Avanço da mobilidade elétrica no Brasil faz infraestrutura de recarga ganhar espaço no planejamento de novos empreendimentos e nas assembleias condominiais
A rápida expansão dos veículos eletrificados
no Brasil começa a provocar mudanças também no mercado imobiliário. Com mais carros
elétricos e híbridos circulando nas ruas, condomínios residenciais passam a
discutir uma nova demanda nas garagens: a instalação de pontos de recarga
capazes de atender aos moradores sem comprometer a segurança da rede elétrica
ou gerar conflitos sobre custos.
O movimento ganhou força em 2026. Segundo
dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), 215.023
veículos leves eletrificados foram emplacados no Brasil entre janeiro e junho,
número 125% superior às 95.493 unidades registradas no mesmo período de 2025.
Com o resultado, os eletrificados passaram a representar 16% das
vendas de veículos leves no primeiro semestre. Em junho, a
participação chegou a 18,3%, com 47.579 unidades comercializadas, recorde
mensal do segmento.
O crescimento também vem acompanhado de uma
maior variedade de modelos disponíveis no mercado brasileiro. A oferta passou
de 294 opções de veículos eletrificados no primeiro semestre de 2025 para 350
modelos no mesmo período de 2026, ampliando as alternativas
para consumidores e acelerando a presença da tecnologia no cotidiano.
Para Karol Freitas, CEO da Gestart Condomínios,
esse avanço começa a transformar a infraestrutura das garagens em uma questão
cada vez mais presente na rotina de síndicos e moradores.
“À medida que os veículos eletrificados se
tornam mais acessíveis e ganham espaço no mercado, essa demanda inevitavelmente
chega aos condomínios. O que antes era uma necessidade pontual de poucos
moradores tende a se tornar uma questão de infraestrutura e planejamento para
os edifícios”, afirma.
Nos condomínios novos, a tendência é que a
infraestrutura seja considerada ainda na fase de projeto. A preparação pode
envolver a previsão de pontos de recarga nas garagens, dimensionamento adequado
da instalação elétrica e sistemas capazes de individualizar o consumo de cada
unidade.
“Quando a infraestrutura é pensada desde o
início, o condomínio consegue estabelecer regras mais claras e evitar
adaptações feitas às pressas no futuro. É importante que a questão esteja
prevista no planejamento do empreendimento e que os moradores saibam como será
feita a utilização dos equipamentos”, explica Karol.
Já nos edifícios existentes, a instalação de
carregadores exige uma avaliação técnica e uma discussão entre os moradores. A
capacidade da rede elétrica, a necessidade de adequações, o local de instalação
e a forma de cobrança pelo consumo são alguns dos pontos que precisam ser
analisados antes da implantação.
“Não basta simplesmente colocar uma tomada na
garagem. O condomínio precisa avaliar a estrutura disponível e definir, de
forma transparente, quem poderá utilizar o equipamento, como será feita a
medição do consumo e quem ficará responsável pelos custos. É uma decisão que
precisa ser planejada e formalizada”, destaca.
Outro ponto de discussão é a definição de
quem deve arcar com os custos. Quando a instalação atende exclusivamente a um
morador, é importante estabelecer uma solução que permita individualizar tanto
o consumo quanto, quando aplicável, os custos relacionados à instalação. Já
equipamentos de uso coletivo podem envolver despesas compartilhadas, conforme
as regras e deliberações do condomínio.
Para Karol, a questão tende a aparecer com
mais frequência nas assembleias condominiais à medida que a frota eletrificada
aumenta.
“É natural que alguns moradores questionem um
investimento que inicialmente beneficia poucas pessoas. Por isso, o diálogo e a
transparência são fundamentais. O condomínio precisa encontrar uma solução que
atenda à demanda de quem possui um veículo eletrificado sem transferir
indevidamente custos para quem não utiliza o serviço”, avalia.
O avanço das vendas reforça essa perspectiva.
Em 2025, o mercado brasileiro encerrou o ano com 223.912
veículos leves eletrificados vendidos, crescimento de 26% em
relação a 2024. O resultado representou um novo recorde histórico para o
segmento.
Além dos impactos na infraestrutura, a
preparação para veículos eletrificados pode se tornar um atributo valorizado
nos novos empreendimentos. Para incorporadoras, oferecer uma garagem preparada
para a instalação de carregadores pode representar uma vantagem diante de
consumidores que já consideram a mobilidade elétrica na decisão de compra de um
imóvel.
“Os condomínios estão acompanhando mudanças
no comportamento dos consumidores. Assim como outras tecnologias passaram a
fazer parte da estrutura esperada em novos empreendimentos, a possibilidade de
recarga de veículos tende a ganhar importância. Quem se antecipa consegue
planejar melhor e evitar conflitos quando a demanda aumentar”, afirma Karol.
A recomendação para quem já possui ou
pretende comprar um veículo eletrificado e mora em condomínio é verificar
previamente se existe estrutura disponível para recarga. Caso não exista, o
ideal é apresentar a demanda à administração e discutir o tema formalmente, com
avaliação técnica e definição das responsabilidades.
“Antes de comprar um veículo eletrificado, o
morador deve saber como funciona a recarga dentro do condomínio. Se não houver
estrutura, é importante levar o assunto à administração e à assembleia. Quanto
mais organizado for esse processo, menores serão as chances de problemas
futuros”, conclui Karol.
Nenhum comentário:
Postar um comentário