De "ele vai falar quando estiver pronto" a "quem olha nos olhos não pode estar no espectro", especialista explica por que tantas crenças ainda fazem pais adiarem a busca por avaliação e reforça a importância de observar o desenvolvimento infantil sem comparações.
Poucas
situações geram tanta ansiedade para uma família quanto perceber que o
desenvolvimento do filho parece seguir um caminho diferente do esperado. Em
muitos casos, a primeira reação é buscar respostas na internet, conversar com
amigos ou ouvir a opinião de parentes. É justamente nesse momento que surgem
frases que passam de geração em geração e, muitas vezes, acabam atrasando a
procura por uma avaliação especializada.
"É
muito comum recebermos famílias que passaram meses, às vezes anos, ouvindo que
era apenas uma fase, que cada criança tem o seu tempo ou que o filho era apenas
mais quieto. O desenvolvimento infantil realmente não acontece de forma igual
para todas as crianças, mas existem sinais que merecem atenção e não devem ser
ignorados", explica Marcela Oliveira, diretora da Clínica Follow Kids e
fundadora do NEPEN-RJ (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Neurodesenvolvimento).
Ela
conta que uma das maiores dificuldades é que muitas pessoas ainda imaginam a
partir de um único perfil.
"Hoje
sabemos que o espectro é muito amplo. Existem crianças que falam bastante,
outras que demoram mais para desenvolver a linguagem. Algumas gostam de brincar
com outras crianças, outras preferem atividades mais solitárias. Há quem tenha
hipersensibilidade a sons e quem não apresente essa característica. Não existe
um único jeito de ser autista."
Segundo
Marcela, isso faz com que muitas famílias descartem a possibilidade de um
transtorno do espectro autista porque o filho não apresenta um comportamento
específico que elas acreditavam ser obrigatório.
Outro
ponto que costuma gerar insegurança é o medo do diagnóstico.
"Muitos
pais chegam dizendo que têm receio de colocar um rótulo na criança. Eu costumo
explicar que o diagnóstico não muda quem ela é. Ele apenas ajuda a entender
quais são suas necessidades e quais estratégias podem favorecer o
desenvolvimento. Quanto mais cedo isso acontece, maiores são as oportunidades
de intervenção."
Ela
lembra que procurar uma avaliação também não significa, necessariamente,
confirmar um diagnóstico.
"Nem
toda criança que demora para falar está no espectro. Nem toda criança agitada
tem TDAH. Nem toda dificuldade social significa autismo. O papel da avaliação é
justamente diferenciar essas situações e orientar a família."
Para
a especialista, o mais importante é substituir a comparação pela observação.
"Os
pais conhecem seus filhos melhor do que qualquer outra pessoa. Quando alguma
coisa chama atenção de forma persistente, vale conversar com o pediatra ou
procurar uma equipe especializada. Na maioria das vezes, a família não está
exagerando. Ela simplesmente percebeu que aquele desenvolvimento merece um
olhar mais cuidadoso."
Mitos e verdades sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA)
"Meu filho olha nos olhos. Então ele não pode ter TEA."
Mito. O contato visual
varia muito entre as pessoas no espectro. Algumas evitam olhar diretamente,
outras mantêm contato visual normalmente. O diagnóstico nunca é definido por
uma única característica.
"Quem fala bem não pode ter TEA."
Mito. Existem crianças,
adolescentes e adultos com TEA que desenvolvem linguagem verbal e conseguem
manter conversas normalmente. As diferenças podem aparecer na forma como se
comunicam, interpretam situações sociais ou interagem com outras pessoas.
"Toda criança que demora para falar tem TEA."
Mito. O atraso de
linguagem pode estar relacionado a diferentes fatores e precisa ser
investigado. O TEA é apenas uma das possibilidades.
"Quanto mais cedo a criança é avaliada, maiores costumam ser as
oportunidades de desenvolvimento."
Verdade. A identificação
precoce permite iniciar intervenções quando elas tendem a trazer melhores
resultados para a criança e sua família.
"Uma criança com TEA pode apresentar outras condições do
neurodesenvolvimento."
Verdade. É relativamente
comum que o TEA esteja associado ao TDAH, às altas habilidades/superdotação,
aos transtornos de ansiedade e a outras condições. Cada caso precisa ser
avaliado individualmente.
"Meninas também podem ter TEA."
Verdade. Muitas meninas
recebem o diagnóstico mais tarde porque costumam apresentar características
diferentes das observadas em meninos e, em alguns casos, desenvolvem
estratégias para mascarar dificuldades sociais.
"Procurar um especialista significa que meu filho receberá um
diagnóstico."
Mito. A avaliação
existe justamente para compreender o desenvolvimento da criança. Em muitos
casos, ela descarta hipóteses e tranquiliza a família. Quando há um
diagnóstico, ele serve para orientar o acompanhamento mais adequado.
O mais importante não é o diagnóstico. É a oportunidade de compreender a
criança.
Marcela
acredita que a principal mudança dos últimos anos foi a forma como as famílias
passaram a enxergar o desenvolvimento infantil. Se antes a procura por ajuda
acontecia apenas quando as dificuldades já estavam muito evidentes, hoje muitos
pais buscam orientação diante dos primeiros sinais, o que amplia as
possibilidades de acompanhamento.
"O
diagnóstico nunca deve ser visto como um ponto final. Ele é um ponto de partida
para que a criança receba o suporte de que precisa e possa desenvolver todo o
seu potencial. Cada criança tem uma trajetória única e merece ser compreendida
a partir das suas capacidades, das suas dificuldades e da forma como aprende a
se relacionar com o mundo."
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