Avanço dos procedimentos ambulatoriais e procura de pacientes com lipedema ampliam as queixas levadas ao consultório. Cirurgião vascular defende avaliação individualizada e distingue o tratamento da doença dos cuidados com pele e contorno corporal.
Durante anos, tratar varizes e vasinhos
esteve no centro da rotina do cirurgião vascular Henrique Abreu. Com a evolução
dos procedimentos, parte dos tratamentos passou a ser realizada em consultório,
com técnicas menos invasivas e recuperação mais rápida. Ao mesmo tempo, ele
percebeu uma mudança nas consultas: pacientes que buscavam tratar as veias
também queriam falar sobre dor, flacidez, celulite e aparência das pernas.
“Demorei a entender que tratar a doença
nem sempre era suficiente. A paciente vinha pelas varizes, mas o que a
incomodava de verdade eram celulite, flacidez, o contorno. E isso não entrava
na consulta vascular tradicional”, relata.
Entre as pacientes que contribuíram
para essa mudança de olhar estão mulheres com lipedema. A condição crônica
provoca acúmulo desproporcional de tecido adiposo, geralmente nas pernas e, em
alguns casos, nos braços, e pode vir acompanhada de dor, sensibilidade ao toque
e facilidade para desenvolver hematomas. Seu cuidado exige avaliação
individualizada e pode envolver diferentes profissionais e medidas clínicas. PMC
Segundo Abreu, algumas dessas mulheres
chegam ao consultório depois de anos atribuindo as alterações nas pernas apenas
ao peso. Durante a avaliação, também relatam incômodos com a pele e o contorno
corporal. Embora possam coexistir, essas queixas precisam ser identificadas separadamente
para que a paciente entenda o objetivo e os limites de cada cuidado.
“Ela começou a chegar cada vez mais ao
consultório, muitas vezes depois de anos ouvindo que o problema era só peso. E
foi essa paciente que me fez perceber que tratar apenas a doença não bastava”,
afirma.
A mudança levou o médico a aprofundar
seus estudos sobre lipedema e a buscar formação em procedimentos voltados à
qualidade da pele e ao contorno das pernas e dos glúteos. Em setembro, ele
concluiu a certificação Legs360, voltada, segundo o cirurgião, a uma abordagem
integrada dessas regiões.
Para Abreu, ampliar a avaliação não
significa tratar condições diferentes como se fossem uma só. “Primeiro a gente
trata o lipedema: desinflama, controla a dor, cuida da parte vascular. Só num
segundo momento a gente avalia e cuida do contorno. Não dá para inverter essa
ordem.” O tratamento do lipedema deve considerar os sintomas e as necessidades
de cada paciente, com medidas clínicas como parte fundamental do cuidado. PMC
Ele também ressalta que um procedimento
para melhorar a aparência da pele não substitui o acompanhamento da doença.
“Tratar celulite não trata lipedema, e vice-versa. O que eu posso oferecer, em
cada uma, é controle e melhora. Prometer perna nova é desonesto e vai contra a
ética médica.”
A proposta, diz o cirurgião, é ouvir o
que levou cada paciente ao consultório, investigar as condições presentes e
discutir possibilidades de cuidado sem perder de vista a saúde vascular. “Hoje
eu não olho mais só para a veia. Eu olho para a perna inteira e para a mulher
que vive nela.”
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