Dor nas pernas que não passa, pernas e coxas desproporcionais ao
restante do corpo, um inchaço que piora ao longo do dia e a sensação de que
"nenhuma dieta funciona" ali. Para milhões de mulheres, essa é a
rotina de conviver com o lipedema, uma doença crônica ainda pouco reconhecida,
mesmo sendo bem mais comum do que se imagina.
Um levantamento inédito no Brasil, conduzido pelo Instituto Amato,
estimou que o lipedema tem prevalência de 12,3% na população feminina, o que
corresponde a cerca de 8,8 milhões de mulheres no país. O mesmo estudo revelou
outro dado importante para desfazer um mito comum: o IMC médio das mulheres com
lipedema era de apenas 27 kg/m², ou seja, sobrepeso leve, e não obesidade. E
quase todas relatam o mesmo sintoma: 90,3% das mulheres com lipedema sentem dor
nas pernas.
"O prato não cura o lipedema"
Para a nutricionista Alice Paiva, essa é a primeira confusão que
precisa ser desfeita: nenhum alimento, por si só, reverte o acúmulo de gordura
característico do lipedema. "O prato não cura o lipedema. Mas é o que você
controla todo dia", resume.
Segundo ela, o papel real da alimentação está em outro lugar:
reduzir a inflamação crônica que agrava a dor e o inchaço, e apoiar o corpo a
lidar melhor com a retenção de líquido que costuma acompanhar o quadro.
Comece pelo padrão, não por regras
A recomendação inicial de Alice não é uma lista de proibições, mas
um padrão alimentar. "A dieta mediterrânea é o padrão alimentar mais
anti-inflamatório que existe: muito vegetal, azeite, peixe, fruta e quase nada
de ultraprocessado. Pra quem tem lipedema, isso tende a reduzir a inflamação, o
inchaço e a dor que acompanham o quadro, sem a restrição extrema que não se
sustenta", explica.
A partir desse padrão, alguns grupos de alimentos merecem atenção
especial:
Ômega-3 para reduzir a dor. Peixes como salmão, sardinha e cavala
ajudam a baixar a inflamação que deixa o lipedema dolorido. A recomendação é
mirar em 2 a 3 porções por semana; nos dias sem peixe, chia e linhaça ajudam a
completar.
Cor no prato como proteção. Morango, mirtilo, amora e uva roxa
carregam antocianinas, antioxidantes que ajudam a proteger os pequenos vasos
sanguíneos. Beterraba e cenoura entram pela mesma lógica: o pigmento é o
antioxidante.
Folhas verde-escuras todo dia. Couve, rúcula, brócolis e espinafre
trazem fibra, magnésio e compostos que apoiam o fígado a lidar com o excesso de
estrogênio, fator que tende a piorar o lipedema. A orientação é preencher
metade do prato no almoço e no jantar com esse grupo.
O que desincha também é comida. Pepino, melancia, aipo e água de coco
são ricos em água e potássio, que ajudam a equilibrar o sódio e a reter menos
líquido. Ao mesmo tempo, cortar o ultraprocessado, onde o sódio costuma se
esconder, faz parte do mesmo cuidado.
Tempero com intenção. Cúrcuma e gengibre têm compostos anti-inflamatórios reais,
mas a cúrcuma precisa de uma pitada de pimenta preta para ser bem absorvida
pelo organismo. Cerca de uma colher de chá ao longo do dia, na comida ou no
chá, já é suficiente.
Controle diário, não cura definitiva
Para Alice, entender essa diferença muda a relação de quem tem
lipedema com o próprio corpo. A alimentação não promete reverter a condição,
mas oferece algo que a paciente controla todos os dias: menos inflamação, menos
dor e menos inchaço.
"Não é sobre
uma solução mágica. É sobre organizar os estímulos que você tem nas mãos, todos
os dias, para dar ao corpo o suporte que ele precisa", completa a
nutricionista.
Nenhum comentário:
Postar um comentário