Ginecologista explica a diferença entre TPM e TDPM, revela os mecanismos biológicos por trás do transtorno e destaca a importância do diagnóstico integrado entre Ginecologia e Psiquiatria
Na discussão sobre
a saúde mental feminina e a prevenção do suicídio, um alerta fundamental sobre
o bem-estar da mulher ganha relevância: a relação entre o ciclo menstrual e o
sofrimento psíquico grave. Frequentemente invisibilizado e rotulado de forma
preconceituosa como "frescura" ou "drama", o Transtorno
Disfórico Pré-Menstrual (TDPM) atinge mulheres em idade fértil e pode provocar
episódios recorrentes de ideação suicida todos os meses.
Para conscientizar
a população sobre a condição, a ginecologista e docente do curso de Medicina da
Unifran, Profa. Dra. Elisabete Lilian, explica como identificar os sinais de
alerta, o que acontece no organismo feminino e como funciona o tratamento que
devolve a qualidade de vida a mais de 90% das pacientes.
TPM comum vs. TDPM: entenda os riscos da ideação suicida cíclica
Enquanto a TPM comum causa desconfortos como inchaço, irritabilidade leve e
vontade de comer doces alguns dias antes da menstruação sem paralisar a rotina,
o TDPM é uma condição médica grave e incapacitante.
"No TDPM, a
mulher enfrenta sintomas tão intensos que não consegue ser ela mesma por 7 a 14
dias todos os meses. Surgem crises de choro, raiva explosiva, ansiedade
sufocante, sensação de perda de controle e, o mais preocupante: tristeza
profunda acompanhada pela sensação de que seria melhor não existir ou vontade
de sumir", alerta a doutora.
A médica reforça
que é justamente nessa repetição cíclica que reside a gravidade da condição.
"Como o TDPM costuma ser invisibilizado, a mulher sofre calada por anos
achando que é 'louca'. Quando os pensamentos suicidas se repetem todo mês sem
acolhimento, o risco aumenta muito. Falar abertamente sobre o TDPM é salvar
vidas, mostrando que esse sofrimento tem nome, causa biológica e tratamento.
Não é fraqueza."
Uma reação química real: por que não é frescura, Bipolaridade ou Borderline?
Por apresentar sintomas como oscilações bruscas de humor e impulsividade, o
TDPM é frequentemente confundido com Transtorno Bipolar ou Borderline. A grande
diferença está no calendário: no TDPM, a alteração ocorre exclusivamente na
fase lútea (segunda metade do ciclo menstrual, após a ovulação) e melhora em
dois a três dias após a chegada da menstruação.
Biologicamente, o problema não é o excesso ou a falta de hormônios, mas a
extrema sensibilidade do cérebro às variações hormonais normais do ciclo:
Queda do 'calmante' natural: na fase lútea, os níveis de
progesterona sobem e depois caem bruscamente. O cérebro converte a progesterona
em alopregnanolona, um neuroesteroide que se conecta aos receptores GABA-A, o
mesmo local onde agem os remédios calmantes (benzodiazepínicos). Quando a taxa
cai, o cérebro da mulher com TDPM entra em uma espécie de
"abstinência".
Queda da serotonina: junto com a variação da
progesterona, a queda do estrogênio reduz os níveis de serotonina, o
neurotransmissor responsável pelo bem-estar e regulação do humor.
Sinais de emergência e como acolher
A especialista da Unifran aponta os principais sinais de alerta de que a dor ultrapassou o limite e exige intervenção imediata:
Ciclo de isolamento e sofrimento: a mulher se transforma
por 1 a 2 semanas no mês, falta ao trabalho, isola-se na cama e entra em
grandes conflitos familiares, voltando ao normal após a menstruação.
Desesperança e frases de alerta: desabafos frequentes
como "não aguento mais ser assim", "sou um peso para todos"
ou "minha família seria melhor sem mim".
Medo de si mesma: a própria paciente relata medo do que
pode fazer contra si durante a fase pré-menstrual.
Uso de substâncias: recorrer ao álcool, automedicação ou
automutilação para aliviar o sofrimento emocional.
"Se você percebe isso em alguém, nunca diga que é 'drama' ou 'só TPM'.
Diga: 'percebo que todo mês nessa época você sofre muito, estou aqui e vamos
buscar ajuda juntos'. Se houver risco iminente ou plano de suicídio, deve-se
procurar um pronto-socorro imediatamente ou ligar para o Centro de Valorização
da Vida (CVV) pelo número 188", orienta a ginecologista.
Tratamento
integrado: Ginecologia + Psiquiatria
Embora não tenha uma cura definitiva, o TDPM pode ser totalmente controlado
quando diagnosticado de forma correta. O sucesso do tratamento exige uma
abordagem multidisciplinar e integrada:
- Ginecologia:
atua para estabilizar a montanha-russa hormonal por meio de esquemas
específicos de anticoncepcionais (com pausa curta ou sem pausa), DIU
hormonal ou outras abordagens que evitem a queda hormonal brusca.
- Psiquiatria
e Psicologia: oferecem suporte neurológico e emocional.
Antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina podem ser
prescritos (por vezes utilizados apenas na segunda metade do ciclo). A
psicoterapia auxilia no manejo dos gatilhos e na reconstrução das relações
afetivas e profissionais desgastadas.
- Estilo
de vida: atividade física regular, manutenção de um
sono regular, redução de álcool e cafeína na fase lútea, além de
suplementação orientada de cálcio, magnésio e vitamina B6.
"Nenhuma
mulher precisa aceitar viver metade da vida se sentindo péssima e a outra
metade carregando culpa por isso. O TDPM é uma condição médica séria que merece
diagnóstico rápido, tratamento e acolhimento", finaliza a Dra. Elisabete.
Unifran
www.unifran.edu.br
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