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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Mitos e verdades sobre reprodução assistida

Tratamentos para infertilidade avançaram nas últimas décadas, mas ainda são cercados por dúvidas sobre chances de sucesso, idade, congelamento de óvulos e riscos para o bebê

 

A reprodução assistida deixou de ser um recurso restrito a situações muito específicas e passou a fazer parte da realidade de muitas pessoas que desejam ter filhos. Fertilização in vitro (FIV), inseminação intrauterina, congelamento de óvulos e embriões e outras técnicas ampliaram as possibilidades de formação de uma família, mas também fizeram crescer o número de dúvidas sobre o que realmente funciona, quais são as limitações dos tratamentos e quais expectativas podem ser consideradas realistas. 

Para Dra. Andrea Greico, especialista em Reprodução Humana do Grupo Santa Joana, um dos principais desafios é justamente separar informação científica de expectativas criadas por relatos pessoais ou promessas encontradas nas redes sociais. “A reprodução assistida oferece possibilidades importantes, mas não existe uma técnica capaz de garantir uma gravidez. O tratamento precisa ser individualizado, porque idade, reserva ovariana, qualidade dos gametas, condições do útero, fatores masculinos e histórico reprodutivo interferem diretamente nos resultados”, explica.
 

Fertilização in vitro sempre funciona?

Mito.
A FIV aumenta as possibilidades de gravidez para determinados casos de infertilidade, mas não oferece garantia de sucesso. Durante o processo, nem todos os óvulos coletados serão fertilizados e, entre os embriões formados, apenas parte continuará seu desenvolvimento até o estágio adequado para transferência. Mesmo após a transferência, a implantação e a evolução da gestação dependem de diferentes fatores. Dados da American Society for Reproductive Medicine mostram que, em um ciclo de FIV, há perdas sucessivas entre a quantidade de óvulos coletados, os que são fertilizados, os que chegam ao estágio de blastocisto e aqueles que efetivamente resultam em gestação.
 

Quem faz reprodução assistida pode escolher o sexo do bebê? 

Depende da situação e não deve ser tratado como uma simples escolha.

As técnicas de reprodução assistida permitem, em contextos específicos, a análise genética de embriões antes da transferência, mas os testes genéticos têm indicações médicas próprias. A utilização de técnicas de reprodução assistida não transforma a escolha de características do bebê em um procedimento disponível de forma irrestrita.
 

A FIV aumenta muito o risco de o bebê nascer com problemas de saúde?

Mito.
A FIV é considerada uma técnica estabelecida e, de forma geral, a maioria dos bebês concebidos por esse método nasce saudável. Existem riscos associados ao tratamento e à própria infertilidade, além de fatores como idade e condições clínicas da paciente, que também influenciam os resultados obstétricos. Por isso, não é correto atribuir automaticamente eventuais complicações à técnica de reprodução assistida. 

“É importante diferenciar os riscos relacionados ao tratamento dos riscos relacionados às características da própria paciente. Muitas mulheres que chegam à reprodução assistida já têm uma idade mais avançada ou condições que dificultam a gravidez, e esses fatores precisam ser considerados quando avaliamos os resultados”, afirma Dra. Andrea.
 

Congelar óvulos garante uma gravidez no futuro?

Mito.
A vitrificação de óvulos ampliou as possibilidades de preservação da fertilidade, mas não funciona como um seguro-garantia de maternidade. A idade em que os óvulos são congelados é um dos fatores que influenciam as chances futuras, assim como a quantidade de óvulos obtidos e sua utilização posterior. A técnica é considerada uma alternativa estabelecida de preservação da fertilidade, mas as pacientes precisam ser informadas sobre suas limitações e sobre a possibilidade de que nem todos os óvulos congelados resultem em uma gestação.
 

Quanto mais óvulos forem coletados, maior será a garantia de gravidez?

Mito.
Ter mais óvulos disponíveis pode ampliar as possibilidades de obtenção de embriões, mas quantidade não significa necessariamente qualidade. O envelhecimento reprodutivo, especialmente feminino, está relacionado à redução da qualidade dos óvulos e ao aumento da ocorrência de alterações cromossômicas. Por isso, a estratégia de tratamento precisa considerar o perfil de cada paciente, e não apenas a quantidade de óvulos recuperados.
 

Reprodução assistida é indicada apenas para mulheres?

Mito.
A infertilidade pode estar relacionada a fatores femininos, masculinos ou a uma combinação dos dois. Alterações na produção ou qualidade dos espermatozoides, por exemplo, também podem interferir na capacidade de engravidar. A avaliação do casal ou dos indivíduos envolvidos no projeto parental é importante para identificar a causa e escolher a estratégia mais adequada.
 

A idade deixa de ser importante quando se faz uma FIV? 

Mito.
A reprodução assistida pode contornar algumas dificuldades relacionadas à concepção, mas não elimina os efeitos do envelhecimento dos óvulos. A idade continua sendo um dos fatores mais importantes para os resultados reprodutivos. Por isso, a FIV não deve ser encarada como uma forma de “parar o relógio biológico”. 

“Uma das maiores expectativas que precisamos alinhar com os pacientes é a ideia de que a tecnologia consegue neutralizar completamente os efeitos da idade. Ela amplia as possibilidades, mas não elimina a biologia. Quanto mais cedo identificamos uma dificuldade ou discutimos o planejamento reprodutivo, maior é a possibilidade de tomar decisões de maneira individualizada”, explica a especialista.
 

A inseminação artificial e a fertilização in vitro são a mesma coisa?

Mito.
Embora façam parte da reprodução assistida, são tratamentos diferentes. Na inseminação intrauterina, os espermatozoides preparados são introduzidos no útero no período próximo à ovulação, enquanto na FIV a fecundação ocorre em laboratório e o embrião posteriormente é transferido para o útero. A escolha entre as técnicas depende da causa da infertilidade, idade, exames e histórico de cada paciente.
 

Toda FIV precisa utilizar intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI)?

Mito.
A injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI) consiste na introdução de um único espermatozoide diretamente no óvulo. Apesar de ser uma ferramenta importante em situações específicas, seu uso não é necessariamente indicado para todos os pacientes. Recomendações recentes da ASRM apontam que a utilização rotineira da ICSI em situações sem fator masculino ou histórico de falha de fertilização não demonstrou melhorar as taxas de nascimento em comparação com a fertilização convencional.
 

Quem faz reprodução assistida precisa passar por vários ciclos?

Não necessariamente.
Algumas pessoas conseguem uma gestação no primeiro tratamento, enquanto outras precisam de mais de uma tentativa. A resposta varia conforme idade, diagnóstico, reserva ovariana, qualidade dos gametas, número e qualidade dos embriões e outros fatores. Por isso, não é possível estabelecer previamente quantos ciclos serão necessários para cada paciente. 

Mais do que escolher uma técnica, o acompanhamento especializado permite estabelecer expectativas realistas e avaliar quando determinado tratamento faz sentido. A reprodução assistida não deve ser encarada como uma promessa de resultado, mas como um conjunto de ferramentas que pode ampliar as possibilidades de gravidez diante de diferentes situações. 

“Cada paciente chega com uma história e uma expectativa. Nosso papel é explicar o que a medicina consegue oferecer naquele cenário, quais são as possibilidades e também quais são os limites. Informação de qualidade é parte fundamental do tratamento”, conclui Dra. Andrea Greico.

 

Hospital e Maternidade Santa Joana
www.santajoana.com.br


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