Publicado na revista científica Maturitas, pesquisa clínica mostrou que o uso contínuo de hidratante vaginal foi superior ao lubrificante na melhora da saúde vaginal de mulheres na pós menopausa que realizaram tratamento para o câncer de mama
Mulheres tratadas do câncer de mama não precisam conviver com sintomas como ressecamento, ardor, irritação e dor na região da vulva e vagina. A pesquisa brasileira publicada na revista científica Maturitas revelou que o uso de hidratante vaginal melhorou a saúde vaginal e foi mais eficaz do que o uso de um lubrificante na redução desses sintomas. O estudo foi conduzido pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) com apoio do Programa de Incentivo à Pesquisa (PIP), da Libbs Farmacêutica.¹
A pesquisa acompanhou, durante 16 semanas, 100 mulheres com idade entre 45 e 65 anos, na pós-menopausa, que haviam concluído o tratamento do câncer de mama (estádios I a III) e apresentavam sintomas vaginais como o ressecamento e a dor durante a relação sexual. As participantes foram divididas em dois grupos: um utilizou hidratante vaginal não hormonal três vezes por semana e o outro utilizou um lubrificante vaginal durante as relações sexuais.¹
Ao final do acompanhamento, o grupo que utilizou o hidratante apresentou eficácia superior no alívio dos sintomas quando comparado as mulheres que utilizaram apenas lubrificante vaginal. Foi observada melhora no Índice de Saúde Vaginal (VHI), uma avaliação clínica que considera aspectos como elasticidade, hidratação e condições da mucosa vaginal. O estudo identificou ainda melhora do pH vaginal, alta adesão ao tratamento e ausência de eventos adversos graves durante o período avaliado.¹
Um dos indicadores analisados na pesquisa, relacionado às alterações celulares da mucosa vaginal influenciadas pelo estrogênio, o Índice de Maturação Vaginal, não apresentou mudança significativa. Segundo os pesquisadores, esse resultado era esperado, uma vez que o hidratante utilizado não contém hormônios e, portanto, não atua diretamente sobre esse parâmetro.¹
"Os sintomas vaginais após o tratamento do câncer de mama são pouco discutidos, apesar do impacto que podem causar na qualidade de vida e na saúde vaginal e sexual das mulheres com câncer de mama. Nosso estudo mostra que uma abordagem não hormonal pode melhorar as condições vaginais e oferecer uma alternativa importante para pacientes que apresentam queixas vaginais, vulvares e sexuais", afirma Eliana Aguiar Petri Nahas, Professora Titular da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp), membro da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e membro da Diretoria da Associação Brasileira de Climatério (Sobrac).
O
estudo foi idealizado e conduzido pela equipe de pesquisadores da Faculdade de
Medicina de Botucatu-Unesp sobre a orientação das professoras Eliana e Heloisa
De Luca Vespoli, responsável pelo Centro de Avaliação em Mastologia, além da
participação da Dra. Carolina Vitorino e da Dra. Barbara Martin.
Entender a diferença faz parte do cuidado
A síndrome geniturinária da menopausa, condição que reúne sintomas como ressecamento vaginal, irritação, ardor e dor durante a relação sexual, é frequente entre mulheres tratadas do câncer de mama.²˒³ Isso ocorre porque muitas pacientes são submetidas a terapias que reduzem os níveis de estrogênio, favorecendo o surgimento desses sintomas. Nesse contexto, estratégias não hormonais ganham relevância por oferecerem uma opção segura para manter a região vulvovaginal saudável e aliviar esses desconfortos, especialmente entre mulheres que não podem ou não desejam utilizar terapias hormonais.²˒⁴
Embora muitas vezes sejam tratados como equivalentes, lubrificantes e hidratantes vaginais desempenham funções diferentes. O lubrificante atua principalmente durante a relação sexual, reduzindo o atrito e proporcionando alívio imediato, mas não trata o ressecamento. Por outro lado, o hidratante vaginal é utilizado de forma contínua e contribui para melhorar as condições da mucosa vaginal, favorecendo a hidratação do tecido e a manutenção da saúde vaginal.⁵
"É
importante diferenciar essas duas abordagens. O lubrificante tem um papel
importante no momento da relação sexual, enquanto o hidratante atua no cuidado
contínuo da saúde vaginal. São estratégias complementares, com funções
distintas, e pequenas intervenções podem fazer uma grande diferença para o
bem-estar dessas mulheres", explica a pesquisadora.
Nova etapa da pesquisa será apresentada na SOGESP
Além dos resultados já publicados, a equipe de pesquisa também avaliou o impacto do hidratante vaginal na função sexual das participantes. Essa etapa do estudo aguarda publicação científica, mas será apresentado no 31º Congresso da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (SOGESP), realizado entre os dias 20 e 22 de agosto, em São Paulo. O trabalho foi selecionado entre os cinco melhores do congresso e concorrerá à premiação durante o evento, considerado um dos principais encontros da especialidade na América Latina.
Os resultados preliminares indicam melhora da função sexual nos dois grupos avaliados. No entanto, as mulheres que utilizaram o hidratante relataram maior sensação de lubrificação, reforçando que hidratantes e lubrificantes possuem funções diferentes e complementares.
“Pequenas
intervenções podem fazer uma grande diferença. Um cuidado simples pode devolver
conforto, reduzir sintomas e ajudar a mulher a recuperar seu bem-estar depois
do tratamento do câncer de mama”, acrescenta Eliana Nahas.
Apoio e incentivo à pesquisa científica
O estudo foi desenvolvido com apoio do Programa de Incentivo à Pesquisa (PIP), idealizado pela Libbs Farmacêutica com o objetivo de apoiar pesquisas de iniciativa do investigador conduzidas por pesquisadores brasileiros na população brasileira. O programa oferece apoio científico, com auxílio financeiro, doação de medicamentos e apoio técnico especializado, contribuindo para o desenvolvimento de pesquisas voltadas às necessidades médicas da população.
Atualmente,
14 estudos estão sendo apoiados pelo Programa PIP nas áreas de oncologia,
hematologia, nefrologia, neurologia, ginecologia, cardiologia e reumatologia.
Parágrafos
não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do autor.
Esta
divulgação tem caráter exclusivamente científico e informativo. O conteúdo
apresentado não substitui orientações específicas de profissionais de saúde.
Fontes:
- Martin BC, VItorino CN, Souza R, Medolago N, Nahas GP,
Carvalho-Pessoa E, Vespoli HL, Nahas EAP. Effect of a non-hormonal vaginal
moisturizer on vaginal and vulvar health in postmenopausal women with
breast cancer: A randomized clinical trial.Maturitas. 2026; 207:108880.
- Lubián López DM. Management of genitourinary syndrome of menopause
in breast cancer survivors: An update. World J Clin Oncol.
2022;13(2):71-100.
- Pearson A, et al. Genitourinary symptoms in women with breast
cancer. Climacteric. 2025.
- Cucciniello M, et al. Therapeutic options for genitourinary
syndrome of menopause in breast cancer survivors. Cancers (Basel).
2024.
- Potter J, Panay N. Vaginal lubricants and moisturizers: a review
into use, efficacy, and safety. Climacteric. 2020;23(1):19-24.
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