Adaptações na rotina, estímulos e participação nas decisões podem ajudar a manter habilidades e qualidade de vida pelo maior tempo possível
Receber o diagnóstico da doença de
Alzheimer traz mudanças para toda a família, mas não significa que a pessoa
perca imediatamente a capacidade de realizar tarefas, fazer escolhas ou
participar da própria rotina. Especialmente nas fases iniciais, diferentes
habilidades podem permanecer preservadas e devem ser estimuladas, sempre
considerando as condições individuais e a segurança.
O tema ganha ainda mais relevância
diante do rápido envelhecimento da população brasileira. Atualmente, o país
reúne mais de 35 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, faixa etária que já
corresponde a cerca de 16,6% dos brasileiros, segundo dados do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nas próximas décadas, essa
participação deve aumentar significativamente: em 2050, a população 60+ poderá
se aproximar dos 70 milhões e representar quase um em cada três habitantes do
país.
Esse cenário também amplia a atenção
para as demências. Segundo o Relatório Nacional sobre a Demência, publicado
pelo Ministério da Saúde em 2024, cerca de 1,8 milhão de pessoas viviam com
demência no Brasil em 2019. Até 2050, esse número poderá chegar a 5,7 milhões,
um crescimento de aproximadamente 206%.
No Dia Mundial da Doença de Alzheimer,
celebrado em 21 de setembro, o Dr. Tiago Garcia de Oliveira, neurologista
especialista em Distúrbios do Movimento da MedSênior, explica
que um dos desafios após o diagnóstico é encontrar o equilíbrio entre oferecer
o suporte necessário e não retirar precocemente a independência.
“Um diagnóstico de Alzheimer não
significa que, a partir daquele momento, a pessoa se tornou incapaz de fazer
tudo sozinha. A perda de autonomia acontece de maneira progressiva e varia de
uma pessoa para outra. Nas fases iniciais, muitas atividades podem continuar
fazendo parte da rotina. O importante é identificar o que ela ainda consegue
realizar e oferecer ajuda na medida necessária, sem antecipar limitações que
ainda não existem”, explica o neurologista.
Confira seis cuidados que podem ajudar
a preservar a autonomia após o diagnóstico.
1. Mantenha a pessoa participando da
própria rotina
O receio de que algo dê errado pode
fazer com que familiares assumam rapidamente tarefas que a pessoa ainda
consegue executar. Escolher a própria roupa, participar do preparo de uma
refeição, organizar objetos pessoais ou realizar pequenas tarefas domésticas
são exemplos de atividades que podem ser mantidas, desde que sejam seguras.
“Fazer tudo pela pessoa pode parecer
uma forma de cuidado, mas é importante permitir que ela continue utilizando as
habilidades que estão preservadas. A família pode estar por perto, orientar e
ajudar quando necessário, sem necessariamente assumir todas as tarefas”,
orienta o médico.
2. Simplifique antes de eliminar uma
atividade
Quando uma tarefa começa a ficar
difícil, pequenas adaptações podem permitir que ela continue sendo realizada.
Dividir a atividade em etapas, manter horários previsíveis, deixar objetos de
uso frequente nos mesmos lugares e oferecer instruções simples são algumas estratégias.
A ideia é adaptar o dia a dia à medida
que as dificuldades aparecem, em vez de retirar atividades automaticamente.
Manter uma rotina conhecida e organizada também pode facilitar esse processo.
3. Torne a casa uma aliada da
independência
Um ambiente organizado e seguro pode
favorecer a autonomia. Boa iluminação, retirada de obstáculos e tapetes soltos
e manutenção dos objetos de uso frequente em locais conhecidos são adaptações
simples que podem facilitar o cotidiano.
Conforme as dificuldades aumentam,
outros cuidados podem se tornar necessários, como maior atenção ao acesso a
medicamentos, produtos potencialmente perigosos e utensílios que possam
representar riscos.
4. Preserve a atividade física e o
convívio
O diagnóstico não deve significar isolamento.
Caminhadas, exercícios adequados à condição física, encontros com familiares e
amigos, música e outras atividades prazerosas podem continuar fazendo parte do
dia a dia, de acordo com as condições e preferências de cada pessoa.
“A atividade física e o convívio social
ajudam a manter uma rotina ativa e com significado. Sempre que possível, vale
preservar aquilo de que a pessoa já gostava e adaptar a forma de realizar essas
atividades às suas capacidades atuais”, afirma o neurologista.
5. Apoie sem infantilizar
Mesmo quando algumas capacidades
começam a diminuir, é importante incluir a pessoa nas conversas e decisões
sempre que ela tiver condições de participar.
Uma estratégia é simplificar as
escolhas. Em vez de perguntas muito abertas, por exemplo, podem ser
apresentadas duas opções adequadas. Preferências, gostos e hábitos construídos
ao longo da vida também devem ser considerados.
“É importante lembrar que a pessoa
continua tendo uma história, gostos e preferências. A doença não deve apagar isso.
Preservar a autonomia também passa por escutá-la e permitir que participe das
decisões que ainda é capaz de tomar”, destaca.
6. Reconheça quando é hora de aumentar
a supervisão
Preservar a autonomia não significa
ignorar riscos. Episódios recorrentes de desorientação, dificuldades para usar
medicamentos corretamente, acidentes domésticos ou problemas para realizar
atividades cotidianas com segurança podem indicar a necessidade de reavaliar o
nível de supervisão.
“Esse equilíbrio muda ao longo da evolução
da doença. Uma atividade que hoje pode ser realizada de forma independente
talvez exija supervisão no futuro. A ideia não é retirar toda a autonomia
diante da primeira dificuldade, mas também não manter uma independência que já
não seja segura”, explica o especialista.
O acompanhamento médico e
multiprofissional ajuda a identificar essas mudanças e a adaptar os cuidados às
necessidades de cada fase. Mais do que antecipar possíveis perdas futuras, o
cuidado após o diagnóstico também envolve reconhecer e valorizar aquilo que a
pessoa ainda consegue fazer no presente.
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