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Historicamente,
homens foram a principal referência nos estudos cardiovasculares; nas mulheres,
os sinais podem fugir do padrão conhecido
Nem sempre um problema no coração começa com uma
dor forte no peito. Cansaço persistente, falta de ar em atividades que antes
eram fáceis, palpitações ou um desconforto vago no peito também podem indicar
que algo não vai bem. Nas mulheres, esses sintomas muitas vezes são atribuídos
à ansiedade, ao estresse, à sobrecarga da rotina ou a alterações hormonais
antes de serem investigados como possíveis sinais de uma doença cardíaca.
As doenças cardiovasculares são a principal causa
de morte no Brasil, inclusive entre as mulheres, segundo o Ministério da Saúde.
Um posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), publicado em
2025, também chama a atenção para o subdiagnóstico e o subtratamento das
doenças cardiometabólicas femininas. Segundo estimativas da entidade, o número
de mortes de mulheres por infarto é oito vezes maior do que o registrado por
câncer de mama.
“Nas mulheres, nem sempre a doença cardiovascular
se manifesta da forma clássica. Como historicamente os estudos foram feitos com
homens, o padrão mais conhecido acabou sendo o masculino. Hoje sabemos que as
queixas femininas podem ser diferentes, o que faz com que muitas vezes sejam
minimizadas ou atribuídas a outras causas”, explica a cardiologista do Hospital
São Marcelino Champagnat, Carla Okabe.
As diferenças também aparecem após o infarto. Um
estudo desenvolvido por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do
Paraná (PUCPR) com 4.896 pacientes internados pelo Sistema Único de Saúde (SUS)
em Curitiba identificou maior risco de morte após o infarto entre mulheres de
45 a 55 anos do que entre homens da mesma faixa etária.
Sintomas e fatores de risco
passam despercebidos
Na prática clínica, algumas queixas chamam menos
atenção justamente por parecerem comuns: cansaço constante, queda da capacidade
física, falta de ar aos esforços, palpitações, tontura e desconforto no peito.
Quando há dor, ela pode se manifestar de outras formas. Em vez de uma pressão
intensa no peito, pode aparecer como peso ou queimação, além de dor nas costas,
no pescoço, na mandíbula ou nos braços, acompanhada ou não de náusea e suor excessivo.
“O cansaço é um exemplo muito comum. Uma mulher
pode achar que está cansada por trabalhar demais, cuidar da família, estar na
menopausa ou simplesmente por causa da idade. A falta de ar também pode ser
atribuída ao sedentarismo, ao sobrepeso ou à ansiedade. Quando sintomas novos,
persistentes ou diferentes do habitual são naturalizados, a investigação pode
acabar sendo adiada”, alerta a cardiologista.
Além dos sintomas, a história de saúde da mulher
também deve fazer parte da avaliação cardiovascular. Complicações durante a
gestação, como pré-eclâmpsia, eclâmpsia, hipertensão e diabetes gestacionais,
menopausa precoce, doenças autoimunes, síndrome dos ovários policísticos e
alguns tratamentos oncológicos podem ser relevantes para a análise individual do
risco.
“Essas informações fazem parte da história clínica
da paciente e pesam na avaliação do risco cardiovascular. Uma mulher que teve
pré-eclâmpsia, por exemplo, não deve enxergar isso como algo que ficou no
passado. É uma informação que merece ser levada em consideração no
acompanhamento da saúde ao longo da vida”, destaca Carla.
Na menopausa, alterações metabólicas como o aumento
do colesterol, da gordura visceral e da resistência à insulina podem elevar o
risco cardiovascular. Doenças autoimunes também merecem atenção, devido à
relação entre a inflamação crônica e o desenvolvimento da aterosclerose.
A cardiologista chama a atenção ainda para um
comportamento frequente: muitas mulheres priorizam o cuidado com outras pessoas
e deixam o próprio em segundo plano. “As mulheres tendem a minimizar os
sintomas, ou têm suas queixas minimizadas por terceiros, e adiam a investigação
por medo do diagnóstico”, pondera.
Prevenção começa antes dos
sintomas
A avaliação cardiovascular não deve esperar o
aparecimento de sintomas. Histórico familiar de infarto ou AVC, alterações na
pressão, no colesterol ou na glicemia, tabagismo, sedentarismo, ganho de peso e
redução da capacidade física já são motivos para buscar orientação médica.
Mulheres que praticam esportes competitivos ou atividades físicas de alta
intensidade também podem precisar de acompanhamento individualizado.
“Não é preciso esperar um sintoma aparecer para
cuidar do coração. A avaliação preventiva permite olhar para o conjunto de
fatores de risco de cada mulher e identificar alterações que ainda estão
silenciosas. Quanto mais cedo identificamos hipertensão, diabetes ou colesterol
elevado, maior a chance de agir e reduzir riscos no futuro”, afirma a médica,
que integra a equipe do Viva Cardio, programa do Hospital São Marcelino
Champagnat voltado à prevenção e aos cuidados com o coração.
O programa reúne consulta personalizada e exames
laboratoriais e cardiológicos, considerando individualmente os fatores de
risco. A proposta é orientar medidas preventivas e mudanças de hábitos de
acordo com o perfil e o período da vida de cada paciente.
Hospital São Marcelino
Champagnat
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