Pesquisa do Pandapé mostra que oito em cada dez RHs registraram desistências em processos seletivos e que parte dos abandonos ocorre até depois da aceitação da proposta
Receber outra proposta de trabalho é hoje o principal
motivo para a desistência de candidatos durante processos seletivos. Pesquisa
realizada pelo Pandapé com profissionais e gestores de Recursos Humanos mostra
que 42,9% atribuem os abandonos à aceitação de uma oportunidade concorrente.
O resultado aparece com ampla distância em relação aos demais
fatores. Salário abaixo da expectativa foi indicado por 14,3% dos respondentes,
enquanto o modelo de trabalho — presencial, híbrido ou remoto — foi mencionado
por 13%. A falta de aderência entre o perfil do candidato e a vaga aparece com
10,3%, e benefícios pouco atrativos, com 9,4%.
Os dados mostram que a desistência de candidatos faz parte da
rotina da maioria das organizações. Nos 12 meses anteriores ao levantamento,
28,4% das empresas registraram abandonos com frequência e 50,2%,
ocasionalmente. Somados, 78,7% dos profissionais de RH relataram ter enfrentado
esse tipo de situação. Apenas 2,2% disseram nunca ter registrado desistências.
Para Ana Paula Prado, CEO da Redarbor Brasil, detentora do
Pandapé, o cenário mostra que as empresas já não disputam apenas a atenção do
candidato no início do recrutamento, mas precisam manter seu interesse ao longo
de todo o processo.
"Durante muito tempo, o desafio era atrair candidatos para
uma vaga. Hoje, muitos profissionais participam de vários processos ao mesmo
tempo e avaliam diferentes oportunidades antes de tomar uma decisão. Por isso,
não basta despertar o interesse no começo da seleção. A empresa precisa manter
esse candidato engajado até o fim do processo", afirma.
A pesquisa mostra que 35% das empresas concentram a maior parte
das desistências entre as entrevistas. Outros 25,1% apontam que o abandono
ocorre após o candidato receber a proposta, enquanto 21,5% registram esse
movimento principalmente depois que o profissional já aceitou a oferta. Também
foram citadas desistências logo após a candidatura (14,8%) e antes da primeira entrevista
(13,5%).
Segundo Ana Paula, o aceite da proposta não significa que a
contratação esteja garantida.
"Mesmo depois de aceitar a proposta, o candidato pode
continuar recebendo contatos e avaliando outras oportunidades. Se a empresa
demora para dar retorno ou deixa esse profissional sem informação por vários
dias, aumenta a chance de que ele mude de decisão antes do primeiro dia de
trabalho", explica.
Disputa
não se resume ao salário
Embora a remuneração permaneça relevante, os resultados mostram
que a decisão de abandonar um processo seletivo envolve outros fatores além do
salário.
A remuneração abaixo da expectativa foi citada por 14,3% dos
respondentes, mas aparece próxima do modelo de trabalho, mencionado por 13%. A
falta de aderência entre candidato e vaga foi apontada por 10,3%, enquanto
benefícios pouco atrativos somaram 9,4%.
Para a executiva, isso reforça a necessidade de as empresas
apresentarem a oportunidade com clareza desde as primeiras etapas do processo.
"Quanto mais transparente a empresa é desde o início, menores
são as chances de criar expectativas diferentes entre os dois lados. O
candidato precisa entender o que a vaga oferece e o que será esperado dele para
decidir se faz sentido continuar no processo", afirma.
Na avaliação de Ana Paula, a disputa por profissionais não deve
ser tratada apenas como uma questão de velocidade. Um processo seletivo
organizado, com comunicação clara e previsibilidade, também influencia a
decisão do candidato.
"Velocidade não significa fazer uma contratação apressada.
Significa evitar esperas desnecessárias, manter o candidato informado e
garantir que cada etapa aconteça dentro do prazo combinado. Isso melhora a
experiência do candidato e também torna o processo mais eficiente para a
empresa", diz.
A executiva recomenda que as organizações acompanhem as etapas do
processo seletivo para entender onde estão os principais pontos de desistência.
Uma empresa que perde candidatos antes da entrevista pode enfrentar um desafio
diferente daquela que registra abandonos depois da proposta.
"Sem medir o processo, a empresa corre o risco de responder a
todos os problemas da mesma forma. Às vezes, a questão está na remuneração. Em
outros casos, está na demora, na falta de comunicação, no modelo de trabalho ou
na forma como a oportunidade foi apresentada. Os dados ajudam a identificar
onde estão os gargalos e permitem tomar decisões mais consistentes",
acrescenta.
Contratação
não termina com o “sim” do candidato
O fato de 21,5% dos respondentes apontarem a etapa posterior à
aceitação da proposta como o principal momento de desistência evidencia que a
relação com o candidato não termina no aceite.
Além de aumentar o tempo de preenchimento das vagas, a perda
recorrente de candidatos pode gerar retrabalho para as equipes de RH, elevar
custos de recrutamento e atrasar projetos estratégicos das empresas.
Nesse intervalo entre a proposta aceita e o início efetivo do
trabalho, manter uma comunicação ativa e reduzir períodos de silêncio ajuda a
diminuir incertezas e aumenta as chances de que a contratação seja concluída.
"O aceite representa um passo importante, mas não encerra o
processo. Até o primeiro dia de trabalho, a empresa ainda precisa manter esse
profissional informado e engajado para reduzir o risco de desistências",
afirma Ana Paula.
Ela ressalta, porém, que nenhuma prática elimina completamente as desistências. Mudanças pessoais, novas propostas e revisões de decisão fazem parte da dinâmica do mercado. O objetivo deve ser reduzir os abandonos provocados por falhas que poderiam ser evitadas.
"Nem toda desistência pode ser evitada. O importante é
reduzir aquelas que acontecem por falhas do próprio processo. Quanto mais
clareza e previsibilidade a empresa oferece, maiores são as chances de
transformar uma proposta aceita em uma contratação concluída", conclui.

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