Executivos de grandes companhias e bancos projetam desaceleração e possível recessão no próximo ano, com menor consumo, aumento da inadimplência e investimentos mais cautelosos
A pouco mais de quatro meses da
virada do ano, grandes empresas e bancos do Ibovespa preveem um cenário pouco
animador para a economia do país em 2027. Segundo levantamento feito pela
Folha de S.Paulo com as 76 companhias listadas no índice da Bolsa, a
expectativa de parte delas é que a economia cresça menos no próximo ano, e que
o juro alto afete ainda mais as operações na comparação com 2026.
Os dados levam em conta o
conteúdo das teleconferências de resultados do segundo trimestre deste ano.
O aumento do endividamento das famílias tem respingado até nas contas básicas,
como água e luz. Empresas do setor, como CPFL Energia e Copasa, têm
intensificado o corte no fornecimento de serviços.
"Há um desafio no pagamento das contas de energia, que reflete na última
linha no aumento da nossa inadimplência", apontou Gustavo Estrela, CEO da
CPFL Energia, ao comentar a alta do indicador: de 0,82%, no segundo trimestre
de 2025, para 1,08% este ano. "Nossa principal ferramenta de controle de
inadimplência são as ações de corte", afirmou.
Para a Copasa, que também classifica como desafiador o nível de endividamento
das famílias, a estratégia tem sido também adotar mecanismos antecipados de
cobrança e "mexer nas réguas de negociação", afirmou o CEO, Cleyson
Jacomini.
"Além dos pagamentos
eletrônicos, como Google Pay e Apple Pay, estamos trabalhando para ampliar a
forma de execução e aumentar a vigilância e a ação de cobrança, com cortes no
caso de inadimplência, para reverter essa tendência", afirma.
O cenário, segundo Marcelo Kfoury, professor de economia do Insper, mostra como
o alto endividamento vira uma bola de neve mesmo em meio às mínimas históricas
de desemprego.
"Alguém começa a pagar cheque especial, rotativo do cartão de crédito, e
não consegue pagar as contas que tem. A pessoa recebe R$ 2 mil por mês, paga R$
1 mil de prestação, e o resto sobra para comer, não sobra para pagar energia,
nem água. Ela vai escolhendo o que ela paga",
No setor varejista, Lojas Renner e Assaí falam em pressão no consumo diante da
Selic (taxa básica de juros) maior do que a esperada. CPFL Energia e Copasa, de
serviços básicos, mencionam calotes em contas de água e luz diante do endividamento
recorde das famílias.
Alfredo Setubal, CEO da holding Itaúsa, chegou a falar em "pequena
recessão", fazendo coro a Armínio Fraga, economista e ex-presidente do
Banco Central, no início do mês. A holding agrupa empresas de diversos setores,
como bancos (Itaú Unibanco), calçados (Alpargatas), concessões rodoviárias
(Motiva) e saneamento (Aegea).
Segundo o executivo, a economia tem desacelerado "apesar de todos os
incentivos que o governo tem dado para o aumento de consumo e para
renegociações de dívidas".
"Isso se refletirá em um
menor consumo das famílias, que já apresentam um nível de endividamento
bastante elevado. Estamos orientando as empresas investidas para ter um
orçamento mais moderado e mais cauteloso também", disse.
O setor bancário também deu
sinais de alerta na divulgação dos resultados. BTG Pactual e Santander
indicaram que o ambiente mais complexo de 2027 está se tornando um consenso no
mercado, com a inadimplência do crédito como principal ponto de atenção.
"O cenário mais desafiador de 2027 está se tornando um consenso. O nível
de endividamento do governo e das famílias é muito alto, a taxa de juros está
muito alta, e vai chegar um momento em que tudo isso vai impactar a
economia", afirmou Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual.
Nas projeções do Boletim Focus desta semana, a Selic terminará 2027 em 12% ao
ano, e o PIB, com crescimento de 1,5%. Para 2026, os especialistas consultados
seguem vendo expansão de 1,98%.
Empresas do varejo também indicaram cautela. O Assaí Atacadista enxerga um
"cenário de pressão de consumo" que deve perdurar e reajustou a rota
diante da Selic elevada.
"A companhia está muito
focada em desalavancar, então reduzimos níveis de investimento e seguramos uma
série de projetos [devido à Selic alta]", disse Belmiro de Figueiredo
Gomes, CEO do grupo.
Ele afirmou que o novo modelo
de negócios a ser expandido será o que inclui farmácias e até eletropostos nas
unidades. A Yduqs, de educação, também projeta que o cenário de 2027 será
desafiador, "muito parecido com o que foi 2026" na perspectiva
macroeconômica, com "renda muito apertada" e endividamento elevado.
A perspectiva da empresa, no
entanto, é positiva para o setor educacional, já que o próximo ano não será
marcado por eventos que distraem o consumo ou geram incerteza, como a Copa do
Mundo e as eleições presidenciais.
Selic nas
alturas
A cautela dos executivos tem relação com o ciclo de queda mais curto do que o
esperado da taxa Selic. Hoje em 14% ao ano, o juro básico opera nos dois
dígitos desde o início de 2022, para levar a inflação à meta de 3% do Banco
Central. Até o começo do ano, a projeção era que a taxa caísse mais
rapidamente, e alguns gestores chegaram a especular que os juros chegariam a
"no mínimo" 11% ao fim de 2026.
Mas a guerra no Irã e o subsequente choque no mercado de petróleo rapidamente
rebalancearam as projeções sobre o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo),
devido aos preços mais altos dos combustíveis.
Os incentivos do governo Lula (PT) em ano eleitoral tampouco ajudaram a baixar a
Selic: ao oferecer alternativas para a tomada de crédito, o Executivo mantém o
consumo aquecido, pressionando a inflação.
O brasileiro continua muito endividado. Segundo a CNC (Confederação Nacional do
Comércio), o endividamento das famílias atingiu o recorde de 82% em julho
- desse total, cerca de 30% estão inadimplentes e 12% declaram não ter
condições de pagar o que devem.
Como mostrou a Folha, esse cenário pode levar a uma perda de ritmo do consumo
em 2027, em um efeito rebote que, para economistas, embute o risco de uma
desaceleração mais forte que o esperado da atividade econômica. Para as
empresas, o efeito é em todas as pontas: fica mais difícil financiar as
operações e gerar receitas com consumidores que estão com o bolso mais
apertado.
"A Selic alta há bastante tempo cria um cenário desafiador para as
empresas, já que afeta as decisões de investimento e o custo das dívidas. E
afeta a receita, porque o consumo das famílias também está comprometido",
diz Joelson Sampaio, professor de finanças da FGV (Fundação Getúlio
Vargas).
Folhapress
Fonte: https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/empresas-veem-2027-mais-dificil-com-juros-altos-e-familias-endividadas

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