Nutrição materna, prevenção de anemia e infecções, vacinação, escolha da via de parto, apoio emocional e acompanhamento no puerpério fazem parte de uma rede de cuidado que pode impactar o desenvolvimento da criança ao longo da vida
Para a ginecologista Dra. Eliana Martorano Amaral, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência Pré-Natal da FEBRASGO — Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, a atenção à nutrição materna, o combate à anemia e a prevenção e tratamento de infecções estão entre as principais intervenções durante a gravidez - e contribuem para reduzir riscos, como o nascimento prematuro. “Quando a gravidez é compreendida como um evento positivo na vida da mulher, e ela está bem nutrida e amparada durante o pré-natal e o parto, as condições de desenvolvimento do bebê são melhores. O suporte à mulher nesse período é fundamental”, diz.
A via de
parto também deve fazer parte das orientações oferecidas
durante o pré-natal. “Atualmente, há evidências de que a via de nascimento pode
ter relação com aspectos da saúde da criança ao longo da vida, especialmente no
que diz respeito ao risco de doenças imunológicas e metabólicas. Ao nascer por
via vaginal, por exemplo, a criança entra em contato com bactérias que ajudam a
colonizar seu trato gastrointestinal, incluindo estômago e intestino”, comenta
Dra. Eliana.
A especialista
também ressalta a importância da vacinação durante a
gestação, incluindo a vacina contra o vírus sincicial respiratório, que
contribui para proteger a criança nos primeiros meses de vida, fase em que o
bebê está mais vulnerável a infecções respiratórias.
A saúde
física e emocional da gestante interfere diretamente no
desenvolvimento do bebê, tanto durante a gravidez quanto após o nascimento. No
primeiro ano de vida, em especial, crescer em um ambiente seguro é fundamental
para o desenvolvimento neuropsicológico da criança.
Para que os
primeiros 1.000 dias sejam tratados como prioridade de saúde pública, Dra.
Eliana defende o investimento contínuo na formação dos profissionais. “Esse
cuidado não deve ser exclusivamente médico. Trata-se de uma assistência
multiprofissional, que envolve educação em saúde, aspectos nutricionais,
acompanhamento clínico adequado, orientações fisioterápicas e odontológicas. Entre
os exemplos estão a preparação e fortalecimento dos músculos do períneo,
independentemente da via de parto, e os cuidados com a saúde gengival durante a
gestação, que podem contribuir para reduzir o parto prematuro”, explica.
Esse olhar
ampliado também vale para o aleitamento materno. A amamentação,
embora fundamental, nem sempre é um processo simples. “Por isso, é importante
que diferentes profissionais de saúde, com destaque para a equipe de
enfermagem, estejam disponíveis para orientar e acompanhar essa mulher. As
visitas domiciliares têm papel relevante, especialmente na primeira e na
segunda semana de vida do bebê”, diz Dra. Eliana.
A ginecologista
destaca que, como sociedade, ainda é preciso ampliar a compreensão sobre a
importância do cuidado qualificado ao longo de todo esse período. Para que
alimentação, vacinação, aleitamento e vínculo se transformem em cuidado real, e
não apenas em orientação, é necessário acompanhamento contínuo.
“Na rotina do
pré-natal, os profissionais devem contar com protocolos bem estabelecidos e
checklists que incluam alimentação, vacinação e outros pontos essenciais do
cuidado. Esses protocolos precisam estar visíveis nos serviços de saúde,
inclusive impressos e disponíveis em consultórios, mesas e paredes, para orientar
não apenas os profissionais, mas também as mulheres, seus familiares e
acompanhantes. A informação clara ajuda a reforçar a importância dessas
medidas”, afirma a médica da FEBRASGO.
Nos 1.000
primeiros dias deve haver orientação sobre o futuro reprodutivo e o
planejamento de uma próxima gestação. “A recomendação é que haja intervalo
mínimo de dois anos entre um parto e outro. Esse tempo é importante para que a
mãe se recupere física e psiquicamente e possa dedicar atenção à primeira
criança nestes anos de ouro, antes da chegada de um outro filho”, alerta a
obstetra.
Para a Dra.
Eliana, a gestação, parto e puerpério devem ser compreendidos como
responsabilidade de toda a sociedade. Não se trata de colocar sobre a mulher
todo o peso do bom cuidado, mas de envolver todos ao seu redor: equipe de
saúde, familiares, parcerias e pessoas próximas. O objetivo é garantir que mãe
e criança vivenciem os primeiros 1.000 dias com a melhor qualidade possível, em
um ambiente de cuidado, segurança, apoio e responsabilidade compartilhada”,
finaliza a especialista da FEBRASGO.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia - FEBRASGO
Comprometida com o pleno respeito à saúde e bem-estar das mulheres, a FEBRASGO lidera a Campanha #EuVejoVocê – Pelo fim da violência contra a mulher, em todas as fases da vida, incluindo a mulher médica em exercício. O objetivo é o de desconstruir discursos que sustentam a violência, promovendo uma reflexão constante sobre o tema e, assim, atuar ativamente no combate à violência contra a mulher.
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