Especialistas alertam para os riscos do uso da inteligência artificial nas eleições e defendem transparência, fiscalização e atenção do eleitor na verificação de informações
A inteligência artificial já faz parte
do ambiente eleitoral e pode influenciar a forma como os eleitores buscam
informações sobre candidatos, propostas e o próprio processo eleitoral. Além da
produção de conteúdos sintéticos, como imagens, áudios e vídeos, o uso de
ferramentas de IA também levanta preocupações sobre a forma como informações
políticas são apresentadas e direcionadas ao público.
Levantamentos indicam que ferramentas
de inteligência artificial generativa já podem influenciar a forma como os
eleitores buscam informações sobre candidatos e o cenário político. Um estudo
do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio) analisou sete
plataformas de IA e identificou que seis apresentaram algum tipo de
ranqueamento ou priorização de candidatos em respostas relacionadas às eleições
de 2026.
Para Dhiego Soares, presidente da
Global Tech e especialista em inteligência artificial, o fenômeno merece atenção,
mas deve ser analisado sem alarmismo.
“O ponto central não é afirmar que a
inteligência artificial está escolhendo o voto do eleitor, mas reconhecer que
ela passou a fazer parte do ambiente informacional em que decisões são tomadas.
Quando uma pessoa pergunta a uma IA quais são os candidatos, quais são suas
propostas ou quem teria melhor desempenho em determinada área, a resposta deixa
de ser apenas uma conveniência tecnológica e passa a ter potencial de
influência”, explica Dhiego.
A característica das ferramentas
generativas exige atenção porque, diferentemente de uma busca tradicional, a IA
pode organizar informações e apresentar uma resposta única ao usuário. Para o
especialista, a tecnologia deve ser utilizada como ponto de partida, e não como
fonte definitiva.
“A principal recomendação é não tratar
a resposta de uma inteligência artificial como uma fonte definitiva. A IA pode
ser utilizada como ponto de partida para uma pesquisa, mas informações
eleitorais precisam ser confrontadas com fontes oficiais, programas de governo,
documentos públicos e veículos jornalísticos confiáveis”, afirma.
Além da forma como as informações são
apresentadas, o uso de IA em conteúdos de propaganda eleitoral também traz
desafios jurídicos. Newton Lins, advogado especialista em Direito Eleitoral,
explica que a tecnologia ampliou as possibilidades de produção e distribuição
de conteúdos políticos e tornou mais complexa a fiscalização da propaganda.
Segundo o especialista, recursos como
deepfakes, conteúdos manipulados, microtargeting e sistemas automatizados podem
fazer com que diferentes grupos de eleitores recebam mensagens distintas,
dificultando a identificação de eventuais abusos.
“A inteligência artificial generativa
transformou o ecossistema da propaganda eleitoral de modo mais profundo do que
qualquer tecnologia anterior, inclusive a televisão. A propaganda eleitoral
deixou de depender apenas de mensagens públicas, visíveis e uniformes, para
ingressar em um ambiente digital altamente segmentado, dinâmico e
personalizado”, explica Newton.
Para o advogado, um dos principais
desafios está justamente na possibilidade de conteúdos serem direcionados de
maneira individualizada, dificultando o acompanhamento por parte da Justiça
Eleitoral e do próprio eleitor.
“A mensagem não é mais pública e
uniforme, mas privada e multiforme. Esse fenômeno torna o controle judicial da
propaganda eleitoral incomparavelmente mais difícil”, afirma.
As regras eleitorais já estabelecem
parâmetros para o uso da inteligência artificial nas eleições de 2026,
incluindo exigências relacionadas à transparência e restrições para
determinadas formas de utilização da tecnologia. Nesse cenário, Newton destaca
que a regulamentação precisa ser acompanhada de fiscalização e conscientização.
“A efetividade dessas normas depende de
fiscalização técnica ágil e da educação digital do eleitorado. A existência de
regras é indispensável, mas não elimina, por si só, a dificuldade de acompanhar
conteúdos que circulam em grande volume, em diferentes plataformas e para
públicos segmentados.”
Para Dhiego, a questão também passa
pela capacidade do usuário de avaliar criticamente as respostas produzidas
pelas ferramentas.
“A inteligência artificial consegue
apresentar uma resposta com muita clareza e segurança, mas clareza não
significa necessariamente precisão. O usuário precisa entender que existe uma
diferença entre uma resposta bem escrita e uma informação comprovadamente
correta”, ressalta.
Na avaliação de Newton, a participação
do eleitor também é fundamental para reduzir os riscos de manipulação no
ambiente digital.
“A conscientização do eleitor é a
principal ferramenta de proteção. A inteligência artificial pode ampliar o
acesso à informação, mas também pode ser utilizada para distorcer fatos,
fabricar realidades e intensificar a polarização.”
O avanço da IA, portanto, coloca
tecnologia e legislação diante de um novo desafio nas eleições de 2026.
Enquanto as ferramentas passam a ocupar espaço na busca por informações
políticas, a regulamentação, a fiscalização e a capacidade do eleitor de
verificar diferentes fontes ganham importância na preservação da liberdade de
escolha.

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