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Redução da jornada pode exigir contratação, horas extras ou reorganização da operação
A possível adoção de uma
jornada de trabalho de 40 horas semanais, com dois dias de descanso, tem
colocado uma dúvida importante para as empresas: quanto uma mudança para a
escala 5x2 pode aumentar o custo da folha de pagamento? A resposta não cabe em
um único percentual.
Segundo estudo do Ipea
(Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o fim da escala 6x1 elevaria em
7,84% o custo da mão de obra no país. A estimativa considera trabalhadores
formais, contratados pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), e uma
redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial. Na
prática, porém, isso não significa que toda empresa terá um aumento de 7,84% na
folha.
O impacto depende de como cada
negócio vai compensar as horas que deixarão de ser trabalhadas: com contratação
de funcionários, pagamento de horas extras, reorganização de turnos,
redistribuição de tarefas, aumento de produtividade ou até mudança no horário
de funcionamento.
“Esse impacto vai depender
muito da operação. Há empresas que conseguirão reorganizar horários e processos
sem aumentar o quadro. Outras, principalmente as que precisam manter
funcionamento contínuo ou atendimento durante muitos dias e horários, poderão
precisar contratar mais pessoas ou aumentar o volume de horas extras”, explica
Marcel Zangiácomo, advogado trabalhista e sócio do escritório Galvão Villani,
Navarro, Zangiácomo e Bardella Advogados.
5x2 aumenta o custo da hora trabalhada?
O primeiro efeito é matemático.
Se o funcionário passa de 44 para 40 horas semanais, mas continua recebendo o
mesmo salário, a empresa passa a pagar o mesmo valor por uma quantidade menor
de horas trabalhadas.
Imagine, por exemplo, um
funcionário que recebe R$ 2.500 por mês. Na jornada de 44 horas semanais,
considerando o divisor de 220 horas mensais, cada hora trabalhada custa
aproximadamente R$ 11,36.
Se a jornada cair para 40 horas
semanais, com divisor de 200 horas e manutenção do salário de R$ 2.500, o custo
da hora passa para R$ 12,50.
Isso representa um aumento de
aproximadamente 10% no custo da hora trabalhada, mesmo sem qualquer aumento
salarial.
Claudia Securato, advogada
trabalhista e sócia do escritório Securato Advogadas, ressalta, porém, que esse
aumento não deve ser confundido com um aumento automático de 10% na folha.
“O 7,84% é uma estimativa média
para o custo do trabalho, mas não significa que toda empresa terá esse mesmo
aumento na folha. Na prática, isso depende muito da atividade”, afirma.
A diferença está justamente no
que a empresa fará com as horas que deixarão de ser trabalhadas.
Como organizar a escala?
O aumento do custo da hora
trabalhada não significa, necessariamente, que a empresa terá de contratar
novos funcionários. “Antes de pensar em novas contratações, a empresa pode
reorganizar escalas, horários e processos e buscar ganhos de produtividade”,
explica Claudia.
A contratação adicional tende a
ser mais necessária em atividades nas quais existe uma quantidade mínima de
pessoas que precisa estar presente durante todo o período de funcionamento,
avalia Zangiácomo.
“Quanto mais a operação
depender de presença física contínua, maior tende a ser a dificuldade de
absorver a redução da jornada apenas com reorganização”, diz o advogado.
Restaurante precisou contratar, mas reduziu freelancers
A experiência da Hamburgueria
Seven Kings Burgers N’Beers mostra como essa conta pode funcionar na prática.
A empresa tem três lojas e
começou a implementar a escala 5x2 em junho de 2025, na unidade de Moema, em
São Paulo. Em abril de 2026, o modelo chegou aos estabelecimentos de Santos e
Perdizes.
Antes da mudança, Moema já
tinha uma espécie de escala híbrida. Em uma semana, parte da equipe trabalhava
6x1; na outra, parte conseguia ter dois dias de folga. Na época, o restaurante
não abria às segundas-feiras e funcionava em meio período aos domingos, o que
ajudava na organização das folgas.
LEIA
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do comércio paulistano em R$ 2,3 bilhões por ano
Para adotar a escala 5x2 todas
as semanas para todos os funcionários, mantendo a operação ativa de forma
saudável, a rede decidiu começar a abrir também às segundas-feiras.
Na primeira unidade, foi
possível organizar as escalas com a própria equipe, sem elevar a folha de
pagamento. Já nas unidades de Santos e Perdizes, a mudança exigiu novas
contratações para as equipes de cozinha e salão.
LEIA TAMBÉM: Com fim da 6x1, restaurantes esperam
gasto extra com pessoal e alta de até 8% no cardápio
Por outro lado, segundo
Fernando Russell, sócio da Seven Kings, a empresa reduziu o número de
freelancers utilizados nos fins de semana.
Ou seja: o quadro fixo
aumentou, mas uma parte do custo com trabalhadores utilizados pontualmente
diminuiu.
A experiência de Moema também
influenciou a expansão do modelo. Segundo Russell, depois da mudança, o
faturamento e o lucro da unidade aumentaram. Com o resultado considerado
positivo, a empresa levou a escala para as outras duas lojas.
LEIA
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milhões por ano com jornada de 40 horas semanais
Hoje, as folgas são
concentradas entre domingo e quinta-feira, enquanto sexta-feira e sábado, dias
de maior movimento, contam com toda a equipe. A empresa passou a abrir todos os
dias.
O caso mostra que uma mudança
para o 5x2 não precisa necessariamente resultar apenas em aumento de despesas.
Dependendo do negócio, a empresa pode reorganizar a operação, ampliar o período
de funcionamento e gerar receita adicional.
Mas essa possibilidade não
existe para todas as empresas.
Contratar ou pagar horas extras: o que pode sair mais caro?
Quando a reorganização da
operação não é suficiente para compensar a redução da jornada de trabalho,
surge outra decisão: contratar mais pessoas ou manter a equipe atual com horas
extras?
Não existe uma resposta única.
Se a necessidade de trabalho
adicional for pequena ou eventual, as horas extras podem fazer sentido. Mas,
quando a demanda passa a ser permanente e relevante, redimensionar a equipe
pode ser mais econômico e operacionalmente adequado.
“A hora extra pode ser uma
solução mais simples no curto prazo, mas, se passar a ser utilizada de forma
habitual, pode acabar sendo mais cara do que redimensionar a equipe”, explica
Claudia.
Para fazer essa comparação, não
basta olhar apenas para o salário de um novo funcionário. É preciso colocar na
conta os encargos e benefícios dessa contratação e, do outro lado, o custo das
horas extras e seus reflexos.
O que entra no custo de um funcionário?
A conta também não termina no
salário.
Para saber quanto a mudança de
jornada pode representar para a empresa, é preciso considerar o custo total
daquele posto de trabalho.
Entre os itens que devem entrar
na simulação, estão:
- INSS patronal;
- FGTS;
- 13º salário;
- Férias acrescidas de um
terço;
- RAT;
- Contribuições destinadas a
terceiros;
- Benefícios;
- Horas extras;
- Adicionais previstos na legislação;
e
- Adicionais e outras condições
estabelecidas em normas coletivas.
“Não adianta olhar apenas para
o salário do empregado. Para entender o impacto de verdade, é preciso olhar
para o custo total daquele posto de trabalho”, afirma Claudia.
Zangiácomo acrescenta que a
norma coletiva aplicável à categoria também precisa ser considerada. Algumas
atividades podem ter regras específicas para horas extras, trabalho em
determinados dias e outros adicionais.
VR, VT e plano de saúde devem entrar no cálculo
Vale-refeição, vale-transporte,
plano de saúde e outros benefícios também precisam ser considerados.
Alguns custos estão
relacionados diretamente aos dias trabalhados. Se o funcionário passar a
trabalhar um dia a menos, pode haver alguma redução.
Por outro lado, se a empresa
precisar contratar outro trabalhador para cobrir as horas que deixaram de ser
trabalhadas, parte dessa economia pode desaparecer.
“Comparar apenas o salário de
um empregado atual com o salário de uma nova contratação pode levar a uma conclusão
equivocada, porque o custo efetivo da mão de obra é significativamente maior do
que o valor nominal recebido pelo trabalhador”, afirma Zangiácomo.
Plano de saúde, seguro e determinados
benefícios, por exemplo, são normalmente pagos por empregado e não por dia
trabalhado. Assim, uma eventual economia com um trabalhador pode ser superada
pelo custo de uma nova contratação.
Bares e supermercados: domingos e feriados vão pesar nas contas
Empresas que precisam funcionar
aos domingos, feriados ou durante longos períodos da semana tendem a ter mais
dificuldade para absorver a redução da jornada.
É o caso de bares,
restaurantes, supermercados, hotéis, hospitais, empresas de segurança, limpeza,
logística, transporte e determinadas atividades industriais.
“Um restaurante, um
supermercado, um hotel ou uma operação de saúde não consegue simplesmente
deixar de funcionar um dia a mais por semana. É preciso manter a cobertura da
operação”, explica Zangiácomo.
Nesses negócios, menos horas
disponíveis por funcionário podem significar a necessidade de aumentar o número
de pessoas na escala ou utilizar mais horas extras. Além disso, domingos,
feriados, trabalho noturno e determinadas jornadas podem ter regras específicas
previstas em convenções coletivas.
Por isso, uma simulação que
considere apenas o salário pode subestimar o impacto real.
Os setores mais expostos são
aqueles em que a mão de obra representa uma parcela relevante do custo e que
precisam funcionar por muitas horas ou todos os dias da semana, diz Claudia. Já
empresas com maior flexibilidade de horário ou que conseguem obter ganhos de
produtividade com mais facilidade podem ter uma adaptação mais simples.
No setor de alimentação, a
mudança nas escalas já começa a ser testada por redes de restaurantes. Eliane
Barbosa, gestora de RH do Divino Fogão, afirma que a franqueadora recomendou
aos parceiros avaliar alternativas à escala 6x1 diante dos desafios para atrair
e reter profissionais.
A rede, que conta atualmente
com 261 pontos de venda, a maior parte em shopping centers, tem franqueados
testando modelos como 5x2 e 6x1, de acordo com a realidade de cada operação e
equipe. Segundo Eliane, embora a iniciativa ainda esteja em fase de testes, os
primeiros resultados indicam que a flexibilização das escalas pode facilitar a
atração e a contratação de mão de obra, tornando as vagas mais competitivas
para os profissionais.
Como a empresa pode calcular o impacto do 5x2?
A melhor maneira de se preparar
é fazer a simulação antes de alterar a escala.
Na folha de pagamento, a
empresa deve levantar salários, encargos, benefícios, horas extras e
adicionais. Na operação, precisa entender quantas horas o negócio precisa
funcionar, quais são os horários de maior demanda e como as escalas estão
distribuídas atualmente.
A partir daí, pode comparar
diferentes cenários:
- Manter a equipe e reorganizar
a jornada;
- Contratar novos funcionários;
- Aumentar o uso de horas
extras;
- Utilizar mão de obra
complementar em situações específicas;
- Alterar horários de
funcionamento; ou
- Buscar ganhos de
produtividade.
Para Russell, da hamburgueria
Seven Kings, planejamento e transparência com os funcionários são fundamentais.
“Façam muitas simulações para
ter certeza das decisões tomadas”, afirma. Segundo ele, também é importante
acompanhar os efeitos da mudança depois da implementação e corrigir a
estratégia quando necessário.
No fim, portanto, a pergunta
não é simplesmente se a 5x2 aumenta o custo da folha, mas como cada empresa vai
reorganizar sua operação para lidar com uma eventual redução da jornada.
A resposta pode envolver
contratação, horas extras e aumento de custos. Mas também pode passar por
produtividade, redução do uso de mão de obra eventual e mudanças no funcionamento
do negócio. É essa combinação de fatores que determinará o impacto real da
mudança no caixa de cada empresa.
Márcia Rodrigues
https://dcomercio.com.br/publicacao/s/escala-5x2-pode-aumentar-o-custo-da-folha-entenda-o-que-entra-nessa-conta

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