Pedimos ao professor muito mais do que ensinar, mas ainda não redefinimos com clareza o que esperamos dele.
Sou professor. E talvez por isso uma pergunta tenha se
tornado cada vez mais incômoda para mim: afinal, ainda sabemos o que significa
ser professor?
Durante muito tempo, a resposta parecia relativamente
simples. Esperava se desse profissional o domínio de duas grandes dimensões:
conhecer profundamente aquilo que deveria ensinar e saber como ensinar.
Conteúdo e didática.
As duas continuam indispensáveis. Não existe boa educação
sem professores que conheçam sua área e sejam capazes de transformar
conhecimento em aprendizagem.
Mas a escola mudou. Os estudantes mudaram. As famílias
mudaram. A sociedade mudou. E mudou, sobretudo, aquilo que passamos a esperar
do professor.
Nos últimos anos, tenho me dedicado ao estudo da
identidade docente, tema que também ocupa lugar central no meu trabalho mais recente.
Quanto mais aprofundo essa discussão, mais me convenço de que uma das grandes
questões da educação contemporânea é compreender quem é esse professor que a
sociedade passou a exigir.
Identidade docente não é apenas um conjunto de
competências. Envolve a forma como o professor compreende seu papel, a
autonomia que exerce, os saberes que mobiliza, a autoridade que consegue
construir, o reconhecimento que recebe e o sentido que atribui ao próprio
trabalho.
É justamente aí que surge uma contradição.
Ampliamos enormemente aquilo que esperamos do professor,
mas nem sempre ampliamos, na mesma proporção, sua formação, suas condições de
trabalho, o suporte institucional e o reconhecimento profissional.
O professor continua precisando dominar o conteúdo. Mas
conhecer uma área não significa automaticamente saber ensiná la. Lee Shulman,
ao discutir o conhecimento pedagógico do conteúdo, mostrou que o professor não
apenas conhece uma disciplina. Precisa compreender como torná la ensinável e
aprendível.
Hoje, porém, isso já não basta.
Ao entrar em uma sala de aula, o professor não encontra
apenas estudantes que precisam aprender Matemática, Língua Portuguesa, História
ou Ciências. Encontra crianças e jovens com diferentes repertórios, ritmos de
aprendizagem, níveis de atenção, condições emocionais, experiências familiares
e formas de se relacionar com o conhecimento.
Por isso, a docência passou a dialogar de maneira muito
mais intensa com outros campos.
Quem ensina precisa compreender, em alguma medida, como
as pessoas aprendem. Atenção, memória, motivação, conhecimentos prévios e
autorregulação deixaram de ser assuntos distantes da sala de aula.
Precisa também compreender aspectos do desenvolvimento
humano. O aluno não chega à escola apenas com um cérebro esperando conteúdos.
Chega com sua história, suas emoções, seus conflitos e suas relações.
Mas aqui há uma fronteira que precisa ser preservada.
O professor não é psicólogo, médico ou terapeuta. Não
podemos transformar cada problema emocional, familiar ou social de uma criança
em responsabilidade individual do professor.
Reconhecer sinais, acolher adequadamente e saber quando
buscar outros profissionais é muito diferente de assumir funções para as quais
ele não foi formado.
Há também a complexidade das relações.
A sala de aula não é apenas um espaço cognitivo. É também
um espaço social.
Ensinar hoje significa lidar com convivência, conflitos,
inclusão, diferenças, famílias e autoridade.
A própria autoridade docente mudou. Durante muito tempo,
parte dela estava associada à posição ocupada pelo professor. Hoje, precisa ser
construída em um ambiente muito mais horizontal, questionador e complexo.
Não se trata de lamentar essa mudança. Trata se de
compreendê la.
E chegamos à tecnologia.
Durante décadas, o professor ocupou uma posição
privilegiada em relação ao acesso à informação. Hoje, qualquer estudante
carrega no bolso acesso quase ilimitado a conteúdos, explicações, vídeos,
traduções e sistemas de inteligência artificial capazes de produzir textos e
resolver problemas em segundos.
Isso não torna o professor menos necessário.
Mas muda profundamente aquilo que justifica sua presença.
Quando a informação se torna abundante, cresce a importância
da mediação intelectual.
Selecionar, contextualizar, relacionar, interpretar,
questionar.
Ensinar a distinguir informação de conhecimento e
conhecimento de compreensão.
Talvez a inteligência artificial esteja tornando isso
ainda mais evidente: quanto mais as máquinas forem capazes de responder, maior
será a responsabilidade da escola de ensinar os estudantes a perguntar.
Existe ainda uma dimensão frequentemente esquecida. O
professor é um profissional que exerce enorme autonomia.
Diante de uma turma, toma decisões continuamente. Decide
quando avançar, quando retomar, quem precisa de ajuda, quando intervir, como
responder a uma situação inesperada e como reconstruir uma explicação que não
produziu aprendizagem.
Nenhum manual consegue antecipar tudo isso.
Formar um professor, portanto, não significa apenas
transmitir técnicas e procedimentos. Significa desenvolver capacidade
profissional de julgamento.
Maurice Tardif mostrou como os saberes docentes se
constroem a partir de diferentes fontes, inclusive da própria experiência
profissional. A docência é uma profissão de conhecimento, mas também de
decisão.
E talvez esteja aí uma das grandes tensões do nosso
tempo.
Esperamos que o professor produza aprendizagem, trabalhe
com inclusão, compreenda diferenças, dialogue com famílias, lide com conflitos,
utilize novas tecnologias, preserve sua autoridade e responda a situações
humanas cada vez mais complexas.
Mas nem sempre lhe oferecemos tempo para estudar,
formação adequada, espaços efetivos de colaboração e estruturas profissionais
compatíveis com tantas responsabilidades.
Depois nos surpreendemos com a necessidade permanente de
formação.
Haja semana pedagógica.
Talvez estejamos tentando colocar em alguns encontros
aquilo que deveria fazer parte de um verdadeiro sistema de desenvolvimento
profissional ao longo de toda a carreira.
Isso não significa imaginar um professor especialista em
psicologia, neurociência, tecnologia, inclusão, relações familiares e tantos
outros campos.
Seria impossível e injusto.
Precisamos, sim, de um profissional com sólida identidade
docente, profundo domínio de sua área, competência pedagógica e capacidade para
dialogar com outros conhecimentos e outros profissionais.
O professor precisa saber muito sobre algumas coisas e
saber o suficiente sobre outras para reconhecer seus limites e compreender
quando, como e com quem deve dialogar.
E isso exige abandonar definitivamente a imagem do
professor solitário.
Quanto mais complexa se torna a profissão, menos razoável
é esperar que o professor enfrente sozinho essa complexidade.
A resposta precisa ser também institucional.
A escola precisa criar condições para que professores,
coordenadores, gestores, profissionais especializados e famílias componham uma
rede capaz de sustentar o processo educativo.
Não podemos continuar aumentando indefinidamente as
responsabilidades individuais do professor sem discutir as responsabilidades da
própria escola e do sistema educacional.
Talvez esteja justamente aí o centro da discussão
contemporânea sobre identidade docente.
Não basta perguntar o que o professor faz.
Precisamos perguntar quem esse profissional precisa ser
diante de uma escola que mudou profundamente.
E há uma segunda pergunta, igualmente importante: que
condições estamos oferecendo para que ele consiga ser esse profissional?
Por isso, quando alguém pergunta se nossos professores
estão preparados, tenho vontade de fazer outra pergunta antes:
Preparados para quê?
A resposta nos obrigará a rever formação inicial,
desenvolvimento profissional, carreira, organização escolar, trabalho coletivo,
liderança educacional e, sobretudo, as expectativas que a própria sociedade
deposita sobre a escola e sobre quem ensina.
Ser professor hoje é exercer uma profissão situada no
encontro entre conhecimento, aprendizagem, desenvolvimento humano, relações
sociais e tecnologia.
É também exercer uma profissão cuja identidade está sendo
permanentemente reconstruída diante de novas exigências e, muitas vezes, de um
reconhecimento que não cresceu na mesma proporção.
Nenhum professor conseguirá responder sozinho a tudo
isso.
Mas nenhum sistema educacional poderá continuar ignorando
que tudo isso já entrou na sala de aula.
E talvez a pergunta que devamos deixar para a sociedade
seja justamente esta:
Se a profissão mudou tanto, por que ainda insistimos em
formar professores para uma escola que já não existe?
Renato Casagrande
Nenhum comentário:
Postar um comentário