Restrição alimentar, contaminação da água e falhas na adaptação às dietas de confinamento reforçam a necessidade de prevenção antes dos primeiros sinais
A redução da
disponibilidade e da qualidade das pastagens durante o período seco altera a
rotina das propriedades pecuárias. A suplementação, o uso de alimentos
conservados e a entrada de animais em sistemas de confinamento ajudam a manter
o desempenho produtivo, mas exigem cuidados sanitários e nutricionais para
reduzir a exposição a fatores associados às clostridioses.
O tema ganha
relevância diante do avanço da terminação intensiva no país. O Censo de
Confinamento Brasil 2025 mostrou que 9,25 milhões de bovinos foram abatidos
após passarem por sistemas de confinamento, volume 16% superior ao registrado
em 2024 e o maior da série do levantamento.
Com a expansão
desse modelo de produção, tornam-se ainda mais importantes os cuidados sanitários
e nutricionais capazes de reduzir os fatores de risco associados às
clostridioses. Embora a seca não seja a causa direta dessas doenças, a escassez
de alimento, a concentração dos animais em determinadas fontes de água, o
consumo de alimentos mal conservados e as mudanças bruscas na dieta podem
aumentar a vulnerabilidade do rebanho.
As clostridioses
são provocadas por bactérias do gênero Clostridium ou pelas toxinas produzidas
por esses microrganismos. Entre as mais conhecidas estão botulismo, tétano,
carbúnculo sintomático — a chamada manqueira —, gangrena gasosa, enterotoxemias
e hemoglobinúria bacilar. A vacinação, associada às boas práticas de manejo, é
uma das principais estratégias de prevenção.
“Durante a seca, o
desafio não está apenas na menor oferta de pastagem. Animais submetidos à
restrição nutricional podem buscar fontes alternativas para saciar a fome,
ficando mais expostos a plantas tóxicas, restos orgânicos e materiais
contaminados. A redução do volume e da qualidade da água também precisa ser
observada com atenção”, explica Ingo Mello, Médico-veterinário e Gerente
Técnico de Gado de Corte na Ourofino Saúde Animal.
Água e alimentos exigem atenção redobrada
Entre as
enfermidades relacionadas às condições encontradas na seca está o botulismo,
intoxicação causada por toxinas da bactéria Clostridium botulinum. A contaminação
pode ocorrer pela ingestão de água, ração, silagem ou feno com matéria orgânica
em decomposição, inclusive restos de pequenos animais ou aves.
Por isso, açudes,
bebedouros, caixas e demais pontos de dessedentação devem ser inspecionados com
frequência, especialmente quando há redução do volume de água. A conservação
adequada dos alimentos, a suplementação mineral e a retirada e destinação
correta de carcaças também ajudam a reduzir os riscos.
Outro momento de
atenção ocorre quando os animais deixam o pastejo e passam a receber dietas com
maior quantidade de concentrado. A adaptação precisa ser gradual, com
formulação adequada e acompanhamento profissional. Mudanças bruscas, erros no
fornecimento e diferenças individuais na resposta à dieta podem provocar
alterações ruminais, queda no consumo e distúrbios metabólicos, além de
favorecer enfermidades associadas a bactérias do gênero Clostridium.
Transporte,
mistura de animais de diferentes origens, mudança de ambiente e processamento
no curral também geram estresse. Por isso, o histórico sanitário deve ser
verificado antes da entrada no sistema intensivo, para que a proteção do lote
não comece somente quando os animais já estiverem expostos aos principais
desafios.
Prevenção deve começar antes do período de maior risco
Como algumas
clostridioses apresentam evolução rápida e opções limitadas de tratamento após
o aparecimento dos sinais, o protocolo preventivo deve ser definido com
orientação de um médico-veterinário e considerar idade, categoria, histórico
vacinal, condições da propriedade e desafios epidemiológicos da região.
Animais nunca
vacinados ou com histórico desconhecido geralmente precisam de um esquema inicial
com mais de uma dose para desenvolver proteção adequada, seguido dos reforços
recomendados e do cumprimento das condições corretas de conservação e aplicação
das vacinas.
“Quando falamos em
clostridioses, esperar o aparecimento dos sinais pode significar agir tarde
demais. A vacinação precisa ser planejada antes da seca, da mudança de dieta ou
da entrada no confinamento, com respeito ao esquema inicial e aos reforços”,
destaca Mello.
Soluções integradas ao protocolo sanitário
O especialista da
Ourofino Saúde Animal recomenda o uso de vacinas polivalentes, enfatizando a
aplicação e o reforço nas categorias de maior risco: animais de até um ano, com
histórico desconhecido ou em casos de surto. Para animais adultos já
imunizados, a recomendação é o reforço anual.
“A vacina é uma
ferramenta essencial, mas deve integrar um programa mais amplo. Água segura,
alimento bem conservado, adaptação nutricional, suplementação adequada e boas
práticas de aplicação atuam de forma complementar para reduzir riscos antes que
se transformem em perdas produtivas ou mortalidade”, destaca Mello.
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