A saúde mental tem sido uma das pautas mais discutidas, e entrou definitivamente na agenda das empresas.
A atualização da NR-1 passou a exigir um
gerenciamento ainda maior dos riscos psicossociais que se relacionam com o
trabalho, enquanto a redução da jornada para 40 horas semanais continua em
discussão no governo. São temas diferentes, mas que se encontram em um ponto
relevante: o tempo e a forma como trabalhamos também impactam a nossa saúde, e
melhorar a relação com o trabalho é uma responsabilidade que precisa ser
compartilhada.
A empresa tem sim um papel fundamental, que é
oferecer um ambiente seguro, combater o assédio, focar no desenvolvimento das
lideranças, receber de forma constante os processos que geram sobrecarga e
buscar melhores formas e eficientes de trabalhar.
Contudo, é importante reconhecer que essa possibilidade
não existe da mesma forma para todos os segmentos ou funções. Onde há espaço
para repensar processos, ferramentas e organização do trabalho, há uma grande
oportunidade de transformação.
Mas, é superimportante colocar em evidência que a
saúde mental de uma pessoa é determinada por muito mais aspectos do que somente
o ambiente profissional. A família, os relacionamentos, a situação financeira,
o sono, o acesso à saúde de qualidade, relações sociais e o próprio ambiente
digital externo
fazem parte. Não seria justo, e nem possível, colocar toda essa
responsabilidade sobre as empresas. O poder público tem seu papel, as famílias
têm o seu e cada pessoa também.
Melhorar a própria rotina também pode ser uma
escolha. Não porque o colaborador tenha culpa ou porque seja o único
responsável pelo que o adoece, mas porque ele tem poder de participar da transformação
do ambiente de trabalho. E,
novamente, isso precisa ser entendido dentro da realidade de cada profissão e
de cada atividade. Nem sempre será possível eliminar uma tarefa, reduzir seu
tempo ou substituí-la por uma tecnologia.
Entretanto, quando existe essa possibilidade,
refletir sobre isso poderá fazer a diferença. Identificar uma tarefa que consome
tempo desnecessário, questionar um processo que não está funcionando bem,
sugerir a implementação de uma ferramenta ou propor uma melhoria não é apenas
ajudar a empresa. É também cuidar do próprio tempo, da própria energia e da
própria rotina. E não é porque o colaborador tenha culpa. Ele não tem. Mas é
porque ele tem o poder de transformar.
Falar sobre a redução de jornada para 40 horas
torna-se ainda mais interessante, pois essa redução pode significar mais tempo
para a vida pessoal, para o descanso, para a família e para os cuidados
individuais. E, consequentemente, contribuir para um equilibro maior. Mas, essa
redução precisa vir acompanhada de produtividade e inteligência na organização
do trabalho. As empresas que não se atualizarem para isso e não oferecerem
condições de os colaboradores melhorarem os processos, sofrerão demais com esse
grande movimento.
Isso não significa que todos os trabalhos poderão
responder a esse movimento da mesma forma. Em algumas atividades, os limites
são impostos pela própria natureza da operação. Nós nunca tivemos tantas ferramentas
para pensar nas melhorias de processos internos. A inteligência artificial pode
automatizar tarefas repetitivas, simplificar processos e devolver para as
pessoas parte do tempo que hoje pode estar sendo consumido por atividades que
poderiam ser feitas de outra forma.
Para os segmentos em que essas possibilidades
existem, esse é um momento especialmente importante para repensar como o
trabalho é organizado.
Afinal, trabalhar menos horas não precisa significar produzir menos – pode
significar aprender a trabalhar melhor.
Talvez essa seja a principal reflexão que a nova
realidade do trabalho nos traz: a saúde mental não é responsabilidade exclusiva
de ninguém, é uma construção coletiva. A empresa precisa fazer a sua parte, mas
também precisa ouvir quem está na rotina do dia a dia e abrir espaço para que
as pessoas participem de melhorias. O profissional precisa cuidar de si e
reconhecer os seus limites. As famílias, a sociedade e o poder público também
precisam assumir seus papéis. E todos nós precisamos repensar a forma
como estamos trabalhando e vivendo.
A tecnologia já está transformando o trabalho há
muito tempo. A questão agora não é se vamos utilizá-la, mas para que vamos
utilizá-la. Se a IA e tantas outras ferramentas podem nos ajudar a produzir
mais, melhor e em menos tempo, talvez o verdadeiro ganho de todas essas transformações
não esteja somente numa redução de jornada, mas principalmente na oportunidade
de construirmos melhores relações pessoais dentro e fora das empresas,
ambientes cada vez mais saudáveis e, por fim, atingir o tão discutido
equilíbrio de vida.
PKF BSP
www.pkfbrazil.com.br
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