesquisa surge em um contexto de crescente preocupação internacional com os impactos das mudanças climáticas sobre doenças transmitidas por vetores. Nos últimos anos, a dengue expandiu sua área de ocorrência para regiões antes consideradas de baixo risco, incluindo áreas do Sul da América do Sul e países europeus. 

Em abril deste ano, Morais participou do One Health Summit, realizado em Lyon, na França, onde apresentou iniciativas brasileiras voltadas ao monitoramento de doenças sensíveis às mudanças climáticas. O encontro reuniu cientistas, organismos internacionais e representantes governamentais para discutir estratégias globais de adaptação dos sistemas de saúde aos desafios climáticos. 

“Não existe vacina contra o aquecimento global. Mas podemos usar dados, ciência e tecnologia para antecipar riscos e apoiar decisões que reduzam o impacto dessas mudanças sobre a saúde das populações”, afirma. 

A expectativa é que os resultados do projeto possam contribuir para o desenvolvimento de novas ferramentas de vigilância epidemiológica e para a formulação de políticas públicas mais eficazes no enfrentamento da dengue e de outras doenças sensíveis ao clima.

 

Institut Pasteur de São Paulo - IPSP

 

Campanha nacional da SBGG busca ampliar o entendimento sobre diferentes formas de violência e fortalecer uma cultura de cuidado, respeito e proteção no envelhecimento

 

A violência contra pessoas idosas pode se manifestar de diferentes formas. Embora a agressão física seja mais facilmente reconhecida pela população, especialistas alertam que a violência ocorre também por meio da negligência, do abandono, da violência psicológica, do controle financeiro, da exclusão social, da infantilização e do desrespeito à autonomia. Muitas dessas situações permanecem invisíveis no cotidiano, o que dificulta sua identificação e enfrentamento. 

Para ampliar a compreensão da sociedade sobre as diferentes formas de violência e fortalecer uma cultura baseada no cuidado, no respeito e na proteção, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) lançou a Campanha de Enfrentamento à Violência Contra a Pessoa Idosa. Desenvolvida por um grupo de trabalho multidisciplinar da entidade, a iniciativa reunirá, ao longo de um ano, ações educativas promovidas pelas seccionais da SBGG em diferentes regiões do país.
 

Violência vai muito além da agressão física e muitas vezes é invisível 

Embora a agressão física seja a forma mais facilmente reconhecida pela população, especialistas alertam que a violência contra pessoas idosas se manifesta de diferentes maneiras e muitas vezes permanece invisível. Entre as formas mais frequentes estão negligência, abandono, violência psicológica, controle financeiro, exclusão social, infantilização e desrespeito à autonomia. 

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), violência contra a pessoa idosa é definida como “qualquer ação ou omissão, única ou repetida, ocorrida em uma relação de confiança e que provoque dano, sofrimento ou angústia”. Na prática, significa que a violência pode ocorrer não apenas de forma física, mas também psicológica, patrimonial, institucional ou por negligência, o que contribui para sua subnotificação e naturalização. 

“Falar sobre violência contra a pessoa idosa também é falar sobre cuidado. Muitas vezes, a violência aparece justamente quando deixamos de reconhecer a autonomia, a história e o direito dessa pessoa de participar das próprias decisões”, afirma Maria Angélica Sanchez, assistente social, especialista em Gerontologia, membro do Conselho Consultivo Pleno da SBGG e uma das coordenadoras da campanha. 

Segundo a especialista, muitos comportamentos violentos ainda são naturalizados nas relações familiares e de cuidado, o que dificulta sua identificação. “Quando falamos em violência contra a pessoa idosa, muitas pessoas pensam apenas em agressões físicas. Mas ela também está presente na negligência, no abandono, no isolamento social, no controle financeiro e em situações em que a autonomia e a dignidade são desrespeitadas. Precisamos ampliar esse entendimento na sociedade”, destaca.
 

Violência estrutural, etarismo e o desafio de garantir direitos 

Outro aspecto que preocupa especialistas é a violência estrutural, caracterizada por mecanismos sociais, econômicos, políticos e institucionais que dificultam o acesso da população idosa a direitos, serviços e oportunidades. A discriminação por idade, a burocratização de direitos e a exclusão social também são formas de violência que comprometem a qualidade de vida e a cidadania dessa população. 

Para Vania Beatriz Herédia, professora, pesquisadora, socióloga, doutora em História, membro da Comissão de Normas da SBGG e também coordenadora da campanha, um dos principais desafios é o reconhecimento dessas violências. 

“Ainda é difícil identificar e discutir a violência contra pessoas idosas porque muitos preconceitos relacionados ao envelhecimento continuam profundamente presentes na nossa cultura. Precisamos superar a ideia de que determinadas situações são naturais do envelhecimento. Combater a violência também significa enfrentar o etarismo e valorizar a autonomia, a dignidade e os direitos da população idosa”, afirma. 

A campanha também chama atenção para o envelhecimento acelerado da população brasileira e para a necessidade de fortalecer redes de apoio, proteção e convivência intergeracional. 

“O enfrentamento da violência exige uma mudança cultural. Precisamos fortalecer redes de proteção social, qualificar profissionais, apoiar famílias e construir uma sociedade que enxergue o envelhecimento com mais respeito e responsabilidade coletiva. O cuidado com a pessoa idosa é uma responsabilidade de todos”, conclui Vania.

 

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – SBGG


Frio aumenta a fome? Entenda o que acontece com o corpo no inverno

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Médico explica por que temperaturas mais baixas podem influenciar o apetite e aumentar a busca por refeições mais calóricas 

 

Com a aproximação do inverno, que começa oficialmente em 21 de junho de 2026, muita gente percebe mudanças no apetite e uma vontade maior de consumir massas, doces e pratos quentes ao longo do dia. Mas essa percepção não acontece apenas por hábito ou “falta de controle”. Um estudo publicado na revista Nature, conduzido pelo Scripps Research em 2023, identificou um mecanismo cerebral ligado ao aumento da fome em ambientes com temperaturas baixas. Segundo os pesquisadores, neurônios específicos são ativados quando o organismo percebe a queda térmica, estimulando uma busca maior por comida para compensar o gasto energético necessário na produção de calor.

Segundo o médico Edson Ramuth, fundador e CEO da rede Emagrecentro, referência em emagrecimento saudável e estética corporal, o organismo realmente passa a demandar mais energia em períodos mais frios. “O corpo trabalha constantemente para manter o equilíbrio térmico. Em dias gelados, existe um aumento da demanda energética, o que pode intensificar a vontade de comer. Quando somos expostos a temperaturas baixas, o organismo precisa trabalhar mais para produzir calor e preservar as funções vitais em equilíbrio. Esse processo, chamado de termogênese, aumenta discretamente o gasto calórico justamente pela necessidade de manter”, afirma.

Além da resposta fisiológica, os meses mais gelados também influenciam diretamente o comportamento alimentar. “Existe uma tendência maior de permanecer em ambientes fechados, reduzir a prática de atividade física e buscar refeições associadas à sensação de acolhimento e bem-estar, especialmente preparações mais quentes e calóricas”, complementa.

 

Por que sentimos mais vontade de comer alimentos calóricos?

Preparações quentes e mais gordurosas ativam áreas cerebrais ligadas ao bem-estar e à recompensa emocional, aumentando temporariamente a percepção de satisfação e conforto. Outro fator importante envolve a menor exposição solar durante essa época do ano. “Isso pode interferir na produção de serotonina, neurotransmissor relacionado ao humor e ao controle do apetite, favorecendo um desejo maior por doces e alimentos mais energéticos”, explica o médico. 

Para o Dr. Ramuth, o mais importante é construir hábitos consistentes ao longo da rotina. “O ideal é priorizar refeições equilibradas, ricas em proteínas, fibras e alimentos que promovam maior saciedade. Também é fundamental manter a prática de exercícios físicos e acompanhamento profissional para entender as necessidades individuais do organismo”, orienta. 

Por fim, o médico reforça que cuidar da saúde durante os períodos mais frios facilita resultados mais sustentáveis ao longo do ano. “Muita gente deixa para mudar hábitos apenas na chegada do verão, mas os resultados acontecem com constância. Construir uma rotina equilibrada ajuda a chegar aos meses mais quentes com mais disposição, autoestima e segurança”, conclui.

 

 Emagrecentro

 

O efeito colateral que a balança não mostra na era dos injetáveis

Enquanto medicamentos transformam o tratamento da obesidade, médicos alertam que a verdadeira saúde depende da restauração do metabolismo, e não apenas de menos quilos  

 

Os medicamentos para tratamento da obesidade transformaram uma das áreas mais desafiadoras da medicina. Ozempic, Wegovy e Mounjaro passaram a ocupar espaço frequente nos consultórios, nas redes sociais e até nas discussões sobre mercado farmacêutico. O avanço dessas terapias ajudou a consolidar uma nova visão sobre a obesidade como doença crônica, mas também trouxe uma questão que começa a preocupar médicos e pesquisadores: o que acontece com a saúde do paciente depois que o peso diminui?

A pergunta surge em meio ao crescimento contínuo da obesidade no Brasil e no mundo. Dados do Atlas Mundial da Obesidade, divulgados em 2025, mostram que 68% dos brasileiros vivem com excesso de peso e 31% já apresentam obesidade. Globalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a obesidade entre adultos mais do que dobrou desde 1990, tornando-se um dos principais fatores associados ao aumento de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, esteatose hepática e diversos tipos de câncer.

Para o médico, professor e pesquisador Alexandre Duarte, referência em fisiologia metabólica e hormonal, fundador do Instituto Avantgarde, a popularização dos medicamentos representa um avanço importante, mas também expõe uma interpretação simplificada sobre o que significa recuperar a saúde.

“Temos medicamentos capazes de produzir perdas de peso que antes eram observadas apenas em procedimentos mais invasivos. Isso é extremamente relevante. O problema começa quando a sociedade passa a acreditar que emagrecimento e saúde são exatamente a mesma coisa. Não são”, afirma.

Segundo ele, o excesso de peso é apenas uma das manifestações de um problema fisiológico mais amplo.

“A obesidade raramente surge isolada. Ela costuma vir acompanhada de resistência à insulina, alterações hormonais, inflamação crônica de baixo grau, perda de flexibilidade metabólica, distúrbios do sono e redução progressiva da capacidade energética das células. Quando olhamos apenas para a balança, enxergamos o resultado final de um processo que começou muito antes.”


O que a balança não mostra

Os estudos que levaram à aprovação da semaglutida e da tirzepatida demonstraram resultados expressivos na redução do peso corporal. Pesquisas publicadas no The New England Journal of Medicine registraram perdas médias que colocaram essas terapias entre os tratamentos mais eficazes já desenvolvidos para obesidade.

O sucesso dos medicamentos, porém, trouxe uma consequência inesperada. Muitas pessoas passaram a associar a perda de peso à resolução completa dos riscos relacionados à obesidade, embora a realidade clínica seja mais complexa. 


Na prática clínica, a situação costuma ser mais complexa

Duarte explica que dois pacientes com o mesmo peso podem apresentar realidades metabólicas completamente diferentes. Enquanto um possui boa sensibilidade à insulina, preservação muscular e marcadores inflamatórios adequados, outro pode apresentar alterações importantes mesmo após emagrecer.

“Existe uma diferença entre reduzir gordura corporal e restaurar a capacidade do organismo de produzir energia, responder adequadamente aos hormônios e manter estabilidade metabólica. Muitas pessoas ficam frustradas porque atingem a meta de peso e continuam sem disposição, com dificuldade de concentração, problemas de sono ou exames alterados. Isso acontece porque parte do processo ainda não foi resolvida.”

Ele observa que um dos principais riscos da discussão atual é transformar a saúde em uma questão exclusivamente estética.

“Vivemos um momento em que a balança e a aparência corporal ganharam protagonismo. Mas o corpo não funciona por aparência. O que determina saúde é a capacidade fisiológica de sustentar energia, movimento, recuperação, cognição e longevidade ao longo do tempo.”


O desafio da manutenção

Outra preocupação crescente entre especialistas está relacionada à manutenção dos resultados obtidos com os medicamentos.

As diretrizes da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) reforçam que a obesidade deve ser encarada como uma doença crônica, exigindo acompanhamento contínuo. Isso significa que o tratamento não termina necessariamente quando o paciente alcança determinado peso.

Para o médico e pesquisador, a dificuldade está na expectativa criada em torno de soluções rápidas para um problema que se desenvolve ao longo de anos ou décadas.

“Boa parte dos pacientes chega ao consultório procurando uma estratégia para perder peso. Poucos entendem que o verdadeiro objetivo deveria ser recuperar função metabólica. Quando o foco permanece apenas no emagrecimento, existe uma tendência de repetir o mesmo ciclo: perde peso, recupera peso, perde novamente e segue acumulando desgaste fisiológico.”

Segundo ele, a manutenção dos resultados depende de fatores que vão além da medicação.

“Metabolismo não é uma conta matemática simples entre calorias consumidas e calorias gastas. Estamos falando de hormônios, sono, composição corporal, massa muscular, inflamação, alimentação, atividade física e capacidade adaptativa do organismo. Ignorar essas variáveis é reduzir um sistema extremamente complexo a uma única métrica.”


Uma nova fase da medicina metabólica

A expansão dos medicamentos para obesidade também está provocando mudanças dentro da própria comunidade médica. O debate começa a migrar da simples redução de peso para indicadores mais amplos de saúde metabólica, qualidade de vida e envelhecimento saudável.

Para Duarte, esse movimento tende a se intensificar nos próximos anos, à medida que mais pacientes alcançam resultados significativos de emagrecimento e passam a buscar respostas para questões que permanecem abertas.

“Estamos assistindo a uma mudança histórica. Durante décadas a medicina lutou para encontrar ferramentas eficazes contra a obesidade. Agora que essas ferramentas existem, surge uma nova pergunta: como transformar perda de peso em recuperação duradoura da saúde? Essa talvez seja a discussão mais importante da próxima década.”

Na avaliação do especialista, o futuro do tratamento da obesidade passará menos pela busca de números ideais na balança e mais pela compreensão de como restaurar os mecanismos fisiológicos que sustentam energia, autonomia e qualidade de vida ao longo do envelhecimento.

“Emagrecer pode ser o começo da jornada. O verdadeiro desafio é reconstruir saúde metabólica de forma que ela permaneça presente pelos próximos vinte ou trinta anos.” 

 



Dr. Alexandre Duarte - médico, professor e palestrante, referência em fisiologia metabólica e hormonal no Brasil. Graduado em Medicina pela Universidade Regional de Blumenau (FURB), aprofundou sua formação durante 12 anos nos Estados Unidos, onde concluiu o Fellowship in Metabolic and Nutritional Medicine pela MMI/USA. Fundador do Grupo Avantgarde, Alexandre Duarte acumula mais de duas décadas de atuação clínica e acadêmica. Ao longo de sua trajetória, contribuiu para a recuperação da saúde de aproximadamente 40 mil pacientes e para a formação de mais de 3 mil médicos em áreas ligadas à fisiologia metabólica, modulação hormonal e medicina personalizada. Defensor da chamada medicina da saúde, baseada na investigação das causas dos desequilíbrios metabólicos e hormonais, atua na difusão de uma abordagem voltada à prevenção, personalização do tratamento e reversão de doenças crônicas associadas ao metabolismo, consolidando-se como uma das principais vozes do segmento no país.
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Instituto Avantgarde
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Fontes de pesquisa

Organização Mundial da Saúde (OMS)
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/obesity-and-overweight

World Obesity Federation – World Obesity Atlas 2025
https://data.worldobesity.org/publications/?cat=19

Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-03/um-cada-tres-brasileiros-vive-com-obesidade-mostra-relatorio-global

Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO)
https://abeso.org.br

Mapa da Obesidade – ABESO
https://abeso.org.br/mapa-da-obesidade/

Ministério da Saúde
https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/promocao-da-saude/fact-sheet-obesidade

The New England Journal of Medicine (STEP 1 Trial – Semaglutida)
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2032183

Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade – ABESO
https://abeso.org.br/diretrizes/obesidade/2026/01/Diretriz-Brasileira-de-Tratamento-Farmacologico-da-Obesidade-2026.pdf

 

Estudo do Einstein reforça necessidade de manutenção da aspirina após angioplastia coronária independentemente da complexidade do procedimento


Desdobramento do NEO-MINDSET mostrou que reduzir sangramentos após procedimento nem sempre significa maior proteção cardiovascular para o paciente 

 

Retirar precocemente a aspirina após angioplastias cardíacas complexas pode reduzir sangramentos, mas não necessariamente melhorar os desfechos gerais dos pacientes. É o que mostra uma análise inédita derivada do estudo NEO-MINDSET, conduzida por pesquisadores do Einstein Hospital Israelita, no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), do Ministério da Saúde. Os resultados reforçam que a modificação do tratamento antiplaquetário padrão – para evitar a formação de coágulos – após infarto ainda exige cautela e avaliação individualizada. 

O trabalho avaliou pacientes submetidos à intervenção coronária percutânea (angioplastia com implante de stent) considerados de maior complexidade anatômica — incluindo casos com múltiplos vasos tratados, múltiplos stents, lesões extensas ou obstruções coronárias mais desafiadoras. A pesquisa comparou o uso de monoterapia com inibidor potente de P2Y12 – classe de medicamentos usada para evitar a formação de coágulos – sem aspirina, versus a terapia antiplaquetária dupla convencional (DAPT), baseada na combinação de aspirina e outro antiplaquetário. 

Os resultados mostraram que a retirada precoce da aspirina se associou à redução de sangramentos relevantes, em todos os grupos avaliados. No entanto, essa estratégia não demonstrou benefícios gerais claros em relação ao tratamento convencional quando também foram considerados riscos como infarto, trombose e outros eventos cardiovasculares independentemente da complexidade do procedimento. 

A nova análise, publicada na EuroIntervention – revista científica internacional dedicada à cardiologia intervencionista – e apresentada no EuroPCR 2026 – um dos principais congressos internacionais da área –, constitui um desdobramento do estudo original NEO-MINDSET, previamente apresentado no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC 2025). Os achados recentes tiveram como foco específico pacientes submetidos a angioplastias complexas, um dos cenários mais desafiadores da cardiologia intervencionista contemporânea. Entre os 3.408 pacientes avaliados, 791 foram classificados como casos complexos. 

“O NEO-MINDSET nasceu de uma discussão muito relevante da cardiologia contemporânea: como reduzir complicações hemorrágicas sem comprometer a proteção cardiovascular após o infarto. Os resultados mostraram que a retirada precoce da aspirina pode diminuir sangramentos, mas também reforçaram que essa estratégia exige cautela”, afirma o Dr. Pedro Alves Lemos, diretor de Cardiologia do Einstein Hospital Israelita e um dos investigadores principais do estudo original, que já havia chamado atenção internacionalmente ao investigar os efeitos da retirada precoce da aspirina após angioplastia em pacientes com síndrome coronariana aguda. 

“Ao analisarmos os pacientes submetidos à angioplastia de acordo com a complexidade do procedimento, observamos que a complexidade anatômica não modificou de forma significativa o efeito das diferentes estratégias antiplaquetárias avaliadas. Ainda assim, os resultados reforçam a importância de individualizar as decisões terapêuticas”, afirma um dos autores do novo estudo, o cardiologista intervencionista do Einstein Hospital Israelita, Dr. Guy Fernando de Almeida Prado Junior. 

Segundo os pesquisadores, os achados contribuem para o debate internacional sobre segurança e personalização do tratamento antiplaquetário após infarto e angioplastia. O estudo destaca que estratégias de retirada precoce da aspirina não devem ser universalmente adotadas sem avaliação individualizada dos riscos de sangramento e de novos eventos cardíacos. 


Queimaduras: celebrações juninas acendem alerta para cuidados com acidentes

Com aumento dos riscos relacionados a fogueiras, fogos de artifício e bebidas quentes, especialistas do Hospital Santa Lúcia reforçam a importância da prevenção, do atendimento urgente adequado e da reabilitação multidisciplinar

 

A campanha Junho Laranja acende o alerta para os cuidados com atividades que possam queimar o corpo. Nessa época do ano, como adverte o Ministério da Saúde, as festividades juninas favorecem a incidência de acidentes, devido a fogos de artifício, fogueiras e o manuseio de bebidas quentes, como explica o Dr. José Adorno, cirurgião plástico e coordenador do Serviço de Queimaduras e Cirurgia Plástica  do Hospital Santa Lúcia Sul, e representante interinstitucional nacional da Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ). 

"A partir do mês de maio, se estendendo por vezes até setembro, tem uma série de situações propícias. Além das relacionadas ao clima seco e frio associa-se  ao período de férias escolares; tem as festas juninas, com a prática de pular fogueira e brincar com o fogo e explosivos de maneira descuidada. Nos estados onde essas festas são muito tradicionais, há um expressivo aumento de pessoas que se queimam nessa época”, observa o especialista, referência nacional no assunto. 

Anualmente, cerca de 180 mil pessoas morrem por queimaduras no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. No Brasil, estima-se cerca de 70 mil internações anuais na rede pública decorrentes de acidentes com queimaduras, segundo a SBQ. 

No caso dos fogos de artifícios, além de queimaduras, os acidentes podem gerar traumas por explosivos. “Há uma legislação cada vez maior na venda desses fogos, mas ainda insuficiente para evitar este tipo de acidente”, acrescenta o médico. Ele alerta que acidentes com fogos de artifício podem resultar em amputações de mãos, lesões graves de membros superiores, traumas de face e comprometimentos oculares severos.

 

Mitos e erros nos primeiros socorros 

A queimadura, como enfatiza o Dr. José Adorno, é um trauma agudo cuja evolução depende diretamente do atendimento inicial correto, permitindo o resfriamento térmico imediato e a estabilização do paciente. Diante de um acidente, erros nos primeiros socorros podem agravar a lesão ou até mesmo o quadro clínico do paciente. O uso de substâncias caseiras inadequadas é um dos mais frequentes e prejudiciais. 

"Nunca se deve aplicar pasta de dente, manteiga, óleo, pó de café, clara de ovo ou qualquer substância caseira sobre a queimadura. Também não se deve romper bolhas ou manusear as feridas sem cuidado asséptico. O recomendado é resfriar a área com água corrente em temperatura ambiente por cerca de 20 minutos, proteger a região com um pano limpo ou curativo estéril e procurar atendimento médico, principalmente em queimaduras extensas, profundas ou localizadas em áreas sensíveis como face, mãos, pés e genitais”, adverte o enfermeiro Antonio Barros de Oliveira, coordenador do Centro Cirúrgico do Hospital Santa Lúcia Sul

 

Prevenção de infecções 

Em casos de queimaduras extensas, a evolução clínica é ameaçada pelo risco de infecções. A perda da barreira cutânea expõe o organismo a uma resposta inflamatória massiva, tornando o controle microbiológico o maior desafio do tratamento. "O queimado naturalmente infecta pela própria ferida. Lidar com eles é prevenir a infecção a partir do momento em que se queima. O curativo deve ser adequado, o ambiente tem que ser esterilizado para lidar com a ferida e a equipe precisa estar com a paramentação correta e para uma manipulação cuidadosa", detalha. 

O enfermeiro Antonio Barros explica que a rotina assistencial exige, além da identificação da extensão e profundidade das queimaduras, a aplicação de coberturas específicas, trocas de curativos, verificação dos sinais vitais, avaliação das vias aéreas e da circulação. “O procedimento inclui limpeza adequada e remoção de tecidos desvitalizados, quando necessário. Durante todo o processo, é importante monitorar sinais de infecção, evolução da cicatrização e controle da dor do paciente, considerada uma das mais intensas da prática clínica”, acrescenta.

 

Reabilitação multidisciplinar 

Além do trauma físico inicial, sobreviventes de queimaduras podem enfrentar impactos sociais, fisiológicos e emocionais profundos que comprometem a capacidade produtiva e o desenvolvimento psicoafetivo. O tratamento de grandes queimados, por exemplo, exige uma abordagem multidisciplinar 

Para minimizar as sequelas estéticas e funcionais que acompanham as vítimas por toda a vida, o Serviço  de Queimaduras e Cirurgia Plástica do Hospital Santa Lúcia Sul adota técnicas cirúrgicas modernas e suporte avançado de bioengenharia tecidual. O Dr. José Adorno aponta que o tratamento atual envolve a incorporação de enxertos biológicos, pele alógena de banco de tecidos, membrana amniótica e curativos especiais de última geração, além de terapias como a câmara hiperbárica e dietas nutricionais específicas de alta performance cicatricial.

 

Atenção especial aos pequenos 

Quando se trata de crianças e adolescentes, a atenção deve ser ainda maior, já que, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, representam entre 30% e 50% das vítimas de queimaduras graves no país, a quarta causa de morte por acidentes nessa faixa etária no Brasil. A gravidade é justificada por características anatômicas e pela ausência de maturidade para autoproteção. 

"As crianças possuem maior risco de sequelas após queimaduras graves. Primeiro, porque têm uma exposição maior aos agentes de queimadura. O corpo é menor e a pele da criança é fina, a derme tem menos resistência, então se queima mais fácil”, alerta o Dr. Adorno. Por conta dessas particularidades, os cuidados voltados ao público infantil exigem uma conduta diferenciada, com atenção tanto para os aspectos fisiológicos quanto para o suporte psicossocial.

 

Oxigenoterapia hiperbárica 

Quando indicada, a oxigenoterapia hiperbárica (OHB) pode representar um importante recurso complementar no tratamento de queimaduras, contribuindo para melhores resultados clínicos, recuperação mais rápida e redução de sequelas. Por meio do tratamento, o paciente respira oxigênio a 100% em uma câmara pressurizada, sob supervisão de uma equipe especializada. Isso possibilita um aumento significativo da quantidade de oxigênio dissolvido no sangue e nos tecidos, favorecendo processos de cicatrização, combate a infecções e recuperação de áreas com comprometimento vascular. 

No Hospital Santa Lúcia, a terapia é utilizada em diversas condições clínicas reconhecidas pelas sociedades médicas e pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), incluindo queimaduras graves, feridas complexas, pé diabético, lesões por radiação, osteomielite, enxertos e retalhos com risco de perda, infecções necrosantes, síndrome compartimental, intoxicação por monóxido de carbono e outras situações em que a oxigenação tecidual desempenha papel fundamental na recuperação do paciente. 

Nos casos de queimaduras, a oxigenoterapia hiperbárica pode contribuir para a redução do edema, melhora da perfusão dos tecidos, diminuição do processo inflamatório e aceleração da cicatrização, auxiliando na preservação de áreas lesionadas e reduzindo complicações. O Hospital Santa Lúcia é uma das principais referências em medicina de alta complexidade do Centro-Oeste brasileiro e é o único hospital privado do DF que consolidou uma linha de tratamento de queimaduras com um arsenal completo de terapias e equipe especializada.


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